terça-feira, 16 de maio de 2017

16 de Maio de 1834: Guerra Civil, a Batalha de Asseiceira garante a vitória às forças liberais de D. Pedro IV

A batalha da Asseiceira travou-se na povoação de Asseiceira, perto de Tomar, a 16 de Maio de 1834. Fez parte das guerras civis entre liberais e miguelistas, onde estes últimos foram derrotados. Além de mortos e feridos em grande número, os absolutistas deixaram 1400 prisioneiros nas mãos dos liberais. D. Pedro, que abdicara da coroa brasileira em 1831, chegou à Terceira em 1832, proclamando-se aí regente do reino. Apesar da inferioridade de forças, as forças liberais seguiriam para o continente e, apesar de praticamente derrotadas com o Cerco do Porto de 1833, “contra-atacaram” em várias localidades do país: o Duque de Terceira e o Almirante Napier tomaram o Algarve; Saldanha ocupou o Porto e, partindo para sul, conquistou Leiria, Torres Novas e Pernes; Sá da Bandeira tentou apoderar-se do Baixo Alentejo, o Duque de Terceira, dominaria sucessivamente Trás-os-Montes, as Beiras e Coimbra, vindo a alcançar o seu maior triunfo na decisiva e difícil Batalha da Asseiceira, em 16 de Maio, onde desbaratou e pôs em fuga as tropas realistas e abriu caminho para a aproximação de Santarém e para a subsequente ocupação da cidade. Esta batalha pôs termo ao reinado de D. Miguel, obrigado a recolher-se a Évora Monte, onde foi assinada a paz e de onde o monarca partiu para o exílio.

Porque perdeu D. Miguel a batalha da Asseiceira?

(Artigo do Expresso)

Os dois exércitos partem para a batalha da Asseiceira em situações opostas. Os liberais tinham conseguido deslocar o eixo da guerra, do Porto (cercado desde 20 de Julho de 1832) para o Algarve (24 de Junho de 1833) e conseguido a supremacia naval na batalha do Cabo de São Vicente (5 de Julho de 1833).

Entraram em Lisboa (24 de Julho de 1833) e repeliram o contra-ataque à capital, dirigido pelo marechal Bourmont (Outubro de 1833). Avançaram pelo Ribatejo, vencendo os miguelistas em Pernes (30 de Janeiro de 1834) e Almoster (18 de Fevereiro).

Ambiente de traição

Em Almoster, o comandante da cavalaria miguelista tinha-a conduzido a uma armadilha e feito aprisionar os seus soldados antes da batalha sendo, depois, recompensado pelo comando liberal.
Em Braga, o oficial responsável pelas comunicações do exército de D. Miguel bandeara-se para o campo contrário, levando os códigos do telégrafo.
Daí em diante as comunicações eram interceptadas e decifradas, dando vantagem aos partidários de D. Pedro e aos seus comandantes, os duques de Saldanha e da Terceira.
Do lado miguelista consegue-se, ainda assim, pôr de pé, a 15 de Maio, uma força de 6.000 homens, apoiada por cavalaria e artilharia que estabelece uma posição defensiva de 2,5 km de frente, a sul de Tomar, tirando partido das colinas da Asseiceira (perto do actual nó de Tomar da A23).
O exército liberal, estabelecido em Tomar, avança para sul, a 16 de Maio, ao nascer do sol. A guarda-avançada miguelista retarda o avanço contrário sobre Santa Cita até às nove da manhã, altura em que os liberais conquistam a aldeia e formam em três colunas para conquistarem as elevações guarnecidas pela artilharia contrária.
O fogo da artilharia e das armas ligeiras enche o vale de fumo e reduz a visibilidade. António Ventura citou o testemunho de um combatente segundo o qual "parecia que a própria charneca estava a arder". É o momento em que um golpe de audácia pode resolver uma batalha indecisa. O general miguelista Guedes de Oliveira manda avançar a cavalaria.

Cavalgada heróica


Esta era comandada pelo oficial francês Puisseux, um homem alto, de uma coragem lendária e com a cara traçada por uma cicatriz, recebida em Santo Tirso. Invectiva os seus 250 cavaleiros - em mau português, como contou o conferencista - e comanda uma carga que obriga a infantaria liberal a retroceder, até porque os Lanceiros da Rainha recuam, também.
A vitória parece certa mas, ao chegarem ao alto de uma colina, deparam, lá em baixo, com os soldados do coronel Vicente Queirós, um dos melhores operacionais de D. Pedro. Estas forças de reserva não fogem, formam em linha e disparam sucessivas salvas.


Pussieux é mortalmente ferido. Nem sempre a morte do comandante que lidera um ataque desmoraliza as tropas mas neste caso, o ímpeto estava definitivamente quebrado e a iniciativa voltava a pertencer aos liberais.

Retirada para Évora

A partir daqui o exército de D. Miguel retira sobre Évora. Recebe reforços importantes vindos do Algarve e Alentejo (parcialmente dominados pelos absolutistas nas zonas rurais) e junta 10.000 homens. Sendo Évora indefensável, tem duas hipóteses: retirar para as fortificações de Elvas, cuja guarnição lhe continua fiel, ou, como escreverá mais tarde nas suas memórias Charles Napier, o almirante britânico ao serviço dos liberais, ter a audácia de avançar sobre Madrid e juntar-se às forças carlistas espanholas que, desde Outubro de 1833, se tinham rebelado contra o governo liberal.
De resto, o pretendente absolutista ao trono espanhol, o auto-proclamado Carlos V, estará em Portugal até à derrota de D. Miguel.Mas, como referiu António Ventura, os generais miguelistas vão puxar o tapete ao rei e "negociar a paz nas suas costas". Em "A Brasileira de Prazins", