sexta-feira, 29 de maio de 2015

Homicídio no Plistoceno, disseram os cientistas

Na época do Plistoceno, há 430.000 anos, o homem moderno ainda não tinha surgido, mas outras espécies de humanos já tinham colonizado a Eurásia, a partir de África. Na Europa, vivia o Homo heidelbergensis, que se pensa ter dado origem aos neandertais. Agora, a reconstituição de um crânio encontrado numa gruta de Espanha revelou a existência de uma luta fatal há 430.000 anos, onde se utilizou uma arma, fazendo recuar no tempo o registo mais antigo de violência intencional humana, revela um artigo publicado nesta semana na revista PLOS ONE.
Na paleoarqueologia, é sempre difícil tirar conclusões sobre as acções que provocaram a existência dos vestígios encontrados. Já se encontraram esqueletos de humanos que sofreram diferentes traumas, mas podiam ter sido originados durante a caça. Há provas de canibalismo antigas, com 600.000 anos.
Mas, até agora, as provas incontestáveis e mais antigas de violência entre humanos eram muito mais recentes, provinham do Neolítico, há cerca de 10.000 anos, obtidas em vestígios deixados pelo homem moderno.
O crânio que permitiu a nova descoberta não foi encontrado de uma só vez. A equipa do Centro Misto de Evolução e Comportamento Humanos, do Instituto de Saúde Carlos III, em Madrid, foi obtendo, um a um, os 52 pedaços do crânio, à medida que ia escavando em Sima de los Huesos, um dos vários sítios arqueológicos na Serra de Atapuerca, em Burgos, Espanha. Os locais arqueológicos desta pequena cordilheira são Património da Humanidade da UNESCO devido à sua importância para compreendermos o modo de vida dos humanos pré-históricos.
Sima de los Huesos fica na base de um poço natural com 13 metros, situado na gruta Cueva Mayor. O local está a ser escavado desde 1984, com toneladas de material a ser retirado de lá, para depois se estudar cuidadosamente. Já foram recuperados restos de, pelo menos, 28 indivíduos que viveram há cerca de 430.000 anos, e que estão identificados como Homo heidelbergensis.
O crânio agora reconstituído, a partir dos 52 pedaços, é o número 17. Pertence a uma espécie de humanos que “está muito próxima do Neandertal”, explicou ao PÚBLICO Nohemi Sala, autora do estudo, referindo-se à espécie que iria surgir dali a cerca 200.000 anos. “Este indivíduo foi morto num acto letal de violência interpessoal, abrindo-nos uma janela para um aspecto muitas vezes invisível da vida social dos nossos antepassados humanos.”
Para chegarem a esta conclusão, os cientistas tiveram primeiro de reconstituir o crânio. Depois, utilizando diferentes tipos de técnicas, analisaram os dois buracos na parte frontal do crânio, por cima da cavidade do olho esquerdo. A análise aos dois buracos permitiu compreender que não houve um processo de cicatrização após o trauma, indicando que os buracos foram feitos na altura da morte daquele humano. Por outro lado, os dois buracos foram provocados pelo mesmo objecto. Tudo isto põe de lado a hipótese deste humano ter caído no poço e ter batido duas vezes contra a mesma rocha.
“Devido à consistência da forma e do tamanho, é claro que os traumas brutais não foram involuntários, mas, antes, parecem ter sido produzidos pelo uso de um instrumento com um determinado tamanho e forma”, conclui o artigo. “A severidade destas feridas, com ambos os golpes a penetrarem na barreira entre o osso e o cérebro, e a ausência de um processo de cicatrização, por renovação do osso, leva-nos a considerar que este indivíduo não sobreviveu aos traumas cranianos. Cada um dos dois eventos traumáticos foram provavelmente mortais, e a presença de golpes repetidos poderá sugerir uma intenção clara de matar.”
Assim, estamos perante aquilo que os autores dizem representar “o acto mais antigo de agressão deliberada e letal no registo fóssil” humano. Os vestígios de Sima de los Huesos já tinham mostrado que aquela população usava preferencialmente a mão direita. Como os golpes estão na parte esquerda do crânio, a equipa acredita que alguém bateu naquele humano, usando o braço e mão direita e, claro, um instrumento.
“É importante lembrarmo-nos de que estes humanos eram robustos e que esta era uma das partes mais densas do crânio”, explica ao jornal norte-americano Los Angeles Times Danielle Kurin, antropóloga forense da Universidade da Califórnia, em Santa Barbara, que não faz parte da equipa. “Era necessário muita força para provocar uma fractura que faça o osso penetrar no cérebro.”
Mas esta descoberta também obriga a repensar a função daquele poço, onde se encontraram vestígios de quase três dezenas de indivíduos. Este humano que foi assassinado em circunstâncias desconhecidas teve, depois, de ser transportado para ali. “Este local é a prova das mais antigas práticas funerárias descobertas até agora”, explica Nohemi Sala.
Ou, como disse também ao Los Angeles Times o investigador Ignacio Martínez, da Universidade de Alcalá, de Madrid, que também participou neste estudo, “acreditamos que a violência intencional entre pessoas é um comportamento que acompanha os humanos desde há 430.000 anos, assim como também é o cuidado que damos aos doentes ou mesmo aos mortos”. E remata: “Não mudámos assim tanto no último meio milhão de anos.”     
Fonte: Público


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