Durante
quatro anos, uma equipa de cientistas usou técnicas de topografia com recurso a
laser, magnetómetros e outras tecnologias recentes para estudar em profundidade
o célebre sítio arqueológico de Stonehenge, na região de Wiltshire, no Sudoeste
de Inglaterra. Conseguiram imagens de alta resolução do que está por baixo das
pedras de Stonehenge, e à volta delas, em alguns casos até quatro metros de
profundidade.
Os resultados desta investigação ultrapassaram todas as
expectativas. Entre centenas de outras descobertas, a equipa revelou uma série
de grandes estruturas até agora desconhecidas, em pedra e em madeira, e que
permitem concluir que o icónico monumento pré-histórico esteve outrora rodeado
de muitos outros monumentos de diversa dimensão e natureza.
Um dos
edifícios agora revelado, e que já foi oficiosamente baptizado de “casa
dos mortos”, é um templo em madeira, com 33 metros de comprimento e sete
de largura, provavelmente usado para práticas de manipulação ritual de
cadáveres, que incluíam desmembrar e descarnar os corpos. Os cientistas estão
convencidos de que esta estrutura terá sido construída há seis mil anos, o que
a tornaria muito mais antiga do que Stonehenge, cujas primeiras pedras terão sido
erguidas há cerca de cinco mil anos.
Escavações
recentes já tinham revelado vestígios de uma grande povoação neolítica em
Durrington, a cerca de três quilómetros de Stonehenge, que dataria de 2600 a.C.
O arquéologo Jorge Muralha, que trabalhou nas escavações em Durrington em 2006,
no âmbito de uma parceria entre investigadores portugueses e ingleses, explica
que se trata de "um fosso escavado, que delimita um círculo no
interior do qual se encontraram casas e outros vestígios de
povoamento neolítico, datados do mesmo período de
Stonehenge". Ou seja, resume, "uma área de habitação de
populações que circulavam na planície, e que construíram estes monumentos,
entre os quais Stonehenge".
O que a
nova pesquisa veio revelar foi a existência de quase 60 pedras com três metros
de comprimento cada uma, todas elas em posição horizontal (mas admite-se que
possam ter estado outrora erguidas), que formam uma espécie de semicírculo
rodeando parte do extenso sítio arqueológico a que agora se chama Durrington
Walls. Uma espécie de irmão gémeo de Stonehenge.
Dirigida
por Vince Gaffner, especialista de arqueologia paisagística daUniversidade de Birmingham, a investigação, que envolveu cientistas de diversas
disciplinas e foi promovida em colaboração com o Instituto Ludwig Boltzmann, de
Viena, cobriu uma área de 12 quilómetros quadrados, equivalente a 1250 campos
de futebol. Wolfgang Neubauer, do Instituto Boltzmann, assegura que nunca se
realizara uma investigação deste tipo numa área tão extensa.
Durante
os próximos dias, o público inglês ficará a conhecer o essencial dos resultados
deste estudo num programa televisivo da BBC intitulado Operation
Stonehenge: What Lies Beneath, cujo primeiro episódio é
transmitido esta quinta-feira.
“A
paisagem é uma totalidade, e não apenas um mapa”, sublinhou Vince Gaffner num
festival de ciência organizado pela British Science Association na Universidade
de Birmingham. Esta perspectiva levou, por exemplo, a novas descobertas no
chamado Cursus de Stonhenge, uma depressão
próxima, com três quilómetros de comprimento e uma largura que varia entre os
100 e os 150 metros, e que inicialmente se pensou datar do período romano, já
que lembrava a pista de um hipódromo.
Na
verdade, foi escavada cerca de 500 anos antes de terem sido erguidas as pedras
vizinhas. E descobriram-se agora duas fossas que a rematam em ambas as
extremidades, e que parecem confirmar a existência de uma relação
entre a orientação do Cursus e a de Stonehenge, cuja
edificação teria possivelmente sido condicionada por este monumento
pré-existente. "Era uma das teorias de que se falava em 2006, mas sem
dados concretos", conta Jorge Muralha.
O longo
intervalo de tempo entre ambas as construções indica que dificilmente terão
sido planeadas como partes de um mesmo todo. Mas “as estruturas condicionam os
construtores”, observa Gaffney. “Quando já existem coisas no local, outras
coisas acontecem porque as anteriores estão lá”.
Além
das muitas descobertas individuais, esta pesquisa veio sobretudo colocar
definitivamente em causa a ideia de um Stonehenge erguendo-se enigmaticamente
isolado na paisagem. É cada vez mais claro que Stonehenge, que há séculos
alimenta as mais desvairadas especulações, foi apenas um momento numa história
que começou antes da construção do misterioso círculo de pedras e que abarca
uma área muito mais vasta. "É uma área intensamente ocupada, antes e
depois da construção de Stonehenge", diz Jorge Muralha.
Fonte: Público
A “casa dos mortos” é um templo em madeira com 33 metros de comprimento e sete de largura
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