Embora Vincent van Gogh tenha
pintado mais de 30 auto-retratos, são raras as representações do rosto do
pintor holandês feitas por outros artistas e não são conhecidas quaisquer
fotografias do autor de Os Girassóis. Mas, a 31 de Março, será
exposto em Bremen, na Alemanha, pela primeira vez um esboço até agora
desconhecido, da autoria do seu amigo Émile Bernard, que mostra Van Gogh entre
mulheres e bebida.
O desenho, descrito pelo jornal
especializado Art Newspaper como sendo do tamanho de um postal
e desenhado a caneta e tinta, foi descoberto entre centenas de outros esboços
do artista e escritor francês que estavam acondicionados num livro de registos
contabilísticos. E que se encontravam nos arquivos do Kunsthalle Bremen há mais
de 45 anos.
Será mostrado ao público no
Kunsthalle Bremen, no âmbito da exposiçãoÉmile Bernard: On the Pulse of
Modernity – que esteve em Paris, no Musée de l'Orangerie, até ao
passado dia 5 de Janeiro, mas que não continha o álbum com 858 desenhos, entre
os quais a página que mostra Van Gogh, duas mulheres e duas garrafas em
primeiro plano.
Embora a exposição em Bremen se inaugure já no
próximo dia 7, só a 31 de Março será mostrada a página com o raro desenho, que
será visível até 31 de Maio.
Dorothee Hansen, curadora no
Kunsthalle Bremen e autora da identificação deste retrato, considera, segundo o Art
Newspaper, que terá sido produzido no Inverno de 1886/7, alguns meses
depois de os dois artistas se terem conhecido. “Há tão poucos retratos de Van
Gogh deste período”, disse, citada pelo diário britânico The
Independent, acrescentando que a colecção do museu recebe assim uma nova
peça “maravilhosa”. Tudo indica, refere a perita, que tenha sido feito com
alguma leveza, mostrando o artista entre “as ‘tentações’ de duas senhoras e
duas garrafas”.
Até agora desconhecido, o trabalho
encontrava-se num grande livro que foi vendido em 1970 pelo genro de Bernard,
Clément Altarriba, ao museu alemão e que ali ficou até ser agora investigado. O
tempo passado até identificar o teor do livro deveu-se ao facto de, como
descreve Hansen, este ser “um caos” que coligia trabalhos de Bernard produzidos
desde os seus 13 anos até aos que fez já quando era sexagenário. “Não havia
cronologia, e havia diferentes técnicas e estilos”, acrescenta a curadora.
Émile Bernard (1868-1941) conheceu
Van Gogh (1853-1890) quando o pintor holandês, por falta de
dinheiro, se mudou de Antuérpia (Bélgica) para Paris, onde vivia o seu
irmão Theo. Foi ali, em 1886, que conheceu Henri de Toulouse-Lautrec, Paul
Gauguin e Bernard – os dois últimos tornar-se-iam fortes influências na
abordagem de Van Gogh à cor. Dois anos em Paris, epicentro das vanguardas artísticas
e literárias, tocaram o seu trabalho com cores e texturas que viriam e
revelar-se nas obras mais conhecidas do pintor, produzidas depois de sair da
capital para a Provença, para o sol de Arles e Saint-Rémy.
Terá sido no âmbito dessa amizade,
que os levava a pintar juntos e que fez com que o holandês desse um dos seus
auto-retratos a Bernard, que foi produzido o desenho agora descoberto e
confirmado como sendo uma imagem de Vincent Van Gogh, provavelmente numa noite
de boémia na capital francesa.
Além deste achado no álbum de
Bernard, este continha mais retratos de artistas da época: um do
neo-impressionista Paul Signac e algumas caricaturas de Toulouse-Lautrec a
trabalhar, todos identificados por notas no próprio livro e que, por isso
mesmo, tinham já sido detectados e removidos do álbum antes de este ser
entregue ao museu alemão. De acordo com o Art Newspaper,
encontram-se na posse de coleccionadores privados.
Fonte: Público
O novo retrato, descoberto no Kunsthalle Bremen e divulgado pelo "Art Newspaper"
Detalhe de um Auto-retrato de 1889
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