segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

30 de Janeiro de 1574: Morre Damião de Góis, uma das figuras mais proeminentes do Humanismo português

Damião de Góis entrou na corte aos 10 anos, graças à influência de seu pai, fidalgo da casa do Duque de Viseu D. Fernando. Aí foi educado até 1521, exercendo o cargo de "moço de câmara" e beneficiando de uma pensão. Em 1523, foi nomeado para a feitoria de Flandres, em Antuérpia, onde ocupou os cargos de escrivão e secretário. Esse mesmo valimento fez que lhe fossem atribuídas importantes missões na Holanda e nos países bálticos, com as quais passou a cumprir um destino de grande itinerante por mais de vinte anos. Nestas viagens teve a oportunidade de conviver com os maiores humanistas do seu tempo como Lutero, Alberto Dürer, que lhe pintou o retrato, Erasmo e Melanchthon, e de frequentar a Universidade de Pádua durante quatro anos. Nesta estadia em Itália tratou intimamente com os cardeais Bembo e Sadoletto, dele esperando este último que a sua influência particular junto dos chefes protestantes promovesse uma reconciliação com o catolicismo.
Apesar de ter recusado o lugar de tesoureiro da Casa da Índia que o rei D. João III lhe ofereceu, viu-se obrigado, em 1545, perante as insistências do rei, a regressar a Portugal e ocupar o cargo de guarda-mor da Torre do Tombo em 1548. Foi então incumbido, em 1558, de escrever a Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel, que faltava no conjunto dedicado aos reis de Portugal. Anos antes tinha escrito a Crónica do Príncipe D. João.
As críticas que teceu na sua historiografia erudita e ensaística a questões como a expulsão dos judeus, a matança dos cristãos-novos e a expansão portuguesa e as referências desfavoráveis que fez a tantos protagonistas do drama, que foi o reinado do Príncipe Perfeito, acabaram por ferir suscetibilidades e instaurar-lhe um processo inquisitorial pelo Santo Ofício. Sem a protecção do cardeal-regente, foi preso, no dia 4 de Abril de 1571. Damião de Góis entrou para o cárcere já condenado e os Inquisidores apenas tiveram de se preocupar em encontrar o maior número possível de testemunhas que o denunciassem. Damião de Góis, por seu lado, defendeu-se como pôde e possivelmente juntou uma ou outra invenção que não pudesse ser verificada e lhe servisse de ajuda. Infelizmente para ele, houve acusadores da sua própria casa, pois os Inquisidores, certamente bem informados de problemas entre ambos, convocaram para depor seu genro Luís de Castro que, sem referir factos concretos, disse que seu sogro tinha simpatia pela seita dos luteranos. Sua esposa, Catarina, tinha na altura, 21 anos, e foi interrogada de factos ocorridos quando tinha 8 ou 9 anos.
A Inquisição tinha por missão uma tarefa que é uma autêntica impossibilidade: fazer prova da crença das pessoas. Ora, o pensamento é livre por natureza, embora na altura se dissesse que o pensamento não era livre em matéria de religião. Era uma instituição perversa por natureza.
Em 16 de Dezembro de 1572, deu Damião de Góis entrada no Mosteiro da Batalha para cumprir a sua pena – prisão perpétua. É possível que, passado não muito tempo, a pena lhe tenha sido perdoada, porque ele acabou por falecer na sua casa em Alenquer em 30 de Janeiro de 1574, ignorando-se a causa da morte. Com alguma plausibilidade, teria tido uma apoplexia que o vitimou numa noite quando se aquecia ao lume, tendo aparecido parcialmente queimado na manhã seguinte.Alguns autores referem suspeitas de assassinato. Foi sepultado na igreja de Santa Maria da Várzea, da mesma vila, que mandara restaurar em 1560.
Além das crónicas já referidas, Damião de Góis escreveu ainda várias obras em latim, compiladas no volume Opuscula, impressos em Lovaina e reimpressos em Coimbra, em 1791, na Colecção das obras de autores clássicos portugueses que escreveram em latim, sobre temas históricos e geográficos, incluindo descrições da vida dos povos da Lapónia ou da Abissínia, por exemplo. Foi ainda músico e tradutor.
Coleccionador de espécies greco-romanas, musicólogo, diplomata e historiógrafo, Damião de Góis é uma das figuras mais proeminentes do Humanismo português pelo contacto que proporcionou entre Portugal e os grandes nomes da época.

Damião de Góis. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
wikipedia (Imagem)




 Ficheiro:Damian de gois.jpg
Damião de Góis em desenho de DürerGaleria Albertina, Viena
Urbis Olisiponis descriptio (1554)

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