sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A Família na Antiguidade Clássica: a condição feminina na Grécia Antiga

A formação de uma família entre os gregos não começava sempre da mesma forma, havia variações de acordo com a origem das pessoas. Entre os camponeses, por exemplo, era comum que os jovens se conhecessem na lavoura e que, a partir dos contactos estabelecidos no trabalho, viessem a namorar e depois a casar-se. No caso das jovens ricas, provenientes das linhagens nobres, os casamentos eram arranjados de acordo com conveniências.
Isso significava que os pais das jovens procuravam casamentos em que famílias de uma mesma origem social e padrão económico pudessem unir as suas fortunas através do matrimónio dos seus filhos. Eram feitas oferendas aos deuses (especialmente a Artémis, a protectora das mulheres) e oferecido um dote ao noivo e aos seus familiares. Esse presente de casamento dado pelo pai da noiva consistia em terras, bens de elevado valor e, até mesmo, dinheiro.
O dia em que o casamento se consolidava marcava a mudança da noiva para o seu novo lar, a casa da família do seu marido. Somente no dia seguinte ao casamento é que os parentes e amigos próximos iriam dar presentes numa visita ao lar do novo casal.
Os meninos gregos das famílias que pertenciam às camadas sociais mais ricas e poderosas eram ensinados por tutores. As meninas eram educadas em casa, pelas próprias mães, para que se tornassem boas esposas e donas de casa.
As funções das mulheres gregas estabeleciam que elas deveriam dar-se ao máximo aos seus maridos e filhos e, dessa forma, abdicar quase que totalmente dos seus interesses e vontades. Cuidar do lar, presenciar o crescimento dos seus filhos e devotar integral fidelidade ao marido passava a ser a vida de qualquer mulher grega, excepto daquelas que viviam em Esparta.
A cidade de Esparta era aquela que proporcionava às mulheres a maior autonomia entre todas as pólis estabelecidas na Grécia Antiga. Isso acontecia em virtude da própria orientação política adoptada naquela localidade, onde a hostilidade entre cidadãos e não-cidadãos e a presença maciça de escravos criava a necessidade de manter os cidadãos em constante alerta contra revoltas internas. Como o grupo de espartanos era menor que o de não-cidadãos (escravos e estrangeiros), as crianças e mulheres eram preparados para colaborar em caso de conflitos ocorridos na cidade.
A necessidade de contar com o apoio das mulheres, fazia com que os homens espartanos lhes proporcionassem preparação militar, participação em actividades políticas e maior liberdade para participar das actividades do quotidiano da pólis (inclusive no desporto).
As mulheres que viviam em outras cidades gregas, especialmente em Atenas, tinham funções claramente domésticas. Eram responsabilidades dessas esposas, além da criação dos seus filhos, que tratassem da casa com o auxílio dos escravos (para isso tinham que verificar o serviço doméstico e orientar os servos quanto à forma como esse trabalho deveria ser feito), a confecção de tecidos para peças de vestuário que seriam utilizadas pelos seus próprios familiares, a produção de tapetes e cobertas e a manutenção e embelezamento da casa. Nas casas abastadas, as mulheres habitavam uma zona específica, o gineceu, onde, decorria a maior parte da sua vida sem que lhes fosse permitido sequer, assistir às reuniões oferecidas pelo marido.
Esparta destacou -se como a cidade-estado grega em que as mulheres tinham maior autonomia. As espartanas podiam participar da vida pública em praticamente todas as esferas, inclusive no exército e na política.
No caso das famílias humildes, a diferença consistia na inexistência de escravos para a execução dos serviços domésticos, o que acarretava a necessidade de que esses trabalhos fossem realizados pela própria esposa, inclusive cozinhar, lavar e limpar a casa.
Era comum que as famílias se reunissem para realizar as orações, no entanto, a posição dos demais membros da família em relação ao pai era de total subserviência. Todos lhe deviam respeito e total obediência, considerava-se que as mulheres e os filhos estavam sob a guarda legal do chefe de família e, de certa forma, a vida das mulheres grega alterava-se apenas no que se refere ao homem que comandava as suas acções, o seu pai na infância e o seu marido na idade adulta.
A situação de homens e mulheres na Grécia Antiga começava a diferenciar-se quando ainda eram crianças. O primeiro e mais significativo indício dessas vidas diversas quanto ao futuro era a própria educação que a eles era ministrada. Os meninos gregos tinham tutores e participavam de actividades desportivas. Manter o corpo e a mente sadios era dever dos pais no que se refere aos filhos do sexo masculino (entre os membros das camadas mais importantes das cidades-estado daquela época).
Investia-se na aprendizagem da leitura, escrita, oratória, poesia e matemática para que os meninos pudessem tornar-se os líderes que iriam manter as cidades no futuro. A rigidez nos estudos era grande, por isso mesmo era dada aos tutores a possibilidade de aplicar castigos físicos aos rapazes que não se aplicassem nos estudos. Enquanto isso, as meninas eram educadas em casa, pelas mães, sempre tendo com o objectivo de aprendizagem dos afazeres domésticos e femininos consagrados pelo hábito na sociedade grega, ou seja: fiar, tecer,  contar, o cancioneiro e as histórias populares e também os trabalhos domésticos.



As Mulheres Atenienses


Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos
Orgulho e raça de Atenas

Quando amadas se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem imploram
Mais duras penas, cadenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Sofrem pros seus maridos
Poder e força de Atenas

Quando eles embarcam soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam, sedentos
Querem arrancar, violentos
Carícias plenas, obcenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos
Bravos guerreiros de Atenas

Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar um carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas, Helenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos
Os novos filhos de Atenas

Elas não tem gosto ou vontade
Nem defeito, nem qualidade
Têm medo apenas
Não tem sonhos, só tem presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas, morenas

Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos
Heróis e amantes de Atenas
As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
As suas novenas
Serenas
Mirem-se no exemplo
Daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos
Orgulho e raça de Atenas
BUARQUE, Chico, BOAL, Augusto. In: Chico Buarque – letra e música. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 144.


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