quinta-feira, 17 de setembro de 2015

No “comboio dourado” os nazis podem ter transportado prisioneiros judeus e não ouro



Foi em finais de Agosto que as autoridades polacas, em particular as de Walbrzych, no sul do país, deram início a uma mediática operação.
Seguindo as indicações de dois caçadores de tesouros que alegavam ter descoberto um comboio nazi, que desapareceu em 1945 nesta região da Silésia Inferior, e que transportaria 300 toneladas de ouro, uma quantidade indeterminada de pedras preciosas e obras de arte, assim como equipamento industrial, representantes do ministério da Cultura puseram-se em campo. As suas diligências envolvem já os serviços florestais da região, conhecida pelas suas montanhas e pela actividade mineira, o exército e diversos especialistas.
Severamente criticada por arqueólogos e outros investigadores, que acusam os dois caçadores de tesouros de fraude, a operação tem levado a diversas teorias sobre a localização desta composição blindada que pode vir a ser encontrada na zona montanhosa de Sowa, perto da cidade de Walbrzych e, acima de tudo, sobre a sua carga. A mais recente diz que, ao invés de um tesouro, transportaria prisioneiros de um campo de concentração nas proximidades.
“De momento é impossível verificar o que contém”, disse no início do mês o secretário de Estado da Cultura, Piotr Zuchowski, citado pela imprensa local. “Não sabemos o que há dentro do comboio, muito provavelmente equipamento militar, mas também é possível que contenha jóias, obras de arte e documentos de arquivo. […] O facto de estar blindado indica que pode ter uma carga especial.” Zuchowski não falou ainda na eventualidade de o comboio, que desapareceu há 70 anos, ter transportado judeus.
Túneis secretos
A carga que poderá ter levado – e que lhe vale o nome de “comboio dourado” ou de “comboio do ouro”  – tem alimentado páginas e páginas de jornais, mas os historiadores permanecem cépticos. É certo que, à medida que a Segunda Guerra se aproximava do fim, os nazis transportaram para a Alemanha muitas das riquezas de que se tinham apoderado nos territórios conquistados, entre elas obras de arte e jóias pertencentes a ricos empresários e industriais judeus, mas o que estará escondido nesta composição blindada permanecerá um mistério até que as escavações organizadas para a pôr a descoberto comecem a apresentar resultados.
E se, em vez de ouro e equipamento militar, o comboio tiver mesmo transportado prisioneiros judeus do campo de concentração de Gross-Rosen? Esta hipótese foi levantada por uma “fonte próxima da investigação” que prefere não revelar a sua identidade, em declarações ao tablóide britânicoDaily Mail. A mesma fonte defende que os prisioneiros que assim poderão ter desaparecido em 1945, quando o Exército Vermelho se aproximava de Walbrzych, terão muito provavelmente estado em contacto com outros judeus forçados a trabalhar no complexo e secreto sistema de túneis que os nazis terão começado a construir naquela região montanhosa da Silésia Inferior, e que ficaria conhecido como Projecto Riese.
“A ideia de que [o comboio] contém ouro e riquezas é cada vez menos credível entre os especialistas”, assegura a mesma fonte anónima. “Pelo contrário, acreditamos que pode conter cadáveres e armas. Se este for o caso, a escavação poderá ser extremamente perigosa para as pessoas que vivem na região.”
Não é a primeira vez que se alerta para o perigo que o comboio representa. Quando, no final de Agosto, as autoridades polacas fizeram as primeiras declarações sobre a eventual descoberta de uma composição blindada nazi, desaparecida em 1945, usaram como argumento para afastar as dezenas de caçadores de tesouros e curiosos que começavam a chegar à região vindos de toda a Europa a possibilidade de estar armadilhada. Na altura evocou-se o projecto nuclear nazi. Agora fala-se em armas químicas. Especulações e mais especulações.
O campo de Gross-Rosen
Os prisioneiros que poderão ter sido confinados àquele comboio pelos nazis que procuravam evitar que fossem descobertos pelo exército soviético ou as tropas aliadas, viriam, muito provavelmente, do campo de Gross-Rosen, um complexo com dezenas de estruturas-satélite onde terão morrido 40 mil homens e mulheres, e que fornecia mão-de-obra escrava à pedreira da cidade com o mesmo nome e a todo o tipo de indústrias e iniciativas alemãs na área, incluindo o Projecto Riese. Gross-Rosen, libertado pelo Exército Vermelho em Fevereiro de 1945, foi dirigido pelas temíveis SS, unidade militar de elite chefiada por Heinrich Himmler, um dos braços-direitos de Hitler, e por lá terão passado mais de 125 mil pessoas. A maioria dos prisioneiros judeus vinha da Polónia e da Hungria, e muitos seguiam depois para os campos de Dachau, Sachsenhausen e, mais tarde, Buchenwald, onde muitos acabavam por ser mortos.
