Sophia
de Mello Breyner Andresen (1919-2004) entra esta quarta-feira no Panteão
Nacional, quando se cumprem dez anos sobre a sua morte e se comemora o 40.º
aniversário do 25 de Abril, esse “dia inicial inteiro e limpo”, como ela
própria o descreveu naquele que é provavelmente o mais belo dos poemas
dedicados à revolução dos cravos.
A ideia de trasladar os restos da escritora para o
Panteão, na Igreja de Santa Engrácia, surgiu publicamente em Novembro do ano
passado com um artigo que o escritor José Manuel dos Santos, ex-assessor
cultural de Mário Soares e Jorge Sampaio, assinou no PÚBLICO. Ainda no final de
2013, por iniciativa dos deputados Marco Perestrello (PS) e Nuno Encarnação
(PSD), a proposta chegou ao Parlamento, onde veio a ser aprovada por
unanimidade em Fevereiro deste ano.
Um processo célere e que não provocou a menor controvérsia,
o que não deixa de ser significativo, se tivermos em conta que Sophia é apenas
a quinta personalidade a quem o regime democrático instaurado em 1974 concede
esta honra. As anteriores foram Humberto Delgado, em 1990, Amália Rodrigues, em
2001, Manuel de Arriaga, em 2004 (sem dúvida a escolha mais surpreendente), e
Aquilino Ribeiro, em 2007.
É possível que o século XX português tenha três ou quatro
poetas (mais não terá) de grandeza equivalente à de Sophia. E algumas figuras
que não desmereçam da sua integridade cívica e política. E outras que não terão
sido menos amadas pelos seus concidadãos. Mas é difícil encontrar alguém que
reúna todas estas características em tão alto grau.
E é justamente esse “encontro perfeito” entre “grandeza
poética” e “exemplaridade cívica” que animaram José Manuel dos Santos a propor
a entrada de Sophia no Panteão Nacional. Para lhe prestar o tributo que merece,
mas também, assume, para revalorizar a própria instituição.
É a ele que caberá fazer esta quarta-feira a evocação da
homenageada, numa cerimónia que foi pensada ao milímetro para garantir que
todos os momentos encerrem algum simbolismo, algo que os ligue a Sophia e lhes
dê razão de ser. “Tentarei falar dela como ela falou dos poetas que admirava”,
diz José Manuel dos Santos, que sublinha que não se tratará de um elogio
fúnebre, até porque a entrada no Panteão representa “uma espécie de
ressurreição simbólica”.
Magnificat na Travessa das Mónicas
Os restos mortais de Sophia, exumados e colocados em urna
há já alguns dias, sairão esta tarde do cemitério de Carnide, com escolta
oficial, rumo à Capela do Rato, onde será celebrada uma missa, pelas 17h15,
pelo patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, e pelo actual capelão, o padre e
poeta José Tolentino Mendonça. Foi na Capela do Rato que ocorreram, em 1972, as
célebres vigílias contra a ditadura e a guerra colonial promovidas por um grupo
de católicos progressistas ao qual Sophia pertencia. A poeta já tinha, aliás,
intervindo numa iniciativa semelhante organizada na Igreja de S. Domingos,
também em Lisboa, na madrugada de 1 de Janeiro de 1969: uma vigília pela paz
para a qual Sophia escreveu o poema Cantata
da Paz (“Vemos, ouvimos e
lemos,/ não podemos ignorar”), depois cantado pelo padre antifascista Francisco
Fanhais.
Prevê-se que a urna saia da Capela do Rato pelas 18h15 e
que faça uma paragem na Assembleia da República (AR) – onde se lembrará que
Sophia foi deputada constituinte (eleita em 1975 pelo círculo do Porto, numa
lista do PS) –, seguindo depois para a Igreja de Santa Engrácia. É aqui, no
Campo de Santa Clara, ainda no exterior do Panteão, que terá início, pelas
19h00, a cerimónia oficial. Na presença do Presidente da República, do
primeiro-ministro e da presidente da AR, e depois de o Coro do Teatro Nacional
de São Carlos (TNSC) interpretar o hino nacional, José Manuel dos Santos fará a
evocação de Sophia.
