sexta-feira, 15 de maio de 2015

15 de Maio de 1492: D. João II funda o Hospital Real de Todos os Santos, em Lisboa

Hospital Real de Todos os Santos, hoje designado por Hospital de São José, foi criado por D. João II, quando ainda príncipe herdeiro, tendo este obtido autorização da Santa Sé, a 13 de Agosto de 1479, para reunir os rendimentos de diversos pequenos hospitais de Lisboa e seu termo, a fim de construir um "grande hospital" destinado à assistência de pobres e enfermos. O monarca recorreu ainda a doações pessoais, a rendimentos de bens vinculados, de agremiações dos ofícios mecânicos e doações feitas por particulares, entre outros. Ao longo dos tempos outras fontes de rendimento foram concedidas ao hospital, nomeadamente provenientes das licenças para representação de óperas e comédias cujo direito foi atribuído ao hospital por Carta Régia, de 9 de Abril de 1603. Esta doação foi substituída em carta de padrão com salva, a 20 de Novembro de 1759, por 1.300$000 reis de esmola, pagos em quartéis pelos rendimentos da Casa da Moeda. Posteriormente a lotaria foi outro dos rendimentos do hospital. O lançamento da primeira pedra teve lugar em 15 de Maio de 1492, mas a construção só ficou concluída no reinado de D. Manuel. A sua edificação foi feita em terrenos da cerca do convento de São Domingos de Lisboa, os quais correspondem à actual Praça da Figueira. D. Manuel seguiu as instruções deixadas em testamento pelo seu antecessor, quer no que respeita à construção quer à sua organização, e, em 1504, deu-lhe regimento, no qual estabelecia o seu funcionamento, as categorias e o número de funcionários de cada uma delas: capelães, provedor, escrivão do provedor, vedor, físico, cirurgiões, almoxarife, escrivão do almoxarife, enfermeiros, ss pequenos, cozinheiro, porteiro e guarda portas, boticário, ajudantes de botica, enfermeira de mulheres, cristaleira, lavadeira, alfaiata, hospitaleiro, barbeiro e sangrador, , como empregados para servirem o provedor, atafoneiro, assadeira e forneira. O regimento estipulava ainda as obrigações e tarefas de cada um bem como os seus vencimentos. A instituição, que começou a funcionar ainda antes do edifício estar concluído, foi baptizada com o nome de Hospital Real de Todos os Santos. Em forma de cruz, com os quatro braços iguais, correspondendo o braço com o portal para o exterior, à igreja e os outros três às enfermarias, duas de homens: São Vicente e São Cosme e uma de mulheres: Santa Clara. No centro da cruz ficava o altar mor o que permitia a todos os doentes assistir aos ofícios divinos. Por trás das camas ficavam portas que permitiam retirar os mortos sem que os outros doentes disso se apercebessem. Havia também junto a cada cama armários para os doentes guardarem os seus objectos pessoais. O edifício tinha várias dependências anexas que serviam de apoio às enfermarias: botica, cozinha, despensa, lavandaria, serviços administrativos, instalações para os funcionários. D. João III mandou reparar algumas dependências e erguer outras como uma casa para doidos e uma enfermaria para convalescentes, dando ao mesmo tempo várias esmolas em dinheiro, drogas, cera, açúcar, roupas e outras. O edifício sofreu alguns danos com o incêndio que ocorreu em 1601 e ficou parcialmente destruído devido a outro incêndio, este em 1750 que atingiu a igreja e várias dependências pelo que D. José ordenou a compra de várias propriedades destinadas à sua reconstrução. Com o terramoto de 1 de Novembro de 1755 o edifício ficou completamente arruinado. Foram erguidos hospitais provisórios em São Bento e na casa dos Almadas e depois no Rossio e às Portas de Santo Antão, enquanto se faziam as adaptações necessárias no Colégio de Santo Antão, que pertencera aos jesuítas. Vinte anos depois, procedeu-se à transferência dos doentes e serviços para as novas instalações. Sob a orientação do então enfermeiro mor, Francisco Furtado de Mendonça, os habitantes de Lisboa, incluindo a nobreza da corte e as comunidades religiosas, ajudaram a transportar as macas com os doentes e feridos. O hospital passou a chamar-se Real de São José, homenagem ao monarca, mantendo-se a estrutura orgânica e funcional que tinha antes do terramoto. No século XIX a necessidade de expansão motivada pelas epidemias, o aparecimento de novas doenças, o avanço da medicina, levou à anexação de vários edifícios, alguns deles monásticos, vagos com a extinção das ordens religiosas, passando a instituição a chamar-se Hospital Real de São José e Anexos. Os relatórios apresentados ao rei pelos enfermeiros mores, nomeadamente quando tomavam posse do lugar, testemunham as dificuldades e os problemas com que a assistência se debatia. No século XIX vários regulamentos e portarias tentaram melhorar os serviços. Em 1889 pelo Ministério do Reino foi dada ordem para se proceder a obras de adaptação e melhoramento do edifício. Este processo terminou em 1898. Em 1901 o funcionamento da instituição foi completamente remodelado pelo enfermeiro mor Curry Cabral. Com a República, a estrutura aprovada em 1901 manteve-se, deixando, no entanto, o hospital de ter a designação de Real e, em 1913, a designação passou a ser a de Hospitais Civis de Lisboa, designação essa que se manteve até 1958. Neste ano, com a criação da Direcção Geral da Saúde, a designação de Hospitais Civis de Lisboa foi revogada, ficando os hospitais, cada um per si, dependentes da referida Direcção, voltando a existir o Hospital de São José. Com a criação do Ministério da Saúde, a autonomia dos Hospitais Civis de Lisboa ficou limitada tendo desaparecido completamente em 1961, com a criação da Direcção Geral dos Hospitais Civis. A organização do hospital sofreu diversas alterações. O último regulamento data de 1993. A portaria n.º 11/93 de 6 de Janeiro, do Ministério da Saúde, reconheceu que o surgimento de novas especialidades e subespecialidades e das progressivas exigências qualitativas de quem recorre aos hospitais, obriga a uma maior complexidade e diferenciação na organização hospitalar. A portaria refere também a importância de regulamentos internos. Este regulamento é assinado em 20 de Novembro de 1992 e nele se define os seus objectivos, funções e valências; estrutura dos serviços de assistência: departamentos, serviços e áreas funcionais. Posteriormente a este diploma outros foram publicados sobre diversos assuntos respeitantes aos serviços hospitalares, mas que não alteram o regulamento interno referido. Com a documentação de arquivo que constitui este fundo foram incorporados algumas revistas médicas, e monografias, na sua maioria respeitantes a doenças e evolução da medicina, à história do Hospital Real de Todos os Santos e a médicos que de algum modo se destacaram na sua profissão.
wikipedia (imagens)
Rossio, numa gravura do século XVI, com o Hospital Real de Todos os Santos à direita
Fachada principal do Hospital Real de Todos os Santos, voltada para a praça do Rossio. Destaca-se ao cimo da escadaria a fachada manuelina da igreja do hospital. Desenho do séc. XVIII

Painel de azulejos mostrando a fachada do Hospital Real de Todos os Santos, c. 1740



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