Há mais
de 70 milhões de anos, no Cretácico Superior, o nível do mar tinha subido
significativamente e muitas terras estavam submersas – a América do Norte não
era excepção e o resultado foi o aparecimento de um mar interior de águas pouco
profundas, estendendo-se desde o oceano Árctico até ao golfo do México e que
dividiu o continente em duas massas de terra. Uma era a ilha Laramídia, onde
habitava um “extraordinário dinossauro”, como refere o título do artigo
científico que o descreve, por ter um nariz particularmente grande e uns cornos
que mais pareciam os de um boi.
O lado invulgar do bicho está expresso no nome científico
escolhido pela equipa de Scott Sampson, então conservador do Museu de História
Natural do Utah e agora vice-presidente das colecções e investigação do Museu
de Ciência e Natureza de Denver, nos Estados Unidos: Nasutoceratops quer dizer em latim “cara cornuda com
nariz grande”. O nome completo, Nasutoceratops
titusi, é ainda uma homenagem a Alan Titus, paleontólogo do Monumento
Nacional Grand Staircase-Escalante, uma enorme zona desértica no estado do Utah
onde o dinossauro foi encontrado.
O primeiro exemplar foi descoberto em 2006, por um
estudante da Universidade do Utah, seguindo-se outros fósseis deste dinossauro,
todos guardados no Museu de História Natural do Utah, em Salt Lake City, e que
serviram de base ao artigo que descreve a nova espécie na revista britânicaProceedings
of the Royal Society B.
Ela é a mais recente aquisição do grupo de dinossauros
com cornos, ou ceratopsídeos, de que o Triceratops,
com nove metros de comprimento e mais de cinco toneladas, é o representante
mais famoso. Eram corpulentos, quadrúpedes, herbívoros e tinham um focinho em
forma de bico de papagaio. A maioria das espécies tinha um grande crânio com um
único corno no nariz e outros dois por cima dos olhos e um escudo ósseo na
parte de trás da cabeça.
Em relação aos outros ceratopsídeos, o Nasutoceratops, além das
particularidades do nariz e dos cornos longos e curvados para a frente,
apresentava diferenças no escudo ósseo, menos ornamentado com espinhos. Tinha
cinco metros de comprimento e atingia 2,5 toneladas.
Olfacto apurado?
Para que serviam os cornos e os escudos é uma questão para
a qual a comunidade científica não tem resposta segura. Hipóteses não faltam,
indo desde a defesa de predadores e do controlo da temperatura do corpo até ao
reconhecimento de indivíduos da mesma espécie e à competição sexual. Esta
última hipótese, a mais aceite pela comunidade científica, considera que os
escudos e cornos tinham a função de intimidar os indivíduos do mesmo sexo e
atrair os do sexo oposto, como acontece por exemplo com as caudas dos pavões e
as antenas dos veados.
“É muito provável que os cornos extraordinários do Nasutoceratops fossem usados como sinais
visuais de domínio e, quando isso não chegava, como armas para combater os
rivais”, considera um dos cientistas da equipa, Mark Loewen, em comunicado da
universidade do Utah.
“Provavelmente, o nariz de Jumbo de Nasutoceratops não tinha nada a ver com um
cheiro apurado – uma vez que os receptores do olfacto estão mais para trás na
cabeça, junto ao cérebro – e a função desta bizarra característica permanece
incerta”, esclarece, por sua vez, Scott Sampson.
Voltemos à Laramídia: o Utah ocupa agora a parte sul
dessa ilha de outrora, que era quase do tamanho da Austrália e onde o
protagonista desta história vivia há 76 milhões de anos num ambiente pantanoso
e quente, a cerca de 100 quilómetros da costa do Mar Interior Ocidental, que
dividia o continente em duas massas de terra. A Laramídia, muito rica em
fósseis de dinossauros, estava do lado oeste e a Apalachia a leste.
A equipa quer agora perceber o que levava umas espécies
de dinossauros a habitar o Norte da Laramídia (Alberta, no Canadá, e Montana,
nos Estados Unidos), enquanto outras se ficavam pelo Sul (nos estados
norte-americanos do Novo México e do Texas, além do Utah). E como é que nessa
ilha conviviam cerca de duas dezenas de espécies de dinossauros de tamanho
considerável, enquanto actualmente em toda a África só existem cinco espécies
de mamíferos gigantes, do tamanho de elefantes e rinocerontes, sublinha o
comunicado.
“O Nasutoceratops”,
conclui Eric Lund, outro investigador da equipa, “é um maravilhoso exemplo do
quanto ainda temos para aprender sobre o mundo dos dinossauros”.
Fonte: Público
Ilustração científica do dinossauro Nasutoceratops
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