Os extremistas do autodesignado
Estado Islâmico estão a levar cada vez mais longe a onda de destruição do
passado histórico do Iraque. Depois do ataque ao Museu de Mossul, um dos mais
importantes do Médio Oriente, ter levado militantes a partirem com martelos,
picaretas e berbequins esculturas e frisos milenares, chega agora a vez da
cidade assíria de Nimrud, com 3000 anos.
Segundo as autoridades iraquianas,
citadas pela imprensa internacional, os jihadistas avançaram sobre este sítio
arqueológico nas margens do Rio Tigre, a sul de Mossul, a segunda maior cidade
do país, com bulldozers, arrasando várias estruturas.
Nimrud, assim chamada em homenagem
ao rei Nimrod, caçador lendário que a Bíblia refere, é um dos principais pólos
da antiga Mesopotâmia, tida com um dos berços da civilização, formando com as
cidades reais de Nínive e Hatra um triângulo patrimonial de referência. Foi
fundada por volta de 1250 a.C. e, quatro séculos mais tarde, tornou-se a
capital do império assírio, o mais poderoso do seu tempo, com um território que
abarca o que é hoje o Egipto, a Turquia e o Irão.
Os motivos que os extremistas evocam
para a destruição em Mossul e na velha Nimrud são os
mesmos: as estátuas dos acadianos – povos, como os assírios e babilónicos, que
falavam acádio, língua da Mesopotâmia que usava a escrita cuneiforme e é uma
das mais antigas do mundo - são vistas como blasfemas, já que são o reflexo de
que, no passado, esta região já adorou “ídolos”, desrespeitando o Profeta.
Foi o ministro do Turismo e das
Antiguidades que, segundo a agência de notícias francesa, AFP, deu o alerta,
garantindo, na quinta-feira, que o grupo terrorista atacara “a cidade histórica
de Nimrud, demolindo-a com veículos pesados”. Os extremistas, acrescentou,
“continuam a afrontar a vontade do mundo e os sentimentos da humanidade”,
escreveu na sua página na rede social Facebook, de acordo com o jornal The
Independent.
Outro responsável pelo património,
que preferiu manter o anonimato, precisou que o ataque começou depois das
orações do meio-dia e que, além dos bulldozers, os militantes
levaram camiões para poderem transportar as esculturas mais pequenas, que foram
capazes de destacar dos muros e paredes do sítio arqueológico. O tráfico de
antiguidades, recorde-se, foi já identificado como uma das fontes de
financiamento destes extremistas.
A destruição foi também confirmada,
desta vez à agência Reuters, por uma fonte tribal: “Os membros do EI vieram à
cidade arqueológica de Nimrud e saquearam tudo o que havia de valor e depois
continuaram, arrasando todo o sítio. (…) Havia estátuas e paredes, assim como
um ‘castelo’ que o Estado Islâmico destruiu por completo.”
Ainda que a destruição levada a cabo
pelo grupo terrorista possa comparar-se à implosão dos budas de Bamiyan, levada
a cabo pelos taliban no Afeganistão, em 2001, muitos arqueólogos têm vindo a
defender que, no seu ataque ao património, o autoproclamado Estado Islâmico tem
sido mais rápido, implacável e abrangente do que os “estudantes de teologia”,
lembra esta sexta-feira o jornal britânico The Guardian.
É ainda cedo para determinar a
amplitude do ataque, disse à televisão Al-Jazira outro funcionário ligado às
antiguidades, embora haja já relatos de que os portões do palácio do rei
assírio Ashurnasirpal II foram esmagados. Estes portões são formados por
esculturas icónicas que se podem encontrar em cidades como Persépolis e
nalgumas das mais importantes colecções do mundo, como as dos museus Britânico,
em Londres, do Louvre, em Paris, ou do Metropolitan de Nova Iorque – os lamassu são
divindades assírias, representadas com corpo de leão ou de touro, asas de águia
e rosto humano. Para os jihadistas promovem a idolatria.
A Organização das Nações Unidas para
a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO, na sigla em inglês) já classificou este
ataque como um “crime de guerra”, apelando a que “todos os responsáveis
políticos e religiosos da região se levantem contra esta nova barbárie”.
Ao diário francês Le Monde,
Abdelamir Hamdani, arqueólogo iraquiano da Universidade de Stony Brook, em Nova
Iorque, disse estar “chocado” com o que aconteceu em Nimrud, mas não
surpreendido. Para Hamdani é certo que os extremistas farão o mesmo em Hatra,
“é so uma questão de tempo": "Lamento dizê-lo, mas o mundo já estava
à espera. O objectivo dos jihadistas é destruir o património iraquiano, sítio
após sítio.”
O
Iraque a Síria têm sido particularmente visados nos ataques ao património nos
últimos anos. Sendo que, lembram especialistas dos museus europeus e
americanos, a destruição de artefactos e sítios arqueológicos nesta região do
Médio Oriente compromete uma herança comum, já que boa parte da história da
civilização passa pelas cidades acadianas. Entre os ataques mais graves está a
invasão do Museu de Bagdad, em 2003, que levou à perda irremediável de milhares
de artefactos e documentos que terão inundado o mercado negro de antiguidades;
o ataque sistemático à Cidade Velha de Alepo, património da humanidade, e agora
Mossul e Nimrud.
Fonte: Público
Um animal alado com rosto humano, símbolo da força da civilização assíria, no sítio arqueológico de Nimrud, em 2001
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