Espiões,
esplanadas cheias de refugiados, artistas, políticos e membros da realeza a
encher os hotéis, jornalistas, revistas de propaganda, manobras diplomáticas:
Lisboa foi, durante a II Guerra Mundial, um refúgio e uma via de fuga da Europa
em guerra. Uma exposição no Terreiro do Paço recorda esses anos
Eram as luzes iluminando a noite de Lisboa, como se a
cidade estivesse em festa, que mais surpreendiam os refugiados acabados de
chegar de uma Europa mergulhada na guerra e na escuridão. No Verão de 1940
Paris acabava de cair nas mãos das tropas do III Reich e milhares de pessoas
tentavam fugir. A porta de saída era Lisboa.
De repente, os olhos do mundo voltavam-se para a cidade
não pelos motivos que o Governo sonhara - a inauguração da ambiciosa Exposição
do Mundo Português - mas para tentar perceber o que era a capital deste pequeno
país europeu, que se mantinha neutral durante a guerra, e que acolhia
temporariamente milhares de pessoas.
É por isso, diz Margarida de Magalhães Ramalho,
comissária, juntamente com António Mega Ferreira, da exposição A Última Fronteira - Lisboa em
Tempo de Guerra, que a revista National
Geographic decide fazer uma
reportagem sobre Portugal. "Em 1941, a National
Geographic não fazia
praticamente reportagens fora da América, e no entanto mandam alguém cá.
Portugal era uma espécie de paraíso perdido, com uma quantidade de coisas que
já ninguém sabe o que são: as varinas, o homem da cortiça, o vendedor de azeite
e vinagre. Isso deve ter-lhes suscitado interesse".
A reportagem, com as imagens das varinas e de mulheres
embrulhadas em xailes negros, mas também de alguns edifícios que revelam um
tímido desejo de modernidade, abre a exposição no Torreão Poente do Terreiro do
Paço. "O tom da reportagem é de grande simpatia". Como são aliás,
frisa a investigadora, a esmagadora maioria dos testemunhos que recolheu e a
que teve acesso desde que há cerca de dez anos começou a trabalhar este tema a
partir do projecto de uma outra exposição (nunca concretizada) sobre a passagem
dos refugiados pela Figueira da Foz. Um trabalho que ainda antes da exposição
no Terreiro do Paço começou por ter a forma de um livro, Lisboa, uma Cidade em
Tempo de Guerra.
"Nos cerca de cem testemunhos a que tive acesso,
muitos deles guardados na Fundação Shoah, nos Estados Unidos, se houver um a
dizer mal de Portugal já é muito", afirma Margarida Ramalho. "A
maioria das pessoas teve uma enorme empatia com o país, foi muito bem recebida,
sentiu-se acarinhada, protegida. É raro aquele que não faz referência ao facto
de ter passado de uma "terra cinzenta" para o "luminoso
Portugal"." Isto apesar da política de restrição de vistos e, ponto
em relação ao qual a investigadora é particularmente crítica, "a forma
como Portugal se comportou com os judeus de origem portuguesa",
descendentes de famílias expulsas pela Inquisição, aos quais, na maioria dos
casos, não permitiu a entrada.
No início da década de 40, Lisboa tornou-se subitamente
uma cidade cosmopolita. A exposição conta-nos essa história, começando com um
monte de malas antigas no meio do hall e com imagens das chegadas, na maior
parte dos casos em comboios que vinham até à Estação do Rossio, e das partidas,
em navios ou, para os que tinham mais posses, de avião. "Muitas vezes, as
pessoas apercebem-se que têm que fugir, metem tudo nas malas e despacham-nas
para Portugal na esperança de virem depois. Mas alguns não conseguem vir e as
malas ficam por cá e acabam por ser leiloadas".
Outros têm mais sorte, e conseguem chegar a Lisboa e até,
como a coleccionadora de arte Peggy Guggenheim, fazer passar por aqui muitas
obras de arte, em direcção aos EUA. "Logo a seguir à ocupação de Paris,
Peggy Guggenheim compra uma série de obras a artistas que estavam desejosos de
vender coisas para se irem embora, e tudo isso passou certamente por
Portugal", acredita a investigadora.
