domingo, 1 de fevereiro de 2015

O mais antigo fragmento do Novo Testamento terá estado escondido numa múmia

O episódio parece ter sido feito à medida de uma cadeira sobre ética e património, concebido como hipótese de estudo para levar os alunos a debaterem os limites da investigação e da intervenção em laboratório. Mas não foi. O secretismo que envolve a descoberta daquele que está a ser apresentado como o mais antigo fragmento do Novo Testamento numa máscara funerária egípcia tem ajudado a alimentar o clima de suspeição à volta do trabalho de uma equipa da Universidade de Acadia, no Canadá, deixando a comunidade científica cada vez mais céptica.
Dizem os especialistas liderados pelo biblista Craig Evans que o excerto do texto, escrito num papiro que, como tantos outros, foi reutilizado para construir a referida máscara, pertence ao evangelho de Marcos e que será uma cópia anterior ao ano 90. A confirmar-se o conteúdo do fragmento e a datação, tratar-se-á de um texto escrito apenas 60 anos depois da morte de Jesus. Até aqui, a cópia mais antiga de um evangelho, com autenticidade confirmada, data do século II (chamam-lhe o Papiro 52, contém um excerto do relato de S. João e pertence à biblioteca John Rylands, de Manchester, escreve o diário espanhol ABC).
Evans e os outros investigadores que já tiveram oportunidade de analisar o fragmento em causa – serão cerca de 40, segundo o mesmo jornal – assinaram um acordo de confidencialidade que os impede de dar pormenores sobre o texto de Marcos encontrado junto a outros papiros e linhos “reciclados” para criar a máscara funerária, feita recorrendo a uma técnica semelhante à da pasta de papel (camadas sobrepostas com cola e pintadas depois de secas). Para já, este especialista no Novo Testamento, citado pelo site de notícias Live Science e pelo diário norte-americano The Washington Post, garante apenas que a datação do fragmento foi feita com base no cruzamento de três métodos: o radiocarbono ou caborno-14, possível porque se trata de um material orgânico (o papiro é uma planta); a análise da escrita (paleografia) e o estudo dos outros documentos usados como matéria-prima nesta máscara que parece feita em papier mâché, alguns deles datados.
Há 2000 anos, explica este investigador do Acadia Divinity College, um centro na Nova Escócia que começou por estar ligado à igreja baptista e que hoje funciona como faculdade de teologia da referida universidade canadiana, só os muitos ricos como o faraó e os que lhe eram mais próximos podiam dar-se ao luxo de encomendar máscaras funerárias em ouro. Para os restantes, que não podiam sequer pagar uma máscara coberta de finas folhas de metais preciosos nem de madeira, a solução passava pela pasta de papel, recorrendo muitas vezes a papiros já usados (o equivalente de hoje seriam, por exemplo, folhas do jornal da véspera), uma vez que também o papiro era um material caro. Foi de uma destas máscaras que os estudiosos tiraram em 2012 – o assunto foi na altura mencionado nalguns sites graças a uma fuga de informação  – o tal fragmento do evangelho de Marcos, de que não há ainda qualquer imagem divulgada, assim como centenas de outros textos gregos, cartas pessoais, registos de compra e venda e até excertos de poemas de Homero.
“Podemos ter em mãos um fragmento de Marcos do século I pela primeira vez na História”, disse Evans ao falar da descoberta, mas sem avançar detalhes sobre o conteúdo do excerto que deverá ser publicado até ao fim deste ano, naquele que será o primeiro volume a reunir textos retirados da máscara funerária que, no processo, acabou por ser destruída.
Era preciso destruir?
Esta destruição é apenas mais uma acha para o debate que envolve biblistas, historiadores, arqueólogos, paleógrafos e outros cientistas. Quem decide o que é mais importante, se uma antiguidade egípcia se uma relíquia cristã? E justifica-se abdicar irremediavelmente de algo com 2000 anos para recuperar textos cujo conteúdo se desconhece? E não havia outros métodos à disposição que permitissem ler os textos sem destruir o artefacto?
Mesmo que a máscara funerária em causa pertença a privados, como aqui, estas e outras questões são pertinentes, defendem os que criticam os métodos usados pela equipa de Craig Evans. Estes académicos temem, por exemplo, um efeito multiplicador que pode vir a alimentar o tráfico de antiguidades. E se, obcecados pela possibilidade de virem a descobrir documentos relevantes, os coleccionadores destes artefactos começarem a destruí-los? E se, aumentando a procura destas máscaras de papiros reciclados em lojas de antiguidades e leiloeiras, dispararem os saques a túmulos e pequenos museus um pouco por todo o Egipto?
“A destruição de máscaras de múmias, ainda que legal, cai agora numa zona ética cinzenta devido às difíceis escolhas que os cientistas têm de fazer em laboratório quando estão a trabalhar com elas”, lembrou à CNN Douglas Boin, professor de História da Universidade de Saint Louis.
Juntando-se ao debate, Roberta Mazza, académica de História da Antiguidade Clássica da Universidade de Manchester, defendeu no seu blogue que “não é necessário destruir por completo as máscaras para retirar os textos se forem usados métodos que têm vindo a ser desenvolvidos e melhorados pelos papirologistas desde 1980”.
Mazza levanta ainda reservas à datação ao lembrar que, segundo as mais recentes teorias de arqueólogos e outros especialistas que estudam o Egipto e os seus ritos funerários, a reciclagem de papiros para fazer as máscaras e os painéis que cobriam as múmias terminou no início do período de Augusto – o primeiro dos imperadores romanos, que governou de 27 a.C. ao ano 14 –, “quando Jesus ainda não tinha nascido ou era apenas uma criança”.
Comunidade científica céptica

