quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Os 50 anos da Revolução Cultural Chinesa

A Grande Revolução Cultural Proletária, ou simplesmente a Revolução Cultural, que teve início em 1966 e terminou com a morte de Mao Tse Tung em 1976,  representa um dos acontecimentos marcantes da história chinesa contemporânea, com considerável repercussão internacional.

Em 1966, Mao decide lançar a Revolução Cultural a fim de consolidar o seu poder apoiando-se na população jovem. Desejava expurgar do Partido Comunista os seus elementos “revisionistas” e limitar o poder da burocracia. Os “Guardas Vermelhos”, grupo de jovens inspirados pelos princípios do Pequeno Livro Vermelho tornaram-se o braço activo dessa revolução.

Os intelectuais, assim como os quadros partidários, foram publicamente humilhados. Os tradicionais valores chineses e alguns valores ocidentais foram denunciados. Milhares de esculturas e templos budistas foram destruídos. Os “Guardas Vermelhos”  expressam-se politicamente pelos “dazibao”, cartazes afixados nos muros. A agitação permitiu a Mao retomar o controlo do Estado e do Partido, todavia, foi um alto preço, pois a Revolução Cultural foi responsável pela morte de milhares de pessoas.

O Grande Salto de 1958 custou o posto de presidente da China a Mao, e foi uma das consequências da política económica adoptada. O Congresso Nacional Popular elegeu então Liu Shao Shi como seu sucessor. Ainda que se mantivesse oficialmente no comando do Partido, Mao foi sendo paulatinamente afastado da gestão económica, que passou a ser confiada a uma elite mais moderada, dirigida essencialmente por Deng Xiao Ping, Liu Shao Shi e alguns outros.

Após o fracasso do Grande Salto, Liu Shao Shi decide em 1960, adoptar um programa mais moderado e realista para a recuperação económica. A maioria dos quadros do Partido recusam-se a apoiar Mao na sua tentativa de relançar o processo revolucionário por meio do Movimento de Educação Socialista entre 1962 e 1965. Esta oposição levou Mao a desencadear a Revolução Cultural.

Mao e Liu  posicionam-se em aberto confronto. Liu é acusado de “seguir a via capitalista” e perde posição na hierarquia do Partido em Agosto de 1966. Em Outubro teve de fazer a sua autocrítica. Em 1967 é expulso do Partido. Em Outubro de 1968 é deposto da presidência. Morre na prisão em 1969.

O pretexto para o desencadeamento da Revolução Cultural foi uma peça de teatro encenada em 1961: A Destituição de Hai Rui de Wu Han, historiador e vice-prefeito de Pequim. Uma crítica de Yao Wenyuan, publicada em Novembro de 1965 no diário Wenhuibao acusa a peça de fazer um ataque dissimulado a Mao. Críticas surgem acusando vários intelectuais conhecidos.

Em Maio de 1966 é constituído um “Grupo de Revolução Cultural do Comité Central”. São denunciados todos os “revisionistas presentes na cultura, na política e no exército. Em 29 de Maio de 1966, a primeira organização de Guardas Vermelhos surge no seio da Universidade Tsinghua. Eram jovens,  cujo objectivo era aplicar a revolução cultural, se necessário à força, atacando os intelectuais e os inimigos políticos de Mao. Os critérios de recrutamento podiam ser a boa conduta política ou origem social de “Cinco Espécies Vermelhas”: filho de camponês pobre, de operários, de mártires, de soldados e de quadros revolucionários. As hostes dos Guardas Vermelhos foram depois engrossadas pelos excluídos do Partido, pelos trabalhadores precários e oportunistas de hábito.

Em 8 de Agosto de 1966, o Comité Central emite um projecto de lei relativo às “decisões sobre a grande revolução cultural proletária” segundo o qual o governo se declara a favor de purgas no seio do partido e entre os intelectuais.

“A grande revolução cultural proletária visa liquidar a ideologia burguesa, a implantar a ideologia proletária, a transformar o homem no que tem de mais profundo, a extirpar as raízes do revisionismo, a consolidar e desenvolver o sistema socialista. Devemos abater os responsáveis do Partido engajados na via capitalista, abater as sumidades académicas reaccionárias da burguesia.  Devemos extirpar energicamente o pensamento, a cultura, os modos e os costumes antigos de todas as classes exploradoras".

Em 18 de Agosto de 1966, na praça Tian’anmen, Pequim, Mao e Lin Biao são aclamados por cerca de um milhão de Guardas Vermelhos vindos de todo o país. O movimento dissemina-se pelo país. Durante 3 anos, até 1969, os Guardas Vermelhos estenderam a sua influência e aceleraram os esforços tendo em vista a “reconstrução socialista”. Instalou-se progressivamente um clima de terror, invadiu-se ao acaso milhares de residências para encontrar “provas” comprometedoras de “desvios”. Diversos templos budistas foram destruídos ou danificados. Nas regiões muçulmanas do oeste, livros do Corão foram queimados em grandes autos-da-fé. Rasgar um cartaz de Mao era considerado sacrilégio. Pessoas suspeitas eram obrigadas a fazer autocrítica em público, “julgadas” e posteriormente enviadas aos campos de trabalho forçado.

Professores, artistas e intelectuais eram enviados para o campo para serem “reeducados” pelo trabalho manual.
A Revolução Cultural fez o país deslizar para o caos e  guerra civil quando Mao apela aos operários a tomar parte activa nos acontecimentos. Em 28 de Janeiro de 1967, confere ao exército a obrigação de proteger as fábricas e de socorrer os “verdadeiros revolucionários”. Durante o Inverno 1966-1967, Shangai conhece revoltas políticas e sociais. Trabalhadores das fábricas unem-se ao movimento de resistência e logo recebem o apoio de uma parte dos quadros do Partido e do exército e tomam o poder na cidade.

Mao indica em Setembro de 1967 que “nada de essencial divide a classe operária”. O exército intervém contra os rebeldes e os estudantes retornam às aulas no final de 1967.

Após a “contra-corrente do Inverno 1966-1967”, Mao dá novamente o seu apoio no começo de 1968 aos grupos revolucionários. A fim de evitar o esmagamento dos Guardas Vermelhos, milhares de operários são enviados à Universidade de Pequim para restabelecer a autoridade.

Durante o Inverno 1968-1969, diante da resistência generalizada, os Guardas Vermelhos desaparecem. Os seus líderes mais radicais são executados publicamente em Abril de 1968. O 9.º Congresso do Partido Comunista da China, reunido em 24 de Abril de 1969, ratifica as purgas e a reorganização do Partido.


Fontes: Opera Mundi
wikipedia (imagens)

Cultural Revolution poster.jpg
Cartaz de Propaganda da Revolução Cultural
“Guardas Vermelhos”

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