Uma freira que inventava chagas para
forjar milagres, um pintor acusado de lhe fornecer tintas e vernizes para
tornar credível o logro e um escritor que, séculos mais tarde, resolve contar a
história desta religiosa, bonita e de boas famílias, que foi julgada – e
condenada – pela Inquisição. Porque podemos juntar num mesmo texto soror Maria
da Visitação, o pintor régio Fernão Gomes e Camilo Castelo Branco? Porque a
Lisboa do último quartel do século XVI está cheia de episódios dignos de
novelas, dentro e fora dos conventos, de artistas vindos de Castela e de lutas
pelo poder.
O pretexto para ler As
Virtudes Antigas, ou no subtítulo delicioso A Freira que Fazia
Chagas, e o Frade que Fazia Reis, surge com o restauro de umPentecostes que
saiu há bem pouco tempo das reservas do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA),
onde estava há mais de 100 anos, e que passará a integrar o núcleo maneirista
das novas galerias de pintura e escultura que deverão abrir em Abril, um
projecto que o seu director, António Filipe Pimentel, acredita ser fundamental
para que o museu cumpra melhor a sua função primordial.
“Não digo que é a melhor pintura do
mundo, mas tem de ser vista se queremos um museu representativo da produção
artística do século XIII ao XIX”, diz o director-adjunto e conservador de
pintura José Alberto Seabra Carvalho frente ao Pentecostes em
que a técnica de restauro Teresa Serra e Moura tem vindo a trabalhar.
Mostrar esta obra de Fernão Gomes
(1548-1612), assim como outra de Francisco Venegas (c. 1525-1594), que foi
comprada recentemente para o museu (Aparição de Cristo a Maria Madalena,
segunda metade do século XVI), contribui para que as novas galerias contem uma
história da pintura portuguesa além das obras-primas, com base numa evolução
cronológica sem grandes hiatos, acrescenta Joaquim Caetano, também conservador
de pintura.
Expor estas obras, assim como outras
de artistas como António Campelo, não significa, no entanto, que o MNAA tenha
decidido aumentar o espaço que dedicará aos maneiristas portugueses ou que
trabalharam em Portugal, garantem os dois historiadores de arte. “Vamos apenas
mobiliar a sala de outra maneira, com coisas mais representativas do que
realmente se passou”, explica Seabra Carvalho, admitindo que “não se pinta bem
nesta época entre nós”.
Quer dizer que este Pentecostes de
Fernão Gomes não é uma boa pintura? Caetano responde, lembrando apenas que se
trata de uma obra que emana directamente do Concílio de Trento (esta reunião
magna, feita entre 1545 e 1563, foi a reacção da igreja de Roma à divisão da
Europa proposta pela reforma protestante, razão pela qual é denominado o
concílio da contra-reforma), “o concílio do nada de profano, nada de
desonesto”: “Esta é uma pintura feita fora do tempo real, em que há muito de
ideológico, muito de artificioso. É uma pintura que serve a contra-reforma. Não
há adereços que marquem claramente uma época nem o lugar onde estão as figuras
é reconhecível. Há o realismo suficiente para que se perceba que história se
está a contar, mas tudo é feito com uma distância que tira estas pessoas da ordem
comum.”
O artificioso a que se refere
Joaquim Caetano, encontra-o Seabra Carvalho no tratamento escultórico da figura
da Virgem, elemento central em torno do qual toda a cena se organiza. “É um
corpo que se move de forma contorcionada, como se fosse a chama de uma vela.
Não há nele nenhuma intenção de verosimilhança, o que se pretende é sublinhar
um prodígio sobrenatural sobre o conjunto dos eleitos.”
“É quando se fartam disto tudo que
irrompe o naturalismo brutal de Caravaggio”, remata Caetano. “Quando se fartam
desta pintura a que falta emoção, onde parece não haver nada para nos
agarrarmos.”
O pintor e a Inquisição
Fernão Gomes, lembra o conservador,
é também o autor do mais fidedigno retrato de Camões, que se conhece apenas
numa cópia do século XIX já que o original desapareceu (sobre este retrato
escreveram, por exemplo, Graça Moura e Vítor Serrão em Fernão Gomes e o
Retrato de Camões, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1990).
Da vida do pintor sabe-se ainda
pouco. Terá nascido em Albuquerque, Castela, em 1548, e no início da década de
1570 estaria em Portugal, já que data desta época o chamado Retrato
pintado a vermelho, que coincide com a primeira impressão de Os
Lusíadas.
No final da década de 1580 aparece
associado a um processo movido pela Inquisição contra a prioresa do Convento da
Anunciada, em Lisboa. Maria da Visitação, nome que tomou Maria de Menezes,
filha do embaixador de Carlos V, ao adoptar a vida religiosa – entrou para a
clausura aos dez anos, professou aos 17 e foi eleita abadessa aos 31, escreve
Camilo Castelo Branco com base em documentos da época – era muito popular na
Lisboa do século XVI. Associavam-na a milagres vários e até D. Maria, filha do
rei D. Manuel, a visitava com frequência.
Soror Maria da Visitação, cuja
história cativou Camilo e também Agustina Bessa-Luís, que sobre ela escreveu A
Monja de Lisboa (Guimarães Editores, 1985), dizia que Jesus lhe
aparecia e que lhe ia deixando chagas pelo corpo (mãos, pés e lado esquerdo do
tronco) como prova das suas visitas, assim como sinais da coroa de espinhos. Às
chagas, que afinal eram forjadas com tintas e vernizes e que apareciam, em
regra, no mesmo dia da semana, conta Camilo, Maria da Visitação acrescentava
outros efeitos especiais: com a ajuda de um fogareiro, a freira que o autor
descreve como uma mulher bonita, que teria 37 anos à data do julgamento, criava
na sua cela uma luz intensa, que fugia pelas frinchas da porta, precisamente à
hora em que dizia conversar com Jesus. Nada deixado aos acaso, portanto.
Denunciada por outras duas
religiosas da alta fidalguia, que espreitando por um pequeno buraco na parede
do seu quarto a viram forjar todos os sinais do suplício, Maria da Visitação
foi levada aos juízes do Santo Ofício, que chegaram a supor que Fernão Gomes,
que sempre acreditara nos seus “milagres”, era na realidade o cúmplice de que a
religiosa precisava para lhe fornecer as tintas fazedoras de chagas, as mesmas
que desapareceram por completo ao serem lavadas “com pastas de sabão preto”,
precisa o autor de Amor de Perdição.
Fernão Gomes estava a trabalhar no
Convento da Anunciada - foi o autor da pintura da sala do capítulo, segundo o
historiador Dagoberto Markl – e isso levou os juízes a suspeitar que o artista
estaria envolvido no logro.
“Um pintor e uma freira bonita tem
muito de romanesco, pode ser irresistível”, reconhece Joaquim Caetano,
lembrando que todas as suspeitas se dissiparam e que Fernão Gomes viria a ser
nomeado pintor régio em 1594, por Filipe II. O domínio filipino da época, e as
lutas entre os partidários do rei e os de D. António, prior do Crato, é, aliás,
o que leva Camilo Castelo Branco a defender que o processo contra Maria da
Visitação, que apoiava claramente o segundo e acabou desterrada em Abrantes,
foi também político.
Obra desaparecida
Para além do capítulo da Anunciada e
do retrato de Camões, Fernão Gomes, que terá sido discípulo do holandês
Anthonis Blocklandt (1534-1583), é responsável por muitas obras no país, entre
pinturas, frescos e desenhos. Muitas delas foram destruídas no terramoto de
Lisboa, como a Ascensão de Cristo da Igreja de S. Julião ou o
fresco para o tecto da capela-mor do Hospital de Todos os Santos, mas o pintor
que está também associado a cinco painéis para o Mosteiro dos Jerónimos
sobreviveu em muitos desenhos – “era melhor a desenhar do que a pintar”, diz
Seabra Carvalho – e, por exemplo, no retábulo da Sé de Portalegre, executado
entre 1592 e 1596 (os retábulos que fez para a Ribeira Brava, para
Montemor-o-Novo e para o Convento de Cristo, em Tomar, também desapareceram).
A obra que agora está a ser
restaurada terá sido pintada por volta de 1590, a avaliar por outros trabalhos
que se sabe terem sido confiados ao artista, como o conjunto de Portalegre ou a Ascensão
de Cristo do Museu de Arte Sacra do Funchal (c. 1590). O Pentecostes do
retábulo alentejano é, lembra Seabra Carvalho, muito semelhante ao que agora
está numa das oficinas do MNAA, com as suas “cores muito vibrantes” e,
acrescenta Caetano, as suas “anatomias exageradas”, particularmente visíveis
nas figuras de primeiro plano, S. Tiago e S. Pedro. É por causa deste exagero,
aliás, que mais tarde o maneirismo é, de alguma forma, “reabilitado” pelo
modernismo, defende o historiador de arte, porque “tanto um como outro estão
pouco interessados no real”.
As figuras de Maria Madalena e S.
João Baptista são as mais delicadas, como se Fernão Gomes tivesse perdido mais
tempo com elas do que com a da Virgem, elemento central da composição. “O Pentecostes é
o contrário da Torre de Babel”, explica Caetano, em que há uma incomunicabilidade
entre os homens. “Aqui o Espírito Santo desce sobre os apóstolos, que ficam a
dominar todas as línguas. É um momento de graça.”
Quando a pintura foi retirada das
reservas, as restauradoras Teresa Serra e Moura e Susana Campos encontraram-na
coberta por aquilo que parecia uma película baça, quase opaca, “como terra”.
Fora do museu fora sujeita a uma limpeza muito violenta, explica a primeira,
provavelmente recorrendo a soda cáustica, e tinha muitos repintes, “bastante
oleosos e antigos”, que tiveram de ser removidos a bisturi, acrescenta a
segunda, lembrando que uma tinta de óleo demora 50 anos a secar por completo.
Nenhuma acredita que a obra tenha sido deixada inacabada, mas não há dados que
permitam afirmá-lo com absoluta certeza, explica Seabra Carvalho, porque não se
sabe a que local pertenceu, estimando-se que tenha vindo de um dos conventos
extintos em 1834, passando a fazer parte da colecção da Academia de
Belas-Artes, cuja galeria é uma antepassada do MNAA.
Mais um desenho
É precisamente o MNAA que guarda uma
importante colecção de desenho dos maneiristas portugueses (Gomes era espanhol,
mas ao chegar, tal como Venegas, integrou-se por completo na cultura local, diz
Seabra Carvalho): são 45 e nove estão atribuídos ao autor do Pentecostes em
restauro. Em breve, no entanto, poderão passar a dez, explica Alexandra Markl,
conservadora da colecção de desenho. É que um que até aqui estava atribuído à
escola italiana, mais especificamente ao círculo de Veronese, poderá muito bem
ter sido executado por Fernão Gomes.
Atalanta e Hipomenes disputando a
corrida foi
desenhado sobre uma tira de papel esverdeado e é uma das pouquíssimas obras do
pintor com um tema não religioso, diz Markl. “É um desenho de grandes dimensões
[23X75cm], o que não é nada habitual na transição do século XVI para o XVII, e
representa uma cena mitológica, o que é raro na arte maneirista portuguesa”,
precisa a conservadora, explicando que a reatribuição, que ainda não é
definitiva, começou a ser considerada quando se comparou este desenho com outro
do acervo do museu, uma Ascensão de Cristo que tem o monograma
do pintor e a data de 1599. “Tornou-se claro que era a mesma mão, muito
provavelmente.”
Markl diz que agora o desenho tem de
ser analisado por colegas especializados neste período, o que não é o seu caso,
mas que dificilmente se ficará a saber com exactidão qual o seu objectivo: “É
um estudo preparatório, talvez para uma pintura a óleo, mas não se sabe para
quê nem para onde.”
Em Abril, se o calendário não sofrer
alterações, os visitantes do MNAA poderão ver de perto o Pentecostes de
Fernão Gomes, a que as restauradoras terão ainda de dedicar muitas horas.
Poderão não saber do seu envolvimento com a prioresa da Anunciada, nem da sua
actividade “sindical” na Irmandade de S. Lucas, onde reclamava um estatuto de
arte para a pintura, que até aí era considerada um ofício, tal como o de
carpinteiro ou alfaiate, mas ficarão a conhecer um pouco melhor os maneiristas
portugueses e a as suas figuras exageradas, irreais.
Fonte: Público
As restauradoras Teresa Serra e Moura e Susana Campos encontraram-na coberta por aquilo que parecia uma película baça
O Pentecostes saído há bem pouco tempo das reservas do Museu de Arte Antiga
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