“Sinto que te amo desde sempre,
mesmo antes de ainda teres nascido.” “A única coisa que para mim é certa é que
te amo.” “Não me abandones. Mantém-me dentro de ti, imploro-te.” As palavras,
tão apaixonadas quanto desesperadas, são da pintora mexicana Frida Kahlo para o
artista espanhol José Bartoli, quando ainda era casada com o famoso muralista
Diego Rivera. A relação, que aconteceu mais por palavras tendo em conta a
distância entre os dois, durou de 1946 a 1949. É a primeira vez que estas
cartas vêm a público. Vão ser leiloadas dia 15 em Nova Iorque.
Frida Kahlo (1907-1954) tinha
acabado de ser operada à coluna vertebral quando a sua irmã Cristina lhe
apresentou José Bartoli (1910-1995). Tinha 39 anos, estava na cama do hospital
em Nova Iorque, a cidade que o espanhol escolheu para se refugiar, fugido da
Guerra Civil em Espanha. Foi em 1946. Antes de regressar ao México, pouco
depois do seu primeiro encontro, Bartoli pediu à pintora que lhe escrevesse.
Queria saber como recuperava, ter a certeza de que Frida Kahlo estava bem.
E assim aconteceu. Na primeira carta
do lote de 25 que a 15 de Abril vai a leilão na Doyle, em Nova Iorque, Frida
conta como está a recuperar na sua Casa Azul. O seu desejo é o de ficar
boa depressa para quando Bartoli viajar até ao México ela possa estar com ele.
Semanas depois, em finais de Agosto, percebe-se que os dois já se encontraram.
As pequenas formalidades que até então existiam desapareceram. Frida Kahlo está
apaixonada.
“Bartoli, na noite passada senti
como se muitas asas me acariciassem toda, como se as tuas impressões digitais
tivessem bocas que beijavam a minha pele. Os átomos do meu corpo são os teus”,
escreve a mexicana, ao mesmo tempo, que diz não querer atrapalhar a vida do
espanhol, especialmente o seu trabalho. Ele devia ser livre e ela amá-lo-ia
para sempre.
O romance estava só no início. À
medida que o tempo passa as cartas vão crescendo, têm entre duas a 12 páginas.
José Bartoli é o seu grande confidente. Frida Kahlo conta-lhe tudo. A sua
relação tumultuosa com Rivera, as dores que todos os dias sentia devido aos
seus problemas de saúde – a mexicana ficou com a coluna desfeita depois do
acidente que sofreu em 1925 a bordo de um autocarro, tinha 18 anos –, até às
suas pinturas. Dizia-lhe o que fazia todos os dias, quanto tempo havia pintado,
a quem ia vender aquelas obras. Sentia-se terrivelmente sozinha, deprimida.
Bartoli era a sua razão para viver.
“Por ti voltei a viver, a pintar, a
ser feliz, a comer melhor”, escreve aquela que é hoje considerada uma das
pintoras mais importantes do século XX. A sua dependência de Bartoli é visível
a cada carta que escreve. O pedido desesperado para que este não a abandone
repete-se até à exaustão. “És a razão do meu viver, tudo o que sempre sonhei e
não tens ideia do quanto eu preciso de ti para não me sentir sozinha.”
Nestas cartas Frida era Mara,
diminutivo de Maravillosa, assim lhe chamava o espanhol, que quando lhe
escrevia dirigia às cartas a Sonja, sua amiga, ou a Cristina, a sua irmã, para
que Diego Rivera não desconfiasse.
Numa das cartas, em finais de 1946,
Frida Kahlo fala de como o período não lhe veio e o bom que era se ela
estivesse grávida de Bartoli, embora soubesse que isso seria praticamente
impossível, uma vez que nunca antes tinha conseguido ter um filho. Mesmo assim,
a pintora sonha: “Se fosse realidade, nada na vida me daria mais alegria.
Consegues imaginar um pequeno Bartoli ou uma pequena Mara?”
No lote, cuja estimativa máxima da
leiloeira aponta para os 120 mil dólares (aproximadamente 110 mil euros), não
há respostas de Bartoli, apenas rascunhos que este guardou dentro dos envelopes
originais das cartas de Frida a que respondia. Ela também era o sol do seu
universo, escrevia o espanhol, que com o tempo deixou de lhe escrever. Até ao
dia em que Frida soube que Bartoli esteve no México sem a ter avisado. Eventualmente
o tom desesperado da mexicana nas cartas afastou-o, sugere no catálogo do
leilão a historiadora e autora da biografia de Frida Kahlo, Hayden Herrera.
Herrera entrevistou José Bartoli
para o seu livro sobre a mexicana e na apresentação destas cartas a autora
garante que o espanhol nunca perdeu o seu amor por Frida. “Se lhe perguntasses
sobre ela, ele falaria com grande veneração, mas também com moderação”, afirma.
Verdade é que apesar de o amor não
ter ido longe, Bartoli guardou estas cartas, juntamente com fotos, desenhos e
pequenos objectos que Frida lhe enviava, até à sua morte, sem nunca ter
revelado o seu conteúdo. Quando em 1995 o espanhol morreu, a correspondência
ficou nas mãos da sua família.
Fonte: Público
José Bartoli
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