Seguem-se um dueto do Lago
dos Cisnes e outro de Orfeu
e Eurídice, ambos interpretados pela Companhia Nacional de Bailado. “Numa
carta à mãe, Sophia fala com entusiasmo de ter ido ver a Margot Fonteyn dançar
o Lago dos Cisnes”,
lembra José Manuel dos Santos. Entre os dois bailados intervirá Assunção
Esteves, e no final do segundo falará Cavaco Silva. Ouvir-se-ão ainda poemas de
Sophia ditos pela própria, a partir de uma gravação de 1957, e as três
principais figuras do Estado assinarão então o Termo de Sepultura no Panteão
Nacional.
Se tudo tiver corrido
como planeado, serão nesse momento 20h e ouvir-se-á oMagnificat de
Bach interpretado pelo Coro do TNSC. Mais uma escolha simbólica, já que a
homenageada tinha uma predilecção por este cântico que a Virgem Maria entoa no
evangelho de Lucas. Segundo José Manuel dos Santos, Sophia contava que, quando
descobriu a casa da Travessa das Mónicas, achou logo que era a sua casa e
sentiu-se tão grata que disse o Magnificat.
Chegará então
finalmente o momento em que a urna com os restos mortais da poeta transporá o
limiar do Panteão Nacional, onde ficará depositada numa arca tumular. “Será uma
cerimónia solene, mas não pomposa; oficial, mas com um simbolismo respeitador
da figura de Sophia”, prevê José Manuel dos Santos.
Caminho da Manhã
Antecedendo a
cerimónia desta quarta-feira, Sophia foi homenageada há uma semana no Porto,
cidade onde nasceu e passou a infância e a primeira adolescência, dividindo-se
entre a casa paterna, na Rua de António Cardoso, e a gigantesca quinta dos
avós, no Campo Alegre. Na passada quarta-feira, dia 25, o público encheu o
auditório principal da Casa da Música para assistir a esta evocação, promovida
pela Porto Editora.
A sessão incluiu
debates com diversos convidados, a interpretação de poemas de Sophia pelos
actores Luís Miguel Cintra e Luísa Cruz e pela cantora lírica Dora Rodrigues, a
projecção de um excerto do documentário Sophia (1969), de João
César Monteiro, intervenções da poetisa Maria Andresen Sousa Tavares e do
escritor e jornalista Miguel Sousa Tavares, filhos da escritora, e ainda, entre
outros momentos, uma sentida homenagem da arquitecta paisagista Teresa Andresen
à sua tia Sophia, que a acolheu em Lisboa enquanto frequentava a universidade.
Algumas das
intervenções mais interessantes deveram-se ao ensaísta Carlos Mendes de Sousa,
que soube entretecer considerações mais literárias com detalhes biográficos
pouco conhecidos, como o do episódio em que a jovem Sofia foi apresentada a
Miguel Torga como autora de versos e este terá comentado: “A menina é tão
bonita que não precisava de escrever poemas.” Uma tirada que a “deixou
furiosa”, diz Carlos Mendes de Sousa, e a levou a enviar uma série de poemas a
Torga. Este percebeu então que a “menina” era mesmo um poeta para levar a sério
e ajudou-a a imprimir o seu livro de estreia, Poesia (1944),
nas gráficas da Coimbra Editora, onde ele próprio publicava os
seus.
Miguel Sousa Tavares,
que fazia anos nesse dia – circunstância a que aludiu lembrando os “demasiados
anos” que se cumpriam desde a primeira vez que a mãe lhe dissera “Miguel, olha
o mundo!” –, foi responsável pela mais prolongada ovação da noite quando
garantiu que Sophia, se fosse viva, se oporia ao novo acordo ortográfico.
Começou por ler um
texto da mãe, Caminho da Manhã, um belíssimo poema em prosa de Livro
Sexto (1962), no qual a autora indica a alguém (que não é
identificado) o caminho a seguir até uma cidade de “pequenas ruas estreitas,
direitas e brancas” e o que deve fazer depois de lá chegar. Também o lugar não
é nomeado, mas Sousa Tavares explicou que a cidade descrita é Lagos: passavam
férias de Verão ali perto, e Sophia ia a pé até à povoação, fazia compras no mercado
e regressava depois de táxi a casa carregada com mantimentos para alimentar a
sua numerosa família.
