domingo, 2 de outubro de 2016

02 de Outubro de 1925: Nasce o escritor José Cardoso Pires

Escritor português, José Augusto Neves Cardoso Pires nasceu a 2 de outubro de 1925, no concelho deVila de Rei, em Castelo Branco, e morreu a 26 de outubro de 1998, em Lisboa. Filho de um oficial da marinha, ainda criança mudou-se com os pais para Lisboa, cidade que abraçou e amou. Depois de concluir os estudos secundários no liceu Camões, ingressou no curso de Matemáticas Superiores da Faculdade de Ciências de Lisboa. Durante a vida académica, exerceu várias profissões e conviveu com alguns dos intelectuais e artistas que integraram a segunda geração surrealista, como Luís Pacheco, Cesariny ou Vespeira, colaborando simultaneamente com algumas publicações, como a revista Afinidades e O Globo. Em 1945, abandonou os estudos para se alistar na marinha mercante, vindo a exercer, depois de concluir o serviço militar, várias profissões, desde comercial a intérprete, correspondente e redator, tradutor, diretor editorial e até copywriter numa agência publicitária. Foi, entre 1969 e 1971, docente de Literatura Portuguesa e Brasileira na Universidade de Londres. Colaborou em várias publicações periódicas, como Vértice, Gazeta Musical e de Todas as Artes (em cuja reestruturação colaborou, na segunda série, com João José Cochofel) ou Diário de Lisboa. Parte do seu trabalho cronístico, publicado no Diário Popular, foi reunido em Os Lugares Comuns. Representou, por diversas vezes, Portugal em eventos culturais e literários internacionais; participou e promoveu atividades de resistência cultural à repressão (constituição do núcleo português da Association Internationale pour la Liberté de la Culture; fundação do suplemento cultural "& Etc", do Jornal do Fundão).
José Cardoso Pires estreou-se na ficção, em 1949, com Caminheiros e Outros Contos, a que se seguiriam os contos Histórias de Amor, em 1952 - ambos apreendidos pela censura, estando o segundo na origem da sua primeira detenção -, num momento em que o neorrealismo, nas polémicas contra o presencismo, se tinha afirmado no panorama da literatura nacional, encetando, com a entrada na década de 50, uma fase de revisão, com inerente polémica interna, dos seus princípios estéticos. A coexistência com outras tendências literárias e um novo contexto histórico nacional e internacional (pós-Segunda Guerra Mundial, guerra fria; isolamento e reforço dos sistemas de repressão, a nível nacional, etc.) condicionam, então, os modos de afirmação do que, em termos de história literária, se poderia designar como uma segunda geração neorrealista, que contraporá à euforia e utopia do escritores de 40 um sentimento generalizado de desencanto e angústia que "pouco se compadece com a crença em futuros utópicos" (cf. MARTINHO, Fernando J. B. - Tendências Dominantes da Poesia Portuguesa da Década de 50, Lisboa, 1996, p. 314). Não abdicando de uma atitude combativa, que marcou ainda a sua intervenção cívica, José Cardoso Pires apresenta-se na novelística como um dos melhores modelos desse repensar de princípios e técnicas narrativas, abertura de temas e processos, que marcaram uma inflexão na carreira de alguns autores afirmados nos anos 40, no âmbito de uma literatura empenhada. Dando, desde os seus primeiros volumes, a imagem precisa de Portugal como um "lugar de infelicidade e solidão" (cf. Tabucchi, prefácio a O Anjo Ancorado, Lisboa, Dom Quixote, 1990, p. 7), país enclausurado e marcado, a nível político, pelo regime salazarista descrito na sua fase de absurda persistência, e a nível mental pela consciência de que a revolução, sendo inevitável, eclodiria tarde de mais, "nasceria, por assim dizer, exausta" (cf. LOURENÇO, Eduardo - O Canto do Signo, Lisboa, Presença, 1994, p. 293), José Cardoso Pires reequaciona a relação entre literatura e real do romance tradicional através de várias estratégias, uma delas, patenteada em O Anjo Ancorado, correspondendo a uma escrita que, partindo de um efeito de real, se institui como "ilusão de translucidez" (LEPECKI, Maria Lúcia - Ideologia e Imaginário - Ensaio sobre José Cardoso Pires, Lisboa, Moraes, 1977, p. 339), de "imediata apreensibilidade" (id. ibi., p. 30), quer ao nível da transparência da linguagem (coloquial, substantiva, períodos curtos, redução de recursos estilísticos), quer ao nível da construção da narrativa, pela redução do número de personagens e pela descomplexificação da intriga. Tendendo para uma maior visualização, o seu aspeto de fábula, de que O Anjo Ancorado é um paradigma, aponta para uma duplicidade de leituras jogada ambiguamente no cruzamento de pontos de vista internos e, sobretudo, na capacidade de operar uma "clandestinização de um certo nível do contado" (id., ibi., p. 102). Focalizando "uma sociedade de classes em processo de transformação por força da consciência e da capacidade de luta do explorado" (id. ibi., p. 148), em romances como O Delfim ou A Balada da Praia dos Cães, a estratégia de construção da narrativa, absorvendo traços do romance policial, problematiza os modos de acesso à realidade pela apresentação de várias versões sobre uma verdade inatingível na sua totalidade, dado o seu intrínseco carácter plural. Sendo, depois de Eça de Queirós, um dos romancistas portugueses que com mais finura usaram a ironia e o humor enquanto instrumentos eficazes de crítica social e, por conseguinte, de afirmação de determinada postura ideológica, a obra de José Cardoso Pires, ainda pelo seu carácter, a um tempo, rigorosamente documentado e despojado; pela riqueza expressiva patenteada na capacidade de introduzir na escrita, de forma natural, vários registos de língua e até gírias; pela apreensão de certos tipos sociais (sobretudo aqueles que integravam a realidade histórica portuguesa do salazarismo), seres moldados complexamente através do uso do monólogo interior, e nunca transformados em títeres; traços a que acresce, como marcas de modernidade, a interseção de espaços e tempos, conferem a José Cardoso Pires o estatuto de um dos mais importantes romancistas do século XX.
O autor e a sua obra foram galardoados várias vezes, entre os quais se destacam o Prémio Camilo Castelo Branco (O Hóspede de Job, 1964), o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (A Balada da Praia dos Cães, romance que viria, em 1987, a dar origem a um filme realizado por José Fonseca e Costa), o Prémio Especial da Associação de Críticos do Brasil (Alexandra Alpha), os Prémios D. Dinis e da Crítica (De Profundis, Valsa Lenta, obra publicada em 1997, após o autor ter recuperado de um acidente vascular cerebral). Recebeu também o Prémio Internacional União Latina (1991), o Astrolábio de Ouro do Prémio Internacional Último Novecento (1992) e o Prémio Pessoa (1997).
Em 1998 sofreu outro acidente vascular cerebral, que viria a ser a causa da sua morte. Em setembro desse mesmo ano, pouco antes do seu falecimento, tinha-lhe sido atribuído o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores.
Foi autor de contos, romances, crónicas e ensaios (como em E Agora José?, 1977) e de peças de teatro (como O render dos Heróis (1960) e O Corpo Delito na Sala de Espelhos, 1980).
José Cardoso Pires. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
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