sexta-feira, 1 de julho de 2022

Julho, o mês de Júlio César

 

O mês de Julho teve como designação original  Quinctilis por ser o quinto mês do antigo calendário romano. No ano 44 a.C., o Senado romano alterou-o para Julius, em homenagem a Júlio César, o célebre general das campanhas da Gália. É também a Júlio César que se deve a reforma do calendário “Juliano”.


01 de Julho de 1804: Nasce George Sand, escritora francesa.

 

Escritora francesa, de seu verdadeiro nome  Amandine Aurore Dupin, baronesa Dudevant, nascida a 1 de julho de 1804 e falecida a 8 de junho de 1876, inicia a publicação dos romances passionais Indiana e Valentine (1832) sob o pseudónimo masculino George Sand. Figura controversa da sociedade parisiense, tem uma longa ligação com Chopin e expressa as suas ideias políticas, caracterizadas por um socialismo idealista, em revistas e jornais. Uma nova fase da sua vida, passada no campo, repercute-se nos temas de François le Champi (1847-48) e La Petite Fadette (1849). Em Elle et Lui (1859), romance de cariz autobiográfico, aborda a sua ligação com Musset e inaugura uma fase memorialista (que viria a incluir Rêveries e Souvenirs, 1871-72). A sua Correspondência figura como um documento incontornável para o conhecimento do século XIX e de uma mulher de exceção.
George Sand. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
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George Sand na sua juventude  -Auguste Charpentier

 

01 de Julho de 1944: Começa a conferência de Bretton Woods que levará à criação do Banco Mundial e do FMI

 

As negociações para o estabelecimento de um Sistema Monetário Internacional (SMI) começaram, entre os Estados Unidos da América e o Reino Unido, ainda no decorrer da Segunda Guerra Mundial, em Julho de 1944. Os dois países tentaram estabelecer um padrão comum, perante o qual seriam definidos os valores das moedas nacionais. Chegados a um acordo, definiram o ouro-dólar como esse padrão. O ouro era um metal precioso cujo valor não sofria grandes flutuações e o dólar foi escolhido porque, no final da guerra, a economia norte-americana era considerada a mais estável.O acordo de Bretton Woods teve como objectivos  principais promover a cooperação internacional através das instituições monetárias, facilitar a expansão do comércio internacional, implementar a estabilidade dos câmbios e contribuir para a instituição multilateral de pagamentos. Deste acordo resultou também o estabelecimento do Fundo Monetário Internacional (FMI), destinado a assegurar os mecanismos de apoio financeiro necessários à estabilidade do SMI.O acordo assentava em três bases fundamentais: a convertibilidade de todas as moedas que participam no SMI, a paridade das moedas e o equilíbrio das balanças de pagamentos.O sistema de Bretton Woods funcionou com sucesso até aos anos 60, altura em que surgiram os primeiros problemas. A principal causa da crise ficou a dever-se à instabilidade do dólar norte-americano. Os estados-membros aperceberam-se de que o dólar não podia servir como padrão comum. Em 1970, a crise económica e política dos EUA levou ao colapso definitivo do sistema instituído em Bretton Woods.
Conferência de Bretton Woods. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. 
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O Hotel Mount Washington, em Bretton Woods, New Hampshire, local da histórica Conferência de 1944
 

 



01 de Julho de 1751: Com discurso de d'Alembert, é publicado o primeiro volume da Enciclopédia

 

 No dia 1 de Julho de 1751 é publicado o primeiro volume da Enciclopédia, precedida por discurso de d'Alembert. Foi nessa data o início de uma aventura editorial sem precedentes que iria arejar as ideias em França e em toda a Europa.

O projecto nascera seis anos antes do desejo do livreiro Le Breton de traduzir a Cyclopaedia do autor inglês Ephraïm Chambers - um dicionário ilustrado das ciências e das artes publicado em 1728.

O livreiro e editor submete a sua ideia a Denis Diderot, que na época tinha 32 anos. Esse impetuoso e ambicioso rapaz, que se dizia "filósofo", passou a visar não mais uma simples tradução e sim um "quadro geral dos esforços do espírito humano em todos os géneros e em todos os séculos" Foi assim que surgiu o nome 'enciclopédia', neologismo forjado segundo uma expressão grega que designa as ciências destinadas a ser ensinadas.

