quarta-feira, 25 de março de 2015

Desta vez, Ricardo III vai ter a sua despedida real

Michael Ibsen é marceneiro e está acostumado aos pedidos de clientes para construir mobílias à medida, como estantes, portas ou armários. Mas o pedido para construir um caixão para o seu antepassado real, imortalizado numa peça de teatro de William Shakespeare, é de longe o pedido mais invulgar que alguma vez recebeu. O público viu pela primeira vez, neste último domingo, o caixão construído à mão por Michael Ibsen com os restos mortais com 530 anos do rei Ricardo III. O monarca será finalmente enterrado na próxima quinta-feira na catedral de Leicester.
“Por duas vezes tive a oportunidade de estar ao lado dos restos mortais, e uma pessoa pensa: ‘Que extraordinário que é. Estou aqui junto desta figura histórica’”, disse Michael Ibsen, de 58 anos. “E depois de esta ideia ser filtrada pela mente, pensei: ‘Uau, sou um familiar [de Ricardo III]’.”
Apesar de ser canadiano, o marceneiro vive no Reino Unido há 30 anos e é uma figura central na identificação dos restos do antigo rei, que em 2012 fez as manchetes da comunicação social em todo o mundo, quando o esqueleto foi desenterrado num parque de estacionamento em Leicester. Nesta quinta-feira, o esqueleto de Ricardo III voltará a ser enterrado num funeral, que vai ser transmitido nas televisões, cuja cerimónia será conduzida pelo arcebispo de Canterbury.
Nesta história, Michael Ibsen acabou por ser não só um construtor de caixões mas foi também o “fazedor de um rei”. O canadiano é sobrinho de Ricardo III em 17ª geração, e o seu ADN – a informação genética que está nas células e passa de pais para filhos – ajudou a confirmar que o esqueleto escavado pertencia, de facto, ao último rei da dinastia Plantageneta. No poder seguiram-se os Tudor, com Henrique VII.
Ricardo III morreu na famosa batalha de Bosworth, em 1485, dois anos depois de se tornar rei. Na altura, o seu enterro foi apressado. Mas mais de cinco séculos depois, os restos mortais do monarca, que estavam perdidos, vão ter um funeral moderno com a pompa britânica.
No domingo passado, um cortejo fúnebre – que saiu da Universidade de Leicester, onde o esqueleto foi estudado – passou pelos principais lugares ligados aos últimos dias de Ricardo III, incluindo o sítio onde terá morrido e a igreja onde se pensa que terá ido à missa na véspera da sua última batalha.
Chumbo, carvalho e teixo
A cidade de Leicester, a 160 quilómetros a noroeste de Londres, está completamente ciente deste momento histórico. Por estes dias, haverá lançamentos de livros, exposições sobre a época medieval e conferências dos geneticistas e arqueólogos que estiveram envolvidos na escavação dos restos mortais e na sua identificação. No sábado, a Universidade de Leicester teve o “Dia de Ricardo III”, onde os visitantes puderam observar o esqueleto e provar os alimentos da época daquele rei, como tarte de carne de veado.
“Esperávamos que houvesse algum interesse no rei medieval, mas fomos apanhados de surpresa com o fenómeno global que se gerou”, disse Philippa Langley, uma argumentista e membro da Sociedade Ricardo III, que considera que o rei passou a ser muito mal visto devido à peça de Shakespeare. No texto dramático, o escritor inglês conta a história de um rei corcunda que ordena o assassínio dos seus jovens sobrinhos na Torre de Londres e morre na batalha, gritando: “Um cavalo! Um cavalo! O meu reino por um cavalo!”
A argumentista foi a força motriz – e que conseguiu angariar o dinheiro – da escavação. Philippa Langley estava convencida de que os restos mortais de Ricardo III não tinham sido perdidos e que, ao contrário do que os historiadores pensavam, não tinham ido parar a um rio próximo. Em vez disso, ela acreditava que estavam enterrados por baixo de um parque de estacionamento, onde, no passado, se situava a igreja Greyfriars.
E, de facto, os restos mortais foram lá encontrados. Mas mesmo depois do esqueleto, com a coluna vertebral encurvada, ter sido descoberto, foi necessário fazer um trabalho de detective usando a genética. Os historiadores encontraram uma linhagem hereditária entre Ana de York, a irmã mais velha de Ricardo III, e a mãe de Michael Ibsen, Joy, que morreu em 2008. No entanto, o seu filho providenciou amostras do seu próprio ADN e verificou-se que correspondia ao de Ana de York. [A análise teve em conta o ADN das mitocôndrias – as chamadas “baterias das células”, que lhes dão energia e são transmitidas apenas por via materna –, confirmando que Michael Ibsen e Ricardo III partilham a mesma linhagem.]
Antes de construir um caixão para o seu antepassado real, o marceneiro passou muito tempo a investigar as antigas técnicas de enterramento de reis e descobriu que, na altura de Ricardo III, os monarcas não eram sepultados em caixões de madeira. Eram “basicamente cobertos por chumbo e colocados directamente em sepulturas onde eram enterrados”, explicou.
No final, decidiu-se que um caixão de madeira com revestimento interno de chumbo seria mais apropriado. O design do caixão, que foi construído com madeira de carvalho e teixo, “é simples mas elegante”, disse Michael Ibsen. Os restos mortais de Ricardo III foram envolvidos em lã e colocados num ossário de chumbo dentro do caixão.
A descoberta do esqueleto de Ricardo III provocou um debate nacional sobre a reputação do rei, visto por muitos como um assassino e um tirano movido pelo poder a todo o custo. O marceneiro “perdeu a conta” do número de pessoas que foram ter com ele para falar sobre o seu antigo antepassado: “Dizem-me: ‘Nunca estive interessado em história, mas comprei um livro, que diz isto e aquilo...’ E começam a citar factos. É maravilhoso se isto está a estimular as pessoas a olhar para o passado.”
 

 Fontes Público

Coroa pousada no caixão de Ricardo III
O caixão de Ricardo III
O caixão de Ricardo III a ser transportado por Leicester no domingo

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