sexta-feira, 23 de setembro de 2016

23 de Setembro de 1862: Bismarck é nomeado governante da Prússia e inicia a unificação alemã

No dia 23 de Setembro de 1862, o rei da Prússia, Guilherme I, afrontado por uma grave crise política, nomeia chefe do seu governo um homem de pulso, o conde Otto von Bismarck.
Os jornais liberais de Berlim só lhe davam poucos meses no poder. No entanto, iria governar o conjunto da Alemanha durante 28 anos e mudar a correlação de forças na cena europeia.
Principal Estado da Alemanha do Norte, a Prússia tinha aprovado uma constituição e formado um regime relativamente liberal em 1848, sob o reinado de Frederico-Guilherme IV da dinastia Hohenzollem. Afectado de demência em 1858, teve de confiar a regência ao seu irmão mais novo, Frederico Guilherme, já com 60 anos, quem destitui o presidente do Conselho, Otto von Manteuffel, e tenta pôr fim às intrigas que paralisavam a acção governamental.
Pretendia também reforçar o seu exército, cuja inoperância ficara demonstrada aquando das crises europeias de 1848, 1852 e 1859. A partir dos anos 1860, o regente prepara, apoiado pelo chefe do Estado-Maior Helmut von Moltke e pelo ministro da Guerra Albert von Roon, uma nova lei militar. Tratava-se de poder mobilizar 500 mil homens em caso de guerra em vez de apenas 150 mil.
Em 2 de Janeiro de 1861, com a morte do seu irmão, o regente sobe ao trono com o nome de Guilherme I. Empenha-se no seu projecto de lei militar porém encontra ferrenha oposição dos liberais que forçam a convocação de eleições legislativas para Março de  1862. Os liberais denunciavam o custo do projecto – 4 milhões de thalers suplementares por ano – o que punha em risco o desenvolvimento económico e privava a indústria de preciosa mão-de-obra.
O rei ameaça abdicar. Von Roon  assusta-se com a perspectiva de que isto levaria ao trono o seu filho, que tinha a reputação de ser um liberal convicto. O ministro sugere então ao soberano o nome de Bismarck. O rei traz à baila o temperamento ardente do indicado e as suas convicções.  Bismarck passou anos acreditando poder ascender ao governo como Ministro das Relações Exteriores e mesmo como chefe de governo com o apoio de seu amigo von Roon. Todavia, o rei afastava a ideia por incompatibilidade de carácter com o impetuoso personagem.
Em 16 de Setembro de 1862, Bismarck recebe em Paris do seu ministro do Exterior Bernstorff um telegrama cifrado informando que o rei esperava-o com urgência em Berlim. Na manhã de 22 de Setembro é introduzido no gabinete do monarca no castelo de Babelsberg, perto de Potsdam. 

O rei  mostra-lhe o acto de abdicação sobre a mesa e  diz-lhe : “Não quero mais reinar se não puder fazê-lo assumindo a responsabilidade diante de Deus, segundo minha consciência e diante de meus súbditos. Não encontro nenhum ministro disposto a dirigir o meu governo. Eis porque resolvi abdicar”.
A que Bismarck responde: “Desde Maio manifestei-me pronto – Vossa Majestade sabe – a assumir a responsabilidade do poder”.
- O senhor está disposto a sustentar os projectos militares sem modificá-los ? 
- Sim, Majestade.
- Sob que condições ?
- Nenhuma.
- É meu dever, então, prosseguir em minha luta com o senhor. Por conseguinte, não abdico.
O conde Otto von Bismarck, 47 anos, é nomeado ministro de Estado e ministro-presidente, outrora intitulado chefe de governo.
Até à morte em 1888, Guilherme I iria manter a sua confiança malgrado a incompatibilidade de génio e as acaloradas discussões entre os dois. Uma semana após a nomeação, em 30 de Setembro de 1862, Bismarck manifestaria publicamente a sua férrea vontade de unificar a Alemanha em torno da Prússia. Ao assistir a uma sessão parlamentar, pediu cortesmente a palavra para em seguida exclamar: “A Alemanha não está interessada no liberalismo da Prússia e sim na sua força (...) Após os tratados de Viena, as nossas fronteiras não se mostram favoráveis ao desenvolvimento do nosso Estado. Não serão os discursos e os votos da maioria que irão resolver as grandes questões de nossa época, como em 1848 chegamos a acreditar. Essas questões serão resolvidas sim a ferro e fogo”.


As palavras tiveram enorme repercussão e indicavam que o país caminharia para a militarização e a guerra. Bismarck percebe que tinha ido longe demais e, às pressas, vai ao encontro do rei. Após uma acesa discussão, a primeira de uma longa série, o monarca  deixa-se convencer pelos argumentos do seu ministro, que ganha carta branca para conduzir os seus projectos : reforma militar, guerra contra a Áustria e depois contra a França, acompanhadas do cumprimento de um sonho, a unificação da Alemanha em torno da monarquia prussiana.
Fontes: Opera Mundi
wikipedia (imagens)
Bismarck, Roon (centro) e Moltke (direita), os três líderes da Prússia
Otto von Bismarck

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