Diderot resolve valer-se também dos serviços do seu amigo, o matemático e filósofo Jean Le Rond d'Alembert. Em Outubro de 1750, expõe o seu projecto num prospeto tendo em vista atrair subscritores. Mais de 2 mil responderam ao apelo e pagaram cada um 280 libras. Ou seja, o equivalente ao rendimento anual de um operário. Alguns dos maiores espíritos da época aceitaram colaborar com a grandiosa obra editorial.
Jean d'Alembert, principal autor da Enciclopédia ao lado de Diderot, era filho natural do cavaleiro de Touches e de uma dama da alta aristocracia, Madame de Tencin.
Abandonado ao nascimento em 11 de Novembro de 1717 nas escadarias da igreja  Saint-Jean Le Rond – daí o seu segundo nome – recebe entretanto uma excelente educação graças aos subsídios do seu pai natural. Torna-se um sábio e um pensador muito requisitado que as pessoas arrastavam aos salões mundanos de Paris, como os de Madame Geoffrin, de Madame du Deffand e de Julie de Lespinasse, por quem se apaixonaria sem esperança até  à sua morte.
Por seu lado Denis Diderot consegue também a protecção da influente marquesa de Pompadour, amante do rei Luis XV. O sucesso da Enciclopédia é imediato em França e nos demais países da Europa das Luzes. A sua tiragem  alcança prontamente os 4200 exemplares, um número extraordinário  tendo em conta também o custo da obra.
A publicação teve os seus problemas. Além de acusações de heresia, teve que enfrentar constantemente as acusações dos religiosos. Os Enciclopedistas são culpados de criticar a religião católica. Os jesuítas, alicerçados no seu prestígio em matéria de educação, são os adversários mais virulentos.

De maneira totalmente inesperada, Jean-Jacques Rousseau desentende-se com Diderot e passa a  opor-se à Enciclopédia em virtude do artigo Genebra no qual d'Alembert critica os modos e costumes austeros da cidade calvinista. Rousseau publica então a Carta a d'Alembert sobre os Panoramas.

Em 8 de Março de 1759, com base num falacioso pretexto, o Conselho de Estado proíbe a venda da Enciclopédia e exige o reembolso aos 4 mil subscritores.

D'Alembert, desencorajado, renuncia a levar adiante o empreendimento. Os dois últimos tomos são publicados clandestinamente por Diderot em 1765 e os derradeiros volumes de páginas e pranchas ilustradas são enfim publicadas sem a participação de Diderot em 1772.

No total, em trinta anos, foram publicados 28 volumes compreendendo 11 volumes de pranchas ilustradas e mais de mil artigos com a assinatura de cerca de 200 autores, entre os quais os mais reputados do seu tempo: Voltaire, Montesquieu, Rousseau, Condorcet, Quesnay, Turgot, Marmontel, Helvétius, barão d'Holbach.
Fontes: Opera Mundi
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Jean-Baptiste le Rond d'Alembert por Maurice Quentin de La Tour
Denis Diderot, por Louis-Michel van Loo

01 de Julho de 1916: Primeira Guerra Mundial, início da primeira batalha do Somme

 

