domingo, 19 de julho de 2015

19 de Julho de 1886: Morre o poeta português Cesário Verde, de 31 anos, autor de "Cristalizações" e de "O Sentimento de Um Ocidental".

Cesário Verde nasceu em Lisboa no dia 25 de Fevereiro de 1855 e faleceu na mesma cidade a 19 de Julho de 1886.
A poesia de Cesário Verde, prefiguradora de uma modernidade estética inteiramente reconhecida após a sua morte, dificilmente cabe nas classificações da história literária. Se a representação pictórica dos ambientes e a descrição plástica da realidade o aproximam do Realismo e do Parnasianismo, se o interesse pelos fracos e humildes ecoa influências românticas e baudelairianas, não é menos verdade que a imaginação do poeta o conduz, muitas vezes, a uma recriação impressionista ou fantasista da realidade devedora da estética simbolista. Filho de um comerciante com loja de ferragens em Lisboa e uma exploração agrícola em Linda-a-Pastora, passa a infância entre os ambientes citadino e rural, binómio que será marcante na sua obra. Em 1873, matricula-se no Curso Superior de Letras, que não chegará a concluir, mas onde trava conhecimento com figuras da vida literária, como Silva Pinto, que se tornará seu grande amigo. Durante a juventude, viaja pelos grandes centros cosmopolitas europeus (Paris e Londres) e deixa vários poemas dispersos por jornais como o Diário de Notícias, Diário da Tarde, Tribuna, A Ilustração, acolhidos com críticas quase sempre desfavoráveis. Em 1874, aparece anunciada a edição breve de um livro de Cesário Verde, que não acontecerá. A partir de 1879, desiludido com a incompreensão do mundo intelectual, Cesário dedica-se cada vez mais a assistir o pai na loja de ferragens e na exploração da quinta. Em 1882, morre-lhe um irmão de tuberculose, tal como a irmã, que havia morrido dez anos antes. Aos 31 anos, ele próprio morre vítima da mesma doença. Em 1887, Silva Pinto publica a primeira edição de O Livro de Cesário Verde.
Cesário Verde. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014.
wikipedia(imagens)
Ironias do Desgosto
Onde é que te nasceu" - dizia-me ela às vezes -
"O horror calado e triste às coisas sepulcrais?
"Por que é que não possuis a verve dos franceses
"E aspiras, em silêncio, os frascos dos meus sais?

"Por que é que tens no olhar, moroso e persistente,
"As sombras dum jazigo e as fundas abstrações,
"E abrigas tanto fel no peito, que não sente
"O abalo feminil das minhas expansões?

"Há quem te julgue um velho. O teu sorriso é falso;
"Mas quando tentas rir parece então, meu bem,
"Que estão edificando um negro cadafalso
"E ou vai alguém morrer ou vão matar alguém!

"Eu vim - não sabes tu? - para gozar em maio,
"No campo, a quietação banhada de prazer!
"Não vês, ó descorado, as vestes com que saio,
"E os júbilos, que abril acaba de trazer?

"Não vês como a campina é toda embalsamada
"E como nos alegra em cada nova flor?
"Então por que é que tens na fronte consternada"
"Um não-sei-quê tocante e enternecedor?"

Eu só lhe respondia: — "Escuta-me. Conforme
"Tu vibras os cristais da boca musical,
"Vai-nos minando o tempo, o tempo - o cancro enorme
"Que te há-de corromper o corpo de vestal.

"E eu calmamente sei, na dor que me amortalha,
"Que a tua cabecinha ornada à Rabagas,
"A pouco e pouco há-de ir tornando-se grisalha
"E em breve ao quente sol e ao gás alvejará!

"E eu que daria um rei por cada teu suspiro,
"Eu que amo a mocidade e as modas fúteis, vãs,
"Eu morro de pesar, talvez, porque prefiro
"O teu cabelo escuro às veneráveis cãs!"

Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'

Ficheiro:Cesario Verde.JPG
Cesário Verde



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