Sousa Tavares defendeu
que Caminho da Manhã é uma espécie de texto-chave, que
resumiria tudo o que é essencial na criação literária da mãe, da poesia e dos
contos aos livros para crianças. Neste poema, Sophia sugere ao seu interlocutor
que, ainda antes de entrar no mercado, olhe “um instante para o largo pois ali
o visível se vê até ao fim”. Depois dá-lhe instruções detalhadas sobre o que
deve ver e comprar no mercado: “Ao terceiro homem que encontrares em frente da
terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e
escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas
guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles
cheiram realmente, realmente a mar.”
Quando
a pessoa a quem a autora se dirige já tem os cestos cheios de peixes, frutos,
hortaliças, ramos de ervas aromáticas, é então tempo de regressar: “Caminha até
encontrares uma igreja alta e quadrada.” E Sophia conclui assim o texto: “Lá
dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho
azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu
amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus
invisível.”
Se é evidente que o verdadeiro interlocutor de Sophia no
poema é ela própria, a autora conta, numa entrevista de 1991 a José Carlos de
Vasconcelos, a curiosa origem deste texto: “Muitas vezes eu ia a Lagos a pé, às
compras. Outras vezes ia a empregada. Um dia ensinei-lhe o caminho e o que
havia de comprar, etc., para ela fazer o que eu tinha feito sozinha na véspera.
Depois de lhe dizer tudo isso, apercebi-me que aquilo era uma espécie de poema
e escrevi mais ou menos o que lhe tinha dito. Chamei-lhe Caminho da Manhã.”
Sousa Tavares acha que se a poesia da mãe “continua
deslumbrantemente actual”, é porque “toda a gente entende o que ela
escreveu”. Mas a exemplaridade que vê em Caminho
da Manhã não decorre apenas
dessa limpidez, mas também do modo como este texto ilustra a verdadeira
natureza da aliança que em Sophia sempre existiu entre poesia e ética. E que
faz com que o próprio impulso que a leva à poesia a transforme inevitavelmente
numa criatura ética, como ela própria explica na terceira das suas artes poéticas: “Quem procura
uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente
levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com
o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a
ver o espantoso sofrimento do mundo. (…) E é por isso que a poesia é uma moral.
E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da
sua poesia.”
Do lado de Antígona
Se Miguel Sousa Tavares, ironizando com “a crítica bem
pensante”, defendeu que a escrita da mãe “não precisa de crítica nem de
explicações”, já a intervenção de Maria Andresen Sousa Tavares teve o mérito de
nos lembrar que esta é também uma poesia culta, que não ignora de todo a
tradição literária, e cuja clareza não é necessariamente isenta de uma dimensão
enigmática.
Não que a filha de Sophia tenha expressamente dito isto.
O que fez foi contrastar os poemas que tanto a sua mãe como o poeta grego
Konstantínos Kaváfis (1863-1933), natural de Alexandria, dedicaram ao tópico
homérico de Ítaca, a terra natal de Ulisses à qual o herói anseia regressar.
Convicta de que a mãe lera o poema de Kaváfis, procurou demonstrar que Sophia
se afasta, no entanto, da “serenidade estóica” que este propõe – a ideia de que
a única coisa que Ítaca nos poderá dar é a viagem para Ítaca, e que devemos
aproveitá-la sem pressa de chegar, porque todos os destinos são utópicos –,
para se aproximar duma “tradição de contestação e revolta”, que radicaria antes
na figura de Antígona. Essa que, nas palavras de Sophia, diz: “Eu sou aquela
que não aprendeu a ceder aos desastres.”
A respeito da entrada de Sophia para o Panteão, disse ao
PÚBLICO que “seria difícil” a qualquer família recusar esta distinção, e que
está convencida de que a mãe não antipatizaria demasiado com a ideia. “Como
todos os grandes artistas, gostava de reconhecimento.” A título pessoal
confessa ter sido “seduzida pelo texto de José Manuel dos Santos”, mas crê que
“só o futuro” – isto é: aquilo em que o Panteão Nacional se vier a tornar –
“dirá se a família fez bem em aceitar”.
Fonte: Público
Sophia foi homenageada há uma semana no Porto numa sessão que encheu o auditório da Casa da Música
Manuscrito com o poema de Sophia dedicado à revolução dos cravos e que faz parte do espólio doado à Biblioteca Nacional de Portugal pela família
Sem comentários:
Enviar um comentário