Lembra o diário espanhol ABC que, em Janeiro de 1945, e com as tropas soviéticas a aproximarem-se a passos largos, os nazis obrigaram mais de 40 mil prisioneiros a caminhar centenas de quilómetros para Ocidente. O objectivo era integrá-los noutros campos de concentração, em territórios que estivessem ainda a salvo dos soldados de Estaline e dos outros Aliados. O III Reich queria evitar a todo custo que fossem interrogados e que a sua presença, por si só, testemunhasse as atrocidades cometidas pelos homens de Hitler. É por isso que há quem acredite que é possível que alguns destes prisioneiros tivessem sido transportados por caminho de ferro, num comboio que viria a ser escondido num dos túneis desactivados do Projecto Riese.
Tudo está, por agora, em aberto. Por ordem do Governo de Varsóvia os serviços florestais da região de Walbrzych estão já a trabalhar na desmatação da área onde se julga estar o comboio nazi. E isto sob o olhar atento dos militares deslocados para o local para proteger as escavações dos caçadores de tesouros e de outros curiosos. A confirmar-se a localização desta composição blindada, qualquer que seja a carga que guarda – armas, ouro ou cadáveres -, tratar-se-á de uma descoberta, no mínimo, “sensível”.
O polaco Piotr Koper e o alemão Andreas Liechter já defenderam na televisão a autenticidade da sua descoberta. Até ao início de Setembro a sua identidade estava ainda por revelar. Os dois caçadores de tesouros, que reclamam 10% de tudo o que vier a ser descoberto em virtude das indicações que derem às autoridades polacas, decidiram prescindir do anonimato quando muitos começaram a classificar as suas alegações como “fraudulentas”. Entre eles está, desde o início, Joanna Lamparska, autora de vários livros sobre os mistérios da Silésia Inferior, alguns deles ligados à Segunda Guerra. A investigadora baseia o seu cepticismo no facto de não haver qualquer registo da existência do comboio, algo estranho no III Reich, que documentava de forma exaustiva todas as suas actividades, incluindo os crimes.
Mais recentemente, o coronel Igor Prelin, citado pelo Mail online a partir de Moscovo, também manifestou as suas dúvidas quanto à existência de um tesouro e mesmo quanto à localização do comboio. Para este ex-KGB, que foi espião em várias cidades do Ocidente e que terá sido o “tutor” do Presidente russo Vladimir Putin, então um jovem operacional que chegava aos serviços secretos, é inconcebível que as tropas russas não tivessem identificado a composição – nem logo a seguir à guerra, quando o Exército Vermelho assumiu o controlo da Polónia, nem nas quatro décadas seguintes, em que as tropas soviéticas se mantiveram no terreno.
Com o acesso que os homens de Estaline tiveram aos arquivos nazis e às testemunhas da ocupação da Polónia, parece impossível que não tenha surgido qualquer referência a um comboio carregado de ouro e jóias, defende.
“O que sei é que o exército soviético esteve na Polónia até 1989-90 e que andou a pesquisar na área, fazendo escavações e vasculhando os arquivos. […] E logo a seguir à guerra muitas das testemunhas fundamentais estavam ainda vivas. É por isso que não consigo acreditar que o comboio não tenha sido descoberto muito mais cedo”, defendeu o veterano do KGB.
Os dois caçadores de tesouros tinham inicialmente alegado que dispunham de uma imagem de radar que, asseguravam, provava a existência da composição blindada no subsolo. Essa imagem foi posta em causa por diversos especialistas, entre eles o arqueólogo Tomasz Herbich, da Academia de Ciências de Varsóvia, que defendeu, sem reservas, que “de forma alguma” a referida imagem mostra o que está escondido no túnel.
O cepticismo levou mesmo uma organização não-governamental polaca a apresentar uma queixa junto do Ministério Público contra  o secretário de Estado da Cultura, responsável pelo Património, noticia o diário britânico The Guardian. A ONG acusa Piotr Zuchowski de ter feito “alegações infundadas” sobre a existência do comboio nazi, alegações que conduziram ao desperdício de fundos públicos “consideráveis” na deslocação de militares para garantirem a segurança da área onde deverão decorrer as escavações.

 Fonte: Público
Soldados inspeccionam a área onde o comboio poderá vir a ser encontrado

Prisioneiros do campo de concentração de Gross-Rosen
O campo nos anos 1940

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