terça-feira, 14 de março de 2017

14 de Março de 1937: Pio XI condena o nazismo em Carta Encíclica

Em 14 de Março de 1937, o Papa Pio XI publicou uma Carta Encíclica intitulada “Mit Brennender Sorge” (“Com profunda preocupação”),em que condenava o nacional-socialismo alemão e a sua ideologia racista. Esta havia sido a primeira crítica oficial ao nazismo feita por um chefe de Estado e contem um ataque a Adolf Hitler, referindo-se a ele como "profeta louco de arrogância repulsiva". É um dos dois únicos documentos da Santa Sé escritos em língua diferente do latim ou grego, juntamente com a Encíclica “Non Abbiamo Bisogno” (1931), que criticava o fascismo italiano.
Como a mensagem era destinada especificamente ao povo germânico, Pio XI optou por redigir a Encíclica em alemão. Pronta, foi enviada clandestinamente para a Alemanha e então reproduzida por membros da Igreja Católica. Cópias foram distribuídas aos bispos, padres e capelães para serem lidas em todas as paróquias alemãs no dia 21 de Março, durante a missa de Domingo de Ramos, quando a presença de fiéis costuma ser a maior do ano litúrgico.
A Encíclica atacava o racismo e o “Führer”  com uma agressividade raramente vista em documentos papais. Numa época em que Hitler ainda gozava de prestígio junto à opinião pública internacional, a carta surpreendeu pelo tom firme. Foi alvo de críticas da imprensa secular francesa, que ainda defendia uma coexistência pacífica com a Alemanha.
“Mit Brennender Sorge”, que condenava os erros do nazismo e a sua ideologia racista e pagã, falava de "direitos humanos inalienáveis dados por Deus" e invoca uma "natureza humana" que passa por cima de barreiras nacionais e raciais.
Apesar de ainda não se saber à época a extensão real da perseguição contra os judeus, o pontífice também condenou o antissemitismo, reafirmando que a doutrina católica pune com a excomunhão quem promove perseguições contra judeus por motivos raciais ou religiosos. 
Ao dirigir-se aos religiosos católicos da Alemanha, a Encíclica dizia: "A todos aqueles que conservaram a fidelidade prometida na ordenação, àqueles que, no cumprimento do seu ofício pastoral, tiveram e têm de suportar dores e perseguições - alguns até serem encarcerados ou mandados para campos de concentração -, a todos estes chegue a expressão da gratidão e o encómio do Pai da Cristandade”.
A leitura da carta nas missas do domingo de Ramos em todos os templos católicos alemães, que eram então mais de 11 mil, constituiu-se numa enorme surpresa para os fiéis, as autoridades e a polícia. O seu impacto entre as elites dirigentes alemãs foi contundente. Em toda a curta história do Terceiro Reich, nunca tinha havido uma contestação tão ampla e com a repercussão que se aproximasse sequer da produzida com a “Mit Brennender Sorge”.
No entanto, o controlo rígido que Hitler exercia sobre a imprensa e a falta de liberdade de circulação de informações impediu que o impacto fosse ainda maior entre as massas, sendo o seu conteúdo censurado e respondido com uma forte campanha publicitária anticlerical. No dia seguinte à leitura nos púlpitos, todas as paróquias e escritórios das dioceses alemãs foram visitados por oficias da Gestapo, que apreenderam as cópias do documento.
Como era de se esperar, no mesmo dia o órgão oficial nazi, Völkischer Beobachter, publicou uma primeira resposta à Encíclica, mas foi também a última. O ministro alemão da propaganda, Joseph Goebbels, foi suficientemente perspicaz para perceber a força que havia tido a declaração. Com o controle total da imprensa e da rádio, entendeu que o mais conveniente era ignorá-la completamente e censurar tanto o seu conteúdo como quaisquer referências a ele.
Após a leitura e publicação da carta, as perseguições anticatólicas tiveram lugar, e as relações diplomáticas entre Berlim e Vaticano ficaram abaladas. Em Maio de 1937, 1100 padres e religiosos foram lançados nas prisões do Reich. No ano seguinte, 304 sacerdotes católicos foram transferidos para o campo de concentração de Dachau. Paralelamente, as organizações católicas foram dissolvidas e as escolas confessionais, interditadas.  Até à queda do nazismo, cerca de 11 mil sacerdotes católicos - quase metade do clero alemão dessa época -  "foram atingidos por medidas punitivas, política ou religiosamente motivadas".
Fontes: Opera Mundi
wikipedia (imagens)
Ficheiro:Pius XI after Coronation.jpg
Papa Pio XI

 File:Mit brennender Sorge Speyer JS.jpg
Cópia da Carta Encíclica de 1937 - escrita em alemão

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