sábado, 17 de setembro de 2016

17 de Setembro de 1850: Nasce o escritor e diplomata português Guerra Junqueiro, em Freixo de Espada-à-Cinta

Poeta e político português, nascido em 1850, em Freixo de Espada à Cinta (Trás-os-Montes), e falecido em 1923, em Lisboa, Guerra Junqueiro é entre nós o mais vivo representante de um romantismo social panfletário, influenciado por Vítor Hugo e Voltaire. Oriundo de uma família de lavradores abastados, tradicionalista e clerical, é destinado à vida eclesiástica, chegando a frequentar o curso de Teologia entre 1866 e 1868. Licenciou-se em Direito em Coimbra, em 1873, durante um período que coincidiu com o movimento de agitação ideológica em que eclodiu a Questão Coimbrã. Nessa cidade convive de perto com o poeta João Penha, em cuja revista literária, A Folha, faz a sua estreia literária. Durante a sua vida, combina as carreiras administrativa (exercendo a função de secretário dos governos civis de Angra do Heroísmo e de Viana do Castelo) e política (sendo eleito por mais de uma vez deputado pelo partido progressista) com a lavoura nas suas terras de Barca de Alva, no Douro. Nos anos oitenta, participa nas reuniões dos Vencidos da Vida, juntamente com Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Eça de Queirós e António Cândido, entre outros. Reage ao Ultimato inglês de 1890, com o livro de poesias Finis Patriae, altura em que se afasta ideologicamente de Oliveira Martins, confiando na República como solução para os males da sociedade portuguesa. Entre 1911 e 1914, assume o cargo de Ministro de Portugal na Suíça. Na fase final da sua vida, retira-se para a sua propriedade no Douro, assinalando-se então uma viragem na sua orientação poética, que se volta para a terra e para "os simples", como atestam as suas últimas obras: Pátria (1896), ainda satírica, mas de inspiração saudosista e panteísta; Os Simples (1892) - um hino de louvor à terra, de uma poesia que evoca a sua infância, impregnada de saudosismo, de recordações calmas e consoladoras e onde se sente uma grande ternura pela correspondente paisagem social; Oração ao Pão (1903) e Oração à Luz (1904), estas enveredando por trilhos metafísicos.
O anticlericalismo, que em vida lhe granjeou o escândalo e a fama, o estilo arrebatado, vibrante, apoiado na formulação épica do verso alexandrino de influência huguana, contribuíram para a apreciação do crítico Moniz Barreto: "Quando se procura a fórmula do espírito de Guerra Junqueiro acha-se que ele é muito mais orador que poeta e que tem muito mais eloquência que imaginação."
Poeta panfletário, confidencial, satírico e também religioso, o seu valor foi contestado na década de 20. No entanto, os seus defensores nunca deixaram de acreditar na sua genialidade como satírico e como lírico.

Fontes: Guerra Junqueiro. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. 
BNP
wikipedia (imagens)

Guerra Junqueiro
Grupo do Cenáculo Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro
Grupo dos Cinco, Porto, Phot. União, 1884
Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Guerra Junqueiro



Recordam-se Vocês do Bom Tempo d'Outrora
(Dedicatória de introdução a «A Musa em Férias») 

Recordam-se vocês do bom tempo d'outrora, 
Dum tempo que passou e que não volta mais, 
Quando íamos a rir pela existência fora 
Alegres como em Junho os bandos dos pardais? 
C'roava-nos a fronte um diadema d'aurora, 
E o nosso coração vestido de esplendor 
Era um divino Abril radiante, onde as abelhas 
Vinham sugar o mel na balsâmina em flor. 
Que doiradas canções nossas bocas vermelhas 
Não lançaram então perdidas pelo ar!... 
Mil quimeras de glória e mil sonhos dispersos, 
       Canções feitas sem versos, 
E que nós nunca mais havemos de cantar! 
Nunca mais! nunca mais! Os sonhos e as esp'ranças 
São áureos colibris das regiões da alvorada, 
Que buscam para ninho os peitos das crianças. 
E quando a neve cai já sobre a nossa estrada, 
E quando o Inverno chega à nossa alma,então 
Os pobres colibris, coitados, sentem frio, 
E deixam-nos a nós o coração vazio, 
Para fazer o ninho em outro coração. 
Meus amigos, a vida é um Sol que chega ao cúmulo 
Quando cantam em nós essas canções celestes; 
A sua aurora é o berço, e o seu ocaso é o túmulo 
Ergue-se entre os rosais e expira entre os ciprestes. 
Por isso, quando o Sol da vida já declina, 
Mostrando-nos ao longe as sombras do poente, 
É-nos doce parar na encosta da colina 
E volver para trás o nosso olhar plangente, 
Para trás, para trás, para os tempos remotos 
Tão cheios de canções, tão cheios de embriaguez, 
Porque, ai! a juventude é como a flor do lótus, 
Que em cem anos floresce apenas uma vez. 

E como o noivo triste a quem morreu a amante, 
E que ao sepulcro vai com suas mãos piedosas 
Sobre um amor eterno — o amor dum só instante — 
Deixar uma saudade e uma c'roa de rosas; 
Assim, amigos meus, eu vou sobre um tesouro, 
Sobre o estreito caixão, pequenino, infantil, 
Da nossa mocidade, — a cotovia d'ouro 
Que nasceu e morreu numa manhã d'Abril! — 
Desprender, desfolhar estas canções sem nexo, 
Estas pobres canções, tão simples, tão banais, 
Mas onde existe ainda um pálido reflexo 
Do tempo que passou, e que não volta mais. 

Guerra Junqueiro, in 'A Musa em Férias'



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