domingo, 30 de agosto de 2015

Cleópatra, rainha do Egipto

Cleópatra: Uma Biografia, de Stacy Schif

Uma das mulheres mais famosas que já existiram, Cleópatra VII governou o Egipto durante 22 anos. Cleópatra inicialmente governou conjuntamente com o seu pai, Ptolomeu XII, e mais tarde com os seus irmãos, Ptolomeu XIII e Ptolomeu XIV, com quem se casou por costume egípcio, mas, eventualmente, ela tornou-se a única governante. 
Perdeu o reino uma vez, reconquistou-o, quase perdeu de novo, construiu um império, perdeu tudo. Deusa em criança, rainha aos dezoito anos, celebridade logo depois, foi objecto de especulação e veneração, de intriga e lenda. No auge do poder, controlava praticamente toda a costa oriental do Mediterrâneo, o último grande reino de qualquer soberano egípcio. Durante um breve instante, deteve o destino do mundo ocidental nas mãos. Teve um filho com um homem casado, três com outro. Morreu aos 39 anos, uma geração antes do nascimento de Cristo. A catástrofe é um cimento firme para uma reputação, e o fim de Cleópatra foi súbito e sensacional. Ela  instalou-se na nossa imaginação desde então. 
O nome pode ser indelével, mas a imagem é vaga. Cleópatra pode ser uma das figuras mais identificáveis da história, mas não fazemos muita ideia da sua aparência. Apenas o retrato em moedas cunhadas em sua vida, que deve ter sido aprovado por ela, pode ser aceite como autêntico. Soberana capaz, esclarecida, soube construir uma frota, eliminar uma insurreição, controlar uma economia, aliviar a fome. Um eminente general romano confiava na sua visão de assuntos militares. Mesmo numa época em que mulheres governantes não eram raridade, ela  destacou-se, única mulher do mundo antigo a governar sozinha e a desempenhar um papel nos negócios ocidentais. Era incomparavelmente mais rica do que qualquer outra pessoa no mundo mediterrâneo. E tinha mais prestígio que qualquer outra mulher da sua época. Cleópatra vinha de uma longa linhagem de assassinos e manteve fielmente a tradição familiar, mas era, em seu tempo e seu espaço, notavelmente bem-comportada. Mesmo assim, ainda é considerada uma tentadora ardilosa, e não é a primeira vez que uma mulher genuinamente poderosa é transformada numa mulher desavergonhadamente sedutora.
Como todas as vidas que se prestam à poesia, a de Cleópatra foi uma vida de deslocamentos e decepções. Ela cresceu num luxo incomparável e herdou um reino em declínio. Durante dez gerações a sua família havia gerado faraós. Os Ptolomeus eram, na verdade, gregos macedónios, o que faz de Cleópatra quase tão egípcia quanto Elizabeth Taylor. Aos dezoito anos, Cleópatra e o seu irmão de dez anos assumiram o controle de um país com um passado de peso e um futuro vacilante. Mil e trezentos anos separam Cleópatra de Nefertiti.  A Esfinge passara por uma importante restauração mil anos antes. E a glória do Império Ptolomaico, que um dia fora grande, estava a  apagar-se. Cleópatra tornou-se adulta num mundo à sombra de Roma, que durante a sua infância havia estendido os seus domínios até as fronteiras do Egipto. Quando Cleópatra tinha onze anos, César lembrou aos seus oficiais que, se não fizessem guerra, se não conseguissem riquezas e dominassem os outros, não seriam romanos. Um soberano oriental que travou uma batalha épica contra Roma articulou o que viria a ser, de maneira diferente, o problema de Cleópatra: os romanos tinham temperamento de lobo. Odiavam os grandes reis. Tudo o que os romanos possuíam era fruto de saques. Pretendiam tomar tudo, e eram capazes de "destruir tudo ou morrer tentando". As implicações disso para o último país rico que restava na esfera de influência de Roma eram muito claras. O Egipto havia-se distinguido pela sua sagacidade nos negócios; em grande parte, mantinha sua autonomia. Inclusive, já havia se envolvido nos negócios romanos.

