O
arquitecto Álvaro Siza anunciou esta quarta-feira a decisão relativa ao seu
acervo, tendo optado por doar uma parte a duas instituições portuguesas, as
fundações Gulbenkian e de Serralves, e outra ao Centro Canadiano de
Arquitectura, em Montreal.
"É meu desejo que o trabalho de tantos anos seja de
algum modo útil, como contribuição para o estudo e debate sobre a arquitectura,
particularmente em Portugal, numa perspectiva oposta ao isolamento (como já
hoje sucede e é imprescindível)", pode ler-se num comunicado enviado à
agência Lusa.
De acordo com o arquitecto do Pavilhão de Portugal, a
opção passou por doar parte "a duas instituições portuguesas, já com
experiência, qualidade e capacidade para desenvolver ou alargar os respectivos
arquivos (Fundação Gulbenkian e Fundação de Serralves), numa perspectiva de
abertura à consulta, divulgação e participação num debate que já não é
simplesmente nacional, nem centrado no individual".
Álvaro Siza decidiu doar outra parte do seu arquivo ao
Centro Canadiano de Arquitectura (CCA) em Montreal, "instituição de
experiência e prestígio ímpares e com intensa e contínua actividade", que
é "reconhecida pela sua experiência na preservação e apresentação de
arquivos internacionais", diz o arquitecto.
No comunicado, o prémio Pritzker 1992 explica ainda que o
CCA vai tratar de "uma grande parte" do arquivo, que "estará
acessível, em conjunto com o trabalho de outros arquitectos modernos e
contemporâneos". O Centro canadiano é uma das mais prestigiadas
instituições mundiais da arquitectura, e possui já no seu museu e centro de
documentação espólios e acervos de outros arquitectos de renome, como Aldo
Rossi, Peter Eisenman ou James Stirling.
"Conforme conversações já efectuadas, o CCA estará
disponível para colaborar com a Fundação Gulbenkian e a Fundação de Serralves
na catalogação consistente do material e na partilha da pesquisa e programação
relacionadas", acrescenta Siza.
Na noite de quarta-feira, o secretário de Estado da
Cultura, Jorge Barreto Xavier, congratulou-se "com a decisão do
arquitecto", adiantando em comunicado enviado às redacções "que esta
é uma solução que serve os interesses nacionais e garante, ao mesmo tempo, a
promoção internacional da obra do mais importante arquitecto português da sua
geração".
De acordo com o arquitecto nascido em Matosinhos em 1933,
o vereador da Cultura da Câmara do Porto, Paulo Cunha e Silva, manifestou-lhe a
intenção de instalar uma galeria de exposições sobre a arquitectura da cidade,
constituída em particular por maquetas. "Comuniquei-lhe o meu apoio a
esse propósito, considerando a relevância do projecto para pública informação e
debate sobre a arquitectura", enfatizou Siza.
O arquitecto do Museu de Serralves explica ainda, na sua
nota, que nos últimos anos sentiu a necessidade de organizar o arquivo do seu
trabalho, procurando "uma solução que considerasse fundamentada",
tendo verificado "existir um interesse evidente por parte de pessoas e
instituições".
"Desenhos e maquetes do meu arquivo encontram-se já,
alguns desde há anos, em Paris (Beaubourg), em Nova Iorque (MoMA) e em Londres
(Niall Hobhouse Collection), nos respectivos arquivos de arquitectura",
recorda ainda Siza.
A notícia de que o arquitecto estava
a "negociar" a transferência do seu arquivo com esta instituição
canadiana, e também com outras instituições
portuguesas, surgida na semana passada, motivou apreensão nos meios
nacionais da arquitectura. Se havia consenso quanto ao direito que o arquitecto
do Museu de Serralves tinha de dispor, como bem entendesse, dos testemunhos do
seu trabalho, havia também a preocupação de que o seu arquivo saísse de
Portugal. Siza parece ter optado por contentar todos, escolhendo, entre nós,
depositar partes do seu acervo em Serralves (Porto) e na Gulbenkian (Lisboa),
mas também fazendo-o representar também no CCA, naquela que é uma das grandes
instituições internacionais no campo da arquitectura.
Fonte: Público
Arquitecto privilegiou também fundações portuguesas. Governo congratula-se com "solução que serve os interesses nacionais" e garante "promoção internacional da obra".
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