quinta-feira, 23 de maio de 2013

Análise da obra: "A Morte de Marat" de Jacques - Louis David


Jacques Louis David, discípulo de Vien (diretor da Academia), aperfeiçoou a sua linguagem clássica durante uma prolongada estadia em Roma, entre 1774 e 1780. De volta à França, o pintor estabeleceu fortes ligações, com os líderes políticos da Revolução Francesa, o que lhe permitiu assumir um papel de relevo sobre a produção artística nesse país. Revolucionário não ao nível político mas também enquanto artista, David assinala, através de uma suas obras pioneiras, "O Juramento dos Horácios" (1784), o fim do estilo rococó (representado por Fragonard) e a ascensão da estética neoclássica.

O quadro "A Morte de Marat" representa um acontecimento emblemático da Revolução Francesa (o assassinato de um dos seus chefes políticos), denunciando em simultâneo as divergências e os conflitos internos que rodearam o processo revolucionário e que foram solucionadas com a ascensão de Napoleão Bonaparte. Jean-Paul Marat, amigo pessoal de David, tinha uma doença de pele especialmente dolorosa que o obrigava a permanecer dentro de uma banheira durante o dia enquanto trabalhava. Um dia, Charlotte Corday entrou no aposento, tendo como pretexto a entrega de uma mensagem e assassinou-o, enterrando-lhe uma faca no peito.Para David, este quadro foi concebido como um monumento para um homem que foi simultaneamente herói, mártir e amigo. Embora dominada por uma forte emotividade, a obra deve também ser entendida a partir de um ponto de vista documental, enquanto testemunho e descrição da ação. Como em muitos outros trabalhos iniciais David, todos os objetos presentes na tela têm uma função concreta, tendo sido evitado qualquer detalhe ou alusão supérflua de forma a não prejudicar a clareza do tema. Desta forma, a composição é francamente encenada, de forma incluir todos os sinais e pistas para uma identificação e compreensão do acontecimento: a banheira, a faca, a carta, a ferida e o sangue.
À simplicidade e estaticidade da composição, dominada por fundo escuro liso que encerra a imagem, contrapõe-se o expressivo e vital tratamento da luz e da cor que revelam uma direta inspiração em algumas experiência pictóricas de temática religiosa dos pintores barrocos Caravaggio, Pietro da Cortona, Ribera e Zurbarán, pelos quais David nutria uma especial admiração. Uma fonte luminosa rasante ilumina a figura partir de um ponto alto, criando uma atmosfera mística acentuada pela vibração cromática do fundo. A utilização de tons frios e tendencialmente escuros permitiu realçar alguns pormenores dos corpo morto recorrendo a subtis e simbólicas manchas avermelhadas, contribuindo igualmente para destacar a caixa de madeira onde David inscreveu a sua dedicatória.

O sentido moralístico e didático desta pintura anuncia o carácter propagandístico dos trabalhos posteriores de David que, enquanto pintor favorito de Napoleão Bonaparte, se tornou um dos expoentes máximos da pintura histórico-patriótica oficial.
O quadro "A Morte de Marat" (com as dimensões de 165 por 128 centímetros) está exposto no Musée Royal des Beaux-Arts de Bruxelas.

Aspectos Importantes: 


A luz: a luz de “A Morte de Marat” é bastante teatral. Enquanto o caixote, a cabeça e os braços de Marat estão bem iluminados, os detalhes mais sangrentos ficam nas sombras.

Marat: em vida, Marat era um homem radical e impetuoso. Além disso, sofria de uma doença de pele, que deformava as suas feições. Mas em “A Morte de Marat”, este é retratado jovem e belo, com uma expressão serena no rosto. A sua posição lembra a “Pietà”, de Miguel Ângelo, conduzindo a uma analogia com a iconografia cristã.
Os móveis: a simplicidade dos móveis e utensílios no quadro “A Morte de Marat” revelam um Marat de poucas posses, um homem do povo. O caixote com a dedicatória de David lembra uma lápide.
O assassinato: Marat é retratado neste quadro instantes após o seu assassinato, cometido pela jovem Charlotte Corday. Quase não há sangue em “A Morte de Marat”, apenas algumas gotas e a água da banheira, avermelhada. Jacques Louis David escolhe concentrar a atenção do observador no mártir, e não no crime em si.
A faca: deixada no chão, a faca é do mesmo tamanho da pena utilizada por Marat. Estes objectos contam a história do crime. Enquanto Charlotte utiliza uma arma, Marat luta com ideias. 
Os bilhetes: dois bilhetes aparecem em “A Morte de Marat”. Um está nas mãos de Marat, e é o suposto documento que lhe foi entregue pela assassina, Charlotte. Está escrito: “ "Il suffit que je sois bien malheureuse pour avoir droit a votre bienveillance". No outro bilhete, Marat faz uma doação  a uma viúva de guerra. O autor procura retratar a generosidade de Marat.

A Morte de Marat. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. 
abstracaocoletiva.com.br
wikipedia (Imagens)


File:Death of Marat by David.jpg

Detalhe do bilhete de Charlotte Corday  "Il suffit que je sois bien malheureuse pour avoir droit a votre bienveillance"
File:Death of Marat by David (detail).jpg


Outras Versões

File:Charlotte Corday.jpg
Charlotte Corday  - Paul Jacques Aimé Baudry (1860)

A Morte de Marat - Joseph Roques
File:Joseph Roques - La mort de Marat - 1793.jpg

A Morte de Marat - Santiago Rebull
File:Rebull - La muerte de Marat.jpg





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