Em troca de uma inacreditável soma em dinheiro, o pai de Cleópatra havia assegurado a designação de "amigo e aliado do povo romano". A sua filha iria descobrir que não bastava ser amiga daquele povo e daquele Senado; era essencial fazer amizade com o romano mais poderoso do seu tempo. Isso exigia uma tarefa desconcertante na República tardia, assolada por guerras civis. Elas eclodiram regularmente ao longo de toda a vida de Cleópatra, lançando uma sequência de comandantes romanos da época uns contra os outros no que era, em essência, uma disputa temperamental de ambições pessoais, duas vezes decidida em solo egípcio. Cada convulsão estremecia o mundo mediterrâneo, que lutava para corrigir suas lealdades e redirigir seus tributos. Cleópatra tinha empenhado tudo com Pompeu, o Grande, o brilhante general romano sobre o qual a boa estrela parecia brilhar eternamente. Ele  tornou-se o patrono da família. E também entrou em guerra civil contra Júlio César, justamente quando, do outro lado do Mediterrâneo, Cleópatra subia ao trono; Júlio César levou-o a sofrer uma derrota esmagadora na Grécia central: no verão de 48 a.C. Pompeu fugiu para o Egipto, onde foi apunhalado e decapitado numa praia. Cleópatra tinha 21 anos. Não havia escolha senão tentar cair nas graças do novo senhor do mundo romano. Durante os anos seguintes, ela  empenhou-se em virar a implacável maré romana para o seu lado, mudando de patrono outra vez depois do assassinato de César, e acabando por ficar com o seu protegido, Marco António. À distância no tempo, o seu reino resume-se a uma moratória. A sua história estava essencialmente terminada antes de começar, embora ela, claro, não devesse pensar assim. Com a morte de Cleópatra, o Egipto  transformou-se numa província romana. Não conseguiu recuperar a sua autonomia até o século XX. 
Pode-se dizer algo de bom sobre uma mulher que teve relacionamentos com dois dos homens mais poderosos de seu tempo? Possivelmente sim, mas não numa época em que Roma controlava a narrativa. Cleópatra viu-se em um dos cruzamentos mais perigosos da história: o cruzamento entre mulheres e poder. Centenas de anos antes, Eurípides alertara que mulheres inteligentes eram perigosas. Um historiador romano ficou plenamente satisfeito ao descrever uma rainha judia como mera figura decorativa e, seis páginas depois, condená-la pela sua desmedida ambição e o seu amor indecente pela autoridade. Um poder mais desconcertante também se fazia sentir. Num contrato de casamento do século I a.C., uma noiva prometia ser fiel e afectuosa. E, então, jurava não colocar poções amorosas na comida ou na bebida do marido. Não se sabe se Cleópatra amava António ou César, mas sabemos que conseguiu que os dois fizessem o que ela queria. Do ponto de vista romano, ela "escravizou" ambos.
Para um romano, licenciosidade e ausência de lei eram propriedades gregas. Cleópatra era duplamente suspeita, primeiro por vir de uma cultura conhecida pelo seu "talento natural para a dissimulação", e depois pelo seu endereço alexandrino. Um romano não conseguia separar o exótico do erótico; Cleópatra era um ícone do Oriente oculto, alquímico, de sua terra sinuosa, sensual, tão perversa e original quanto aquele rio inacreditável. Os homens que entravam em contacto com ela pareciam perder a cabeça, ou, pelo menos, repensar as suas prioridades. 
A nossa visão fica ainda mais turva pelo facto de os romanos que contaram a história de Cleópatra conhecerem muito bem sua própria história antiga, que contamina repetidamente os seus relatos. Os autores clássicos fundiam relatos, reformavam velhas histórias. 