Os refugiados instalavam-se sobretudo no eixo da
Rotunda/Avenida da Liberdade/Rossio. "Era aí que existiam os melhores
hotéis e as pensões, e, além disso, ficavam próximo das legações dos vários
países beligerantes. A dos EUA era no n.º 258 da Avenida da Liberdade, por
exemplo, enquanto o consulado alemão ficava do outro lado, na Av. Joaquim
António de Aguiar."
O mais luxuoso destes hotéis era o Aviz, um pouco mais
acima, nas Picoas, no local onde está hoje o Imaviz. Era aí que se instalava
habitualmente Calouste Gulbenkian, e era aí que queriam ficar os duques de
Windsor, que chegaram a Portugal em Julho de 1940. "A passagem do duque de
Windsor envolve pressões alemãs para ele ficar na Europa, porque, dado que ele
tinha algumas simpatias pela Alemanha, os alemães tinham esperança de o
conseguir pôr no trono. Chegou a haver, do lado alemão, ordem para, se fosse
necessário, usar-se a força para o reter". Mas, por pressões inglesas, o
duque acabou por deixar Portugal - e não chegou a hospedar-se no Aviz.
Muitos dos refugiados frequentavam os cafés da zona e
passavam grande parte do tempo nas esplanadas ou em jardins como o Botânico, ou
o Parque Eduardo VII, onde gostavam em particular da Estufa Fria. Não podiam
fazer muito mais do que esperar por notícias - e era isso que os levava
diariamente às estações de correios dos Restauradores ou do Terreiro do Paço
para saber se chegara alguma coisa à posta-restante (uma das salas da exposição
tenta precisamente recriar o ambiente de uma estação de correios).
Para além de Lisboa, havia também importantes grupos de
refugiados na Curia, na Figueira da Foz, na Ericeira. Mas o local que ficou
mais ligado à passagem por Portugal dos que fugiam ao avanço nazi foi o
Estoril, transformado num autêntico cenário de espionagem. Uma das salas da
exposição mostra um goniómetro e um rádio transmissor, e relembra a estadia de
Ian Fleming no Hotel Palácio do Estoril, pró-aliado, que, juntamente com o
Casino, também muito frequentado pelos refugiados mais ricos, terá inspirado o
livro Casino Royale. Uma
das personagens com quem Fleming se cruzou - e que poderá ter inspirado o
Agente 007 - foi o jugoslavo Dusko Popov, agente duplo também conhecido como Triciclo.
E, numa cidade cheia de refugiados e agentes secretos,
último local de refúgio numa Europa em guerra, num país neutral, todos
aproveitavam para fazer a sua propaganda. "Todos os beligerantes tinham
jornais, revistas", conta Margarida Ramalho, junto a uma parede com várias
dessas publicações, daGuerra Ilustrada à Allô Portugal, Aqui Alemanha,
passando pela americanaEm Guarda.
"O The
Anglo-Portuguese News, jornal luso-britânico, era dirigido na altura por um
tio meu casado com uma inglesa. Para além de dirigirem o jornal, que era
considerado pelos alemães como o porta-voz do Churchill, os dois recolhiam toda
a informação relacionada com a guerra para a passar à embaixada inglesa. Quando
se fala na eventualidade de uma invasão de Portugal, eles estão na lista das
pessoas que devem ser retiradas com urgência para não caírem nas mãos dos
alemães".
Toda a gente escolhia um lado. "A maioria tomou o
partido dos ingleses. Os taxistas punham bandeiras do país que apoiavam, as
lojas faziam montras pró-aliadas ou pró-germânicas." Os jornais davam
notícias da guerra, e os correspondentes estrangeiros em Portugal gritavam
histórias ao telefone no meio de cafés cheios de gente.
Em Belém, o país mostrava o seu império colonial, mas os
refugiados que enchiam os cafés tinham outras coisas em que pensar. Lisboa
tentava começar a ser moderna, mas nas zonas populares, como a Aldeia dos
Trapeiros, junto ao Areeiro, as condições eram miseráveis e as pessoas ainda
viviam a meias com porcos. Mas, no meio de tudo isto, o que mais espantava quem
aqui chegava eram as luzes que iluminavam as ruas - as únicas luzes ainda
acesas numa Europa às escuras.
A Última Fronteira - Lisboa em Tempo de Guerra Torreão Poente do Terreiro do Paço.
Todos os dias das 10h às 20h. Até 15 de Dezembro 3 euros
Fonte: Público
Uma refugiada no cais de Lisboa à espera da partida
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