Prolongada batalha travada por ingleses e franceses contra as forças alemãs durante a I Guerra Mundial na região do rio Somme, em França, no ano de 1916. Durante o ano de 1915 foi combinada uma ofensiva conjunta franco-britânica; contudo, o ataque alemão em Verdun (fevereiro de 1916) veio alterar esta estratégia e a operação aliada passou a ter uma escala bem menor e centrada no Somme, em França, um lugar desfavorável, dada a enorme concentração de defesas alemãs. Encurralado em Verdun, numa situação quase desesperada, o exército francês apelava para uma manobra de diversão inglesa que aliviasse a pressão exercida pelos germânicos. Desse modo, o comandante-em-chefe britânico Sir Douglas Haig foi obrigado a lançar uma ofensiva, chamada "o Grande Empurrão", num tempo e num lugar que não escolhera; ele e os seus comandos militares duvidavam do sucesso da operação. Durante uma semana, as posições alemãs foram permanentemente bombardeadas com o objetivo de "abrir caminho" para a infantaria aliada; contudo, os estragos causados foram mínimos: as barreiras de arame mantinham-se intactas em muitos locais e as trincheiras e abrigos militarizados praticamente não sofreram estragos. A ofensiva aliada, com cerca de 30 km de frente, lançada à luz do dia, às 7 horas da manhã de 1 de julho, foi um falhanço desastroso em grande parte dos setores; o fogo das metralhadoras alemãs abriu enormes clareiras nas vagas de assalto da infantaria. Com algumas honrosas exceções (como, por exemplo, a da 36.ª Divisão, do Ulster), os objetivos ficaram por atingir e muitos batalhões foram completamente aniquilados. As baixas desta trágica ofensiva cifraram-se na perda de 57 470 homens, ou seja, as maiores que o exército britânico alguma vez sofreu num único dia.Algumas lições, sobretudo de tática militar, foram retiradas deste fracasso. No dia 14 de julho, o New Army Soldiers lançou uma ofensiva de surpresa, de madrugada, sem grande preparação prévia de bombardeamentos e conseguiu capturar um extenso setor da segunda linha defensiva alemã, entre Longueval e Bazentin le Petit.
Nos primeiros dias da batalha, as baixas germânicas foram comparativamente diminutas em relação às perdas britânicas; contudo, a sua propensão para lançar repetidos contra-ataques rapidamente causou perdas semelhantes às dos antagonistas.
No dia 15 de setembro, os ingleses inauguraram uma nova era na guerra moderna utilizando tanques (40) pela primeira vez; contudo, apesar de alguns avanços espetaculares proporcionados por estes "terríveis monstros", os tanques ainda eram extremamente lentos, não muito fiáveis e em número pouco significativo para trazerem grandes modificações na tática militar; de qualquer modo, o seu efeito psicológico teve grande impacto.
A campanha estendeu-se pelo fim do ano e tornou-se penosa, sobretudo após as primeiras chuvas. Havia lama por todo o lado, os exércitos pouco avançavam, o material deteriorava-se, as condições de existência das tropas nas trincheiras eram desoladoras. Desde o início da ofensiva pouco se ganhou em termos territoriais; em fevereiro de 1917 os alemães iniciam uma retirada não forçada (embora este facto possa indiciar que as condições dos seus exércitos não seriam as melhores), preparando as defesas da "Linha Hindenburg". Do mesmo modo, torna-se difícil determinar um vencedor claro da mesma batalha pela comparação das baixas; estima-se que entre o início da ofensiva (1 de julho) e 19 de novembro de 1916, os ingleses terão perdido cerca de 420 mil homens e os franceses cerca de 200 mil; os alemães, por seu turno, terão perdido entre 450 mil e 680 mil homens entre mortos e feridos incapacitados para o combate. O dia 1 de julho de 1916, pela enorme quantidade de vidas ceifadas, ficou em termos de cultura popular conhecido como o "Dia da Batalha do Somme".
Batalha do Somme. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
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A corrida para o parapeito no início da ofensiva. 1 de julho de 1916
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A infantaria britânica avançando para tomada de Morval, durante a Batalha do Somme

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quinta-feira, 30 de junho de 2022

30 de Junho de 1805: Morre, em Lisboa, o intendente geral da polícia Pina Manique, impulsionador da Casa Pia

 

Moço fidalgo, primeiro senhor de Manique do Intendente; 4.º senhor do morgado de S. Joaquim, na vila de Coina; alcaide-mor de Portalegre, comendador da ordem de Cristo, chanceler­-mor do reino, desembargador do Paço; intendente geral da polícia da corte, e reino; administrador geral da Alfândega Grande de Lisboa; feitor-mor das mais alfândegas do reino; administrador da Casa Pia do castelo de S. Jorge; bacharel formado em Leis pela Universidade de Coimbra, juiz do crime do bairro do Castelo...
Nasceu  a 3 de Outubro de 1733 e faleceu a 30 de Junho de 1805. 
Depois da sua formatura, foi nomeado juiz do crime ao bairro do Castelo, lugar que ocupava em 1762, e mostrou grande zelo e actividade, quando se tratou do recrutamento para a guerra que nesse ano se declarou contra a Espanha. No ano seguinte, 1763, também deu provas de grande energia e habilidade para satisfazer as reclamações do príncipe de Lippe para o fornecimento de lenha da guarnição de Lisboa. Sendo ao mesmo tempo implacável e zeloso na perseguição dos contrabandistas, conquistou assim as boas graças do marquês de Pombal que o nomeou superintendente geral dos contrabandos e descaminhos, e contador da fazenda. O marquês de Pombal confiava tanto no seu zelo que em 1777, quando se tratou de assaltar a Trafaria para apanhar os refractários que se tinham ali escondido, encarregou Pina Manique dessa comissão, lembrado talvez do zelo de que ele dera provas por ocasião do recrutamento de 1762. Manique justificou perfeitamente a confiança do marquês de Pombal, porque cumpriu à risca as suas ordens, e com uma crueldade digna do homem que dessa missão o incumbira, deitou fogo às casas desses pobres pescadores de forma que não pudesse escapar nem um só dos refractários, que vinha prender, senão resignando-se a morrer queimado. 
Esta prova de confiança do marquês do Pombal, e o modo como Pina Manique executou essas ordens, não o deviam recomendar muito à benevolência de D. Maria I, mas Pina Manique teve a habilidade de conservar as boas graças do novo governo, e, por morte do intendente de policia Manuel Gonçalves de Miranda, foi Diogo Inácio de Pina Manique, já, desembargador dos agravos da Casa da Suplicação, nomeado para esse lugar por decreto de 18 de Janeiro de 1780, conservando-se-lhe todos os lugares que até então exercia, e que eram os de desembargador dos agravos da Casa da Suplicação, contador da fazenda, superintendente geral dos contrabandos e descaminhos e fiscal da junta da administração da companhia de Paraíba e Pernambuco, e dando-se-lhe por ajudante, como ele requerera, o seu irmão António Joaquim de Pina Manique, desembargador da Relação e Casa do Porto. Esta acumulação extraordinária de empregos fez com que o governo entendesse que lhe não devia dar os 8.000 cruzados, 3.200$000 réis, que eram até então o ordenado dos intendentes da policia, e arbitrou lhe apenas o vencimento de 4.000 cruzados, o que o não impedia, de juntar em ordenados somas verdadeiramente fabulosas. Pina Manique obteve a criação de um corpo de polícia, a pé e a cavalo, que, bem organizado e bem composto, prestou à segurança pública os mais relevantes serviços. Pediu também ao ministro do reino, marquês de Angeja, 20.000$000 réis para criar a iluminação da cidade. O ministro não lhos quis dar. Então Manique tomou a iniciativa, obrigou cada funileiro da cidade a fazer seis candeeiros para a iluminação, impôs a cada um dos moradores das ruas iluminadas uma capitação de 100 réis, e conseguiu enfim apresentar na noite de 17 de Novembro de 1780 Lisboa iluminada com 770 candeeiros. O intendente não parava no caminho dos melhoramentos. Tratou de estradas, mandou fazer a que vai de Queluz à Ajuda, e mandou arborizá-la.
Mandou plantar, em muitas outras, estacas de oliveira. Mandou fazer quase completamente de novo a estrada de Santarém a Alverca e a ponte que fica próximo desta vila. Mandou arborizar a estrada de Palhavã à Porcalhota. Saiu mesmo um pouco das suas atribuições no seu ardor pelos melhoramentos, dirigiu para o Alentejo tanto quanto podia os colonos que já então se encaminhavam de preferência para o Brasil. Mandou vir dos Açores 450 famílias, compreendendo 2.033 pessoas de ambos os sexos, que estabeleceu em Setúbal, Ourique, Beja, Évora e Portalegre, dando-lhes instrumentos de agricultura, e distribuindo-lhes terras. Uma das criações mais notáveis de Pina Manique foi a da Casa Pia de Lisboa. Logo em 1780, apenas tomou conta da intendência, estabeleceu Manique no castelo de S. Jorge um colégio, onde recolhia e educava à custa da intendência as crianças que andavam vadiando. Em 1782 obteve autorização para criar a Casa Pia, e foi essa a sua obra predilecta. Constava este estabelecimento do colégio de S. Lucas em Lisboa, e doutro em Coimbra, filial do de Lisboa, chamado vulgarmente o Colégio da broa. Em 1804 tinha o de Lisboa 150 estudantes e o de Coimbra 84. Havia também o recolhimento da rainha Santa Isabel, onde em 1801 sustentava e educava 220 órfãs desamparadas; o colégio de Santa Margarida de Cortona, casa de correcção de mulheres, onde chegaram a estar 280, outro para a correcção e doutrinamento de rapazes libertinos. Tinha também uma casa de correcção para mendigos de um e de outro sexo, um laboratório químico, onde se fabricavam gratuitamente remédios para os pobres. Mais ainda, estabeleceu Manique em Roma um colégio para estudo de belas artes, colégio onde estudaram Domingos António de Sequeira e Vieira Portuense; em Edimburgo e em Londres colégios para o estudo de cirurgia. Ainda mais: sustentava num colégio em Coimbra, destinado ao estudo das ciências naturais, 18 religiosos de S. João de Deus, distribuía quinhentas e tantas rações a homens impossibilitados de trabalhar, depois de terem servido no exército, nas artes ou nas manufacturas; criava e educava no colégio de Santo António 190 órfãos.  Quando Pina Manique deixou de ser intendente de polícia, a Casa Pia começou a declinar sensivelmente, até que foi extinta no tempo dos franceses, reorganizando-se depois em outras bases. Em todos os ramos da sua administração foi Pina Manique iniciador audacioso e desembaraçado. Foi ele também que estabeleceu em Portugal o sistema da inspecção sanitária das mulheres que se dedicavam à prostituição, por ordem de 27 de Abril de 1781. Pôs cobro à relaxação a que tinham chegado as rodas dos expostos.
Estas são as grandes qualidades de Pina Manique, vamos agora vê-lo debaixo do aspecto que lhe deu uma triste celebridade. Se Pina Manique era um revolucionário como seu grande mestre marquês de Pombal, era o também como ele, sem o suspeitar, e ninguém havia que fosse mais ferrenho inimigo da revolução e da liberdade. Apenas rebentou a revolução francesa, Pina Manique mostrou-se implacável perseguidor dos que em Portugal lhe pretendiam implantar as ideias e seguir os princípios, e, como era hábil, perspicaz e zeloso, a sua perseguição foi eficaz e sem tréguas. Destruía as lojas maçónicas que principiavam a estabelecer-se, expulsava os franceses que pareciam simpatizar com as máximas liberais do novo governo do seu país, impedia cuidadosamente a entrada de livros perigosos, prendia, deportava, punia de todos os modos os portugueses mais ilustrados que pareciam acolher com boa sombra os bons princípios, e, se não ensanguentou as praças de Lisboa com as execuções que depois as mancharam no tempo de D. Miguel, foi porque também o que ele tinha a punir eram apenas aspirações vagas e simpatias estéreis; contudo quantos homens ilustres, como Flinto Elísio e Félix de Avelar Brotero, não obrigou a sair de Portugal! E contudo era um homem ilustradissímo, um dos precursores da Revolução Francesa, um desses grandes reformadores do século XVIII, que se achavam mais ou menos imbuídos das ideias da filosofia do seu tempo; mas, como todos os outros da mesma têmpera, não compreendeu a revolução, avaliou a só pelos seus desvairamentos, e não viu que a liberdade era o complemento necessário dessas reformas do marquês de Pombal, que ele aplaudira e continuara, que não se expulsavam os jesuítas para se continuar com o sistema da escravização do pensamento, que não se introduziam nas escolas os métodos novos para depois se porem peias às ciências, e, implacável contra os inovadores como o marquês de Pombal o seria também, tornou o seu nome lendário nos fastos das perseguições políticas, como o tornara célebre anteriormente nos fastos das grandes reformas justas e humanitárias. Tinha, porém, Pina Manique de ser vitima exactamente das exigências dessa França revolucionária, cujos partidários ele perseguia implacavelmente. Enquanto ele prendia e deportava em Lisboa os escritores, os homens ilustrados, todos os que se podiam considerar como partidários dessas ideias, por mais remotas que fossem essas suspeitas, Portugal via-se obrigado a suportar as exigências do governo da república francesa, e a humilhar-se diante das exigências do seu enérgico ditador, o primeiro cônsul Napoleão Bonaparte. 
Depois da desastrosa campanha de 1801 veio para Portugal como embaixador francês o célebre general Lannes depois marechal do Império, soldado de fortuna, incapaz de exercer cortesmente as suas funções diplomáticas. Foi verdadeiramente insólito o seu procedimento em Portugal, tratava com um desprezo inacreditável o próprio príncipe regente, e obrigou todos a curvarem-se diante das suas exigências. Fazia em Portugal um contrabando impudentissimo à sombra dos seus privilégios de embaixador, e, como Pina Manique; na sua qualidade de director geral das alfândegas, procurou coibir esses abusos, pediu em altos gritos a demissão de Pina Manique. Uma das perseguições habituais de Pina Manique, a ordem que deu para ser posto fora do país o ilustríssimo francês Antoine Matheom de Curnieu, que residia aqui havia muito tempo e que Lannes protegia, serviu de pretexto a Lannes para exigir energicamente a sua demissão de intendente de polícia. Resistiu quanto pôde o príncipe regente, mas Lannes, furioso, declarou que, não se fazendo a sua vontade, saía de Portugal, e saiu. Não aprovou Bonaparte o procedimento insólito do general, que assim violava todas as praxes das relações diplomáticas, mas exigiu que, em troca da desaprovação que ele infligia a Lannes, se demitisse do lugar de director da alfândega Pina Manique, por ele, dizia, se mostrar hostil ao comércio francês. Como a corte de Lisboa se não apressou a cumprir as suas ordens, Bonaparte mandou que o general Lannes partisse de novo para Lisboa, o que era um verdadeiro insulto à corte portuguesa. Pois assim que o príncipe regente teve conhecimento desse facto, imediatamente demitiu Pina Manique, sempre, com todas as atenções, conservando-lhe o ordenado que vencia, e dizendo no decreto, datado de 14 Março de 1803, que a demissão era dada a pedido e instância do demitido. Pina Manique apenas sobreviveu dois anos a esta humilhação. 
Casara a 8 de Dezembro de 1773 com D. Inácia Margarida Umbelina de Brito Nogueira e Matos, filha única, natural e legitimada, em 11 de Dezembro de 1769, do Padre Nicolau de Matos Nogueira de Andrade, fidalgo cavaleiro da Casa Real; do conselho de el-rei D. José, monsenhor da Igreja Patriarcal, governador do arcebispado de Évora, que morreu preso de Estado, no reinado do referido monarca, e de D. Ana Joaquina de Santa Teresa de Sampaio.
Fontes: www.arqnet.pt 
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Alegoria à Fundação da Casa Pia de Belém  Domingos António de Sequeira

30 de Junho de 1793 : Inauguração do Teatro S. Carlos

 

O projeto do Teatro de S. Carlos encomendado ao arquiteto José da Costa e Silva surge encabeçado por um grupo de capitalistas de Lisboa, que contaram com o apoio do Intendente Diogo Pina Manique. Pretendia-se dotar a capital de um teatro lírico portador dum novo espírito, diferente do antigo teatro de corte, com entrada por convite, na medida em que quem pagava bilhete tinha automaticamente lugar assegurado.Este teatro, homenagem a D. Carlota Joaquina, foi construído em apenas sete meses, sendo solenemente inaugurado a 30 de junho de 1793, durante a governação de D. João VI, filho de D. Maria I.A nível planimétrico inspira-se no Teatro de S. Carlos de Nápoles, obra de Medrano datada de 1737 - destruído por um incêndio -, embora a fachada se baseie no Scalla de Milão, de Piermanini (discípulo de Vanvitelli), construído entre 1776 e 1778. Este erguia-se sobre um enbasamento em silharia de junta fendida e apresentava um corpo central, não muito saliente. Na fachada recorria à utilização de vários ressaltos para valorizar o corpo central. O ático de balaústres e urnas era coroado por frontão triangular.
O nosso teatro possui embasamento em silharia de junta fendida, mas o corpo central apresenta um avanço muito maior, de pórtico em ressalto para passagem das carruagens, formando uma varanda na parte superior, muito elegante, com grinaldas. O corpo superior a impressão de ter sido um acrescento posterior e é coroado por uma urna com as armas reais portuguesas. Este edifício, que possuía apenas a fachada principal trabalhada, sendo as restantes lisas, nem por isso deixa de plasmar um estilo que aqui adquire a maturidade.
No interior trabalharam artistas importantes, como Cyrillo Volkmar Machado (autor das pinturas do teto da entrada e do pano da boca, entretanto desaparecidos), Manuel da Costa (pintou o teto da sala, que também não subsistiu) ou Appiani, autor da tribuna real.

A sala possui cinco ordens de camarotes animados pelo brilho da talha dourada que, a par com as escadarias de largas proporções, os mármores da tribuna ou a decoração do Salão Nobre, concorrem para a criação duma atmosfera mais próxima do barroco. No andar térreo, junto às escadarias, situam-se o botequim e a bilheteira. Neste piso, a decoração é contida.O primeiro empresário do Real Teatro de S. Carlos foi o italiano Francesco Lodi e na ópera inaugural cantou-se "La Ballerina Amante", de Cimarosa.
Teatro de S. Carlos. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
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Fachada principal do Teatro
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Interior do Teatro

Lisboa. Teatro de S. Carlos (vista interior) - último quartel do séc. XIXTheatro de S. Carlos. Aspecto da sala por occasião do sarau em benefício dos Albergues Nocturnos