A história é escrita não apenas pela posteridade, mas também para a posteridade. As fontes mais abrangentes nunca conheceram Cleópatra. Plutarco nasceu 76 anos depois de sua morte. (Ele escreveu ao mesmo tempo que Mateus, Marcos, Lucas e João.) Apiano escreveu com um intervalo de mais de um século; Dio com mais de dois. A história de Cleópatra é diferente da história da maioria das mulheres, na medida em que os homens que a narraram, por razões que lhes eram próprias, acabaram por ampliar em vez de apagar o papel dela. A relação com Marco António foi a mais longa da sua vida, mas o relacionamento com o seu rival, Augusto, foi o mais duradouro. Ele iria derrotar António e Cleópatra. Para enfatizar a glória, ele enviou a Roma uma versão sensacionalista de uma rainha egípcia insaciável, traiçoeira, com sede de sangue, louca pelo poder. Ele ampliou Cleópatra a proporções hiperbólicas, de forma a fazer o mesmo com sua vitória — e também a remover do quadro o seu real inimigo, o ex-cunhado. O resultado é como uma vida de Napoleão escrita por britânicos no século XIX ou uma história dos Estados Unidos escrita no século XX por Mao Tsé-tung.
Não sobreviveu nenhum papiro de Alexandria. Quase nada das cidades antigas permanece acima do chão. Temos, talvez e no máximo, uma palavra escrita por Cleópatra. (Em 33 a.C., ela ou um escriba assinou um decreto real com a palavra grega ginesthoi, que significa "cumpra-se".) Os autores clássicos não davam importância a estatísticas e de vez em quando nem à lógica: os seus relatos contradizem uns aos outros e a eles mesmos. Apiano descuida os detalhes, Josefo é inútil com a cronologia. Dio prefere a retórica à exactidão. As lacunas são tão regulares que parecem deliberadas; existe algo que chega muito próximo de uma conspiração de silêncios. Como é possível que não se tenha nem um busto autêntico de Cleópatra, numa época de retratistas realistas e talentosos? As cartas de Cícero, dos primeiros meses de 44 a.C., quando César e Cleópatra estavam juntos em Roma, nunca foram publicadas. A história grega mais longa dessa época passa superficialmente pelo tumultuoso período em questão. É difícil dizer o que faz mais falta. Apiano promete mais sobre César e Cleópatra nos seus quatro livros sobre a história egípcia, que não sobreviveram. O relato de Tito Lívio termina um século antes de Cleópatra. Conhecemos em detalhes o trabalho de seu médico pessoal apenas por meio das referências de Plutarco. Mesmo Lucano interrompe o seu poema épico de maneira abrupta e irritante, deixando César preso no palácio de Cleópatra, no começo da Guerra Alexandrina. E, na ausência de factos, instala-se o mito, a praga da história.
Restaurar Cleópatra significa resgatar uns poucos factos e também remover o mito incrustado e a propaganda envelhecida. Ela era uma mulher grega cuja história ficou a cargo de homens cujo futuro estava em Roma, a maior parte deles funcionários do império. Os seus métodos históricos são pouco claros para nós. Eles raramente mencionam as suas fontes. Confiavam em grande parte na memória.  Cleópatra efectivamente matou os seus irmãos, mas Herodes matou os seus filhos. (Ele depois lamentou ser "o mais infeliz dos pais".) E, como nos lembra Plutarco, esse comportamento era axiomático entre soberanos. Cleópatra não era necessariamente bonita, mas a sua riqueza — assim como o seu palácio — deixava Roma de boca aberta. As coisas eram lidas de modos muitos diferentes de um lado e do outro do Mediterrâneo. As últimas décadas de pesquisas sobre mulheres da Antiguidade e do Egipto helénico iluminam substancialmente esse quadro. 
Wikipedia (Imagens)

Arquivo: Lawrence Alma-Tadema-Anthony e Cleopatra.JPG

Cleópatra e António - Lawrence Alma Tadema

File:1680 Gérard de Lairesse - Cleopatra.jpg

O Banquete de Cleópatra - Gérard de Lairesse


Arquivo: 1963 tela reboque Cleópatra (74) jpg.
Filme Cleópatra (1963)


Sem comentários:

Enviar um comentário