A análise histórica de temas relacionados com a Bíblia dá sempre debate, tal como o restauro de um Leonardo da Vinci ou de um Miguel Ângelo. A comunidade científica está destinada a dividir-se. Mas, no que toca ao Novo Testamento, os especialistas tendem para um consenso quando defendem que o mais breve dos evangelhos – o de Marcos – é também o mais antigo e o que estaria na base dos relatos de Lucas e Mateus, lembra o diário norte-americano The Washington Post. Sendo o mais próximo de Jesus cronologicamente – ainda que tenha poucos pormenores sobre a sua vida e, sobretudo, sobre o que aconteceu depois da sua morte –, atrai atenções.

Como ainda não estão publicadas, as descobertas de Evans e dos especialistas que com ele trabalham não foram sujeitas à crítica dos seus colegas, que para já se mantêm absolutamente cépticos. Num texto publicado no site do canal de notícias americano CNN, dois investigadores – Joel Baden, biblista da Universidade de Yale, e Candida Moss, professora de Novo Testamento da Universidade de Notre Dame – lançam uma série de dúvidas sobre o achado, sublinhando que as únicas certezas que até agora existem é a de que o fragmento ainda não foi dado a conhecer e de que foi preciso destruir uma máscara com 2000 anos para o recuperar.
Baden e Moss lembram que Evans, depois de ter afirmado que o artefacto funerário não tinha qualidade para figurar num museu, admitiu desconhecer a sua proveniência, o que coloca, à partida, grandes reservas à própria investigação. Numa época de profunda agitação política em que os saques a sítios arqueológicos e os roubos em museus e bibliotecas se multiplicam é possível que tenha saído ilegalmente do Egipto.
Com base na opinião de Brice Jones, um especialista em papiros da Universidade de Concordia, também no Canadá, Baden e Moss fazem questão de sublinhar que a análise da escrita “não é uma ciência exacta” e que a datação por carbono-14 também levanta problemas, já que a margem de erro é superior a 100 anos (recorde-se que os excertos mais antigos do Novo Testamento que hoje se conhecem são do século II).
“Até que o mundo académico tenha acesso a este papiro, as opiniões que vierem a público sobre ele são tão relevantes como se tivéssemos anunciado a descoberta da cópia pessoal de Moisés do Génesis numa embalagem de húmus e que prometíamos mostrá-la mais tarde”, escreveram os professores de Yale e de Notre Dame.
Evans garantiu, por seu lado, que apesar de pequeno o fragmento descoberto na máscara é autêntico e poderá levar os académicos a perceber um pouco melhor como é que o evangelho de S. Marcos foi mudando ao longo dos tempos e até mesmo como a história de Jesus foi sendo contada às primeiras comunidades de cristãos.
Ao diário espanhol ABC, Santiago Guijarro, catedrático de Novo Testamento da Universidade Pontifícia de Salamanca e director da Associação Bíblica Espanhola, explicou que, até aqui, a cópia de Marcos mais recuada que se conhece é do século III  o Papiro 45, que hoje está em Dublin, na Irlanda, e integra a colecção da biblioteca Alfred Chester Beatty, o coleccionador que o comprou no Egipto: um documento “muito importante” por ser “o primeiro códice que agrupa os quatro evangelhos”.
Muitos dos textos mais antigos que se conhecem do Novo Testamento foram descobertos ou comprados por vários coleccionadores europeus precisamente no Egipto, e posteriormente integrados em bibliotecas nacionais – como o Papiro de Paris, do século III, com excertos do evangelho de Lucas, que está na Biblioteca Nacional de França –, ou em nome próprio.

Até ao final do ano, se a publicação do fragmento de Marcos não for novamente adiada (já esteve prevista para 2013 e 2014), o debate entre historiadores, arqueólogos e outros cientistas promete intensificar-se.
Fonte: Público
Os evangelistas Marcos e Lucas numa pintura de Matthias Stomer, de cerca de 1635
Exemplar das máscaras funerárias cartonadas. Da Colecção Charles Pankow de Arte Egípcia, leiloada pela Sotheby’s. É do período ptolomaico (cerca de 50 a.C. a 100) e atingiu os 9500 euros
Fragmento do Evangelho de João do Papiro 45 (século III), da biblioteca Alfred Chester Beatty, Dublin, Irlanda

2 comentários:

  1. Será que ninguém percebe o esforço secular para situar o cristianismo no século I? Todo ano alardeiam um novo achado que depois é desmascarado. Quando iniciei minha pesquisa diletante acerca da origem do cristianismo, eu já tinha uma ideia formada que pode parecer esdrúxula: a perseguição aos judeus. Portanto, nada de Bíblia, teologia e história das religiões. Todos os que haviam explorado esse caminho haviam chegado à conclusão alguma. Contidos num cercadinho intelectual, no máximo, sabiam que o que se pensava saber não era verdade. É isso o que a nossa cultura espera de nós, pois não tolera indiscrições. Como o mundo não havia parado para que o Novo Testamento fosse escrito, o que esse mesmo mundo poderia me contar a respeito dessa curiosidade histórica? Afinal, o que acontecia nos quatro primeiros séculos no mundo greco-romano, entre gregos, romanos e judeus? Ao comentar o livro “Jesus existiu ou não?”, de Bart D. Ehrman, exponho algumas das conclusões as quais cheguei e as quais o meio acadêmico de forma protecionista insiste ignorar.
    http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/paguei-pra-ver

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  2. Será que ninguém percebe o esforço secular para situar o cristianismo no século I? Todo ano alardeiam um novo achado que depois é desmascarado. Quando iniciei minha pesquisa diletante acerca da origem do cristianismo, eu já tinha uma ideia formada que pode parecer esdrúxula: a perseguição aos judeus. Portanto, nada de Bíblia, teologia e história das religiões. Todos os que haviam explorado esse caminho haviam chegado à conclusão alguma. Contidos num cercadinho intelectual, no máximo, sabiam que o que se pensava saber não era verdade. É isso o que a nossa cultura espera de nós, pois não tolera indiscrições. Como o mundo não havia parado para que o Novo Testamento fosse escrito, o que esse mesmo mundo poderia me contar a respeito dessa curiosidade histórica? Afinal, o que acontecia nos quatro primeiros séculos no mundo greco-romano, entre gregos, romanos e judeus? Ao comentar o livro “Jesus existiu ou não?”, de Bart D. Ehrman, exponho algumas das conclusões as quais cheguei e as quais o meio acadêmico de forma protecionista insiste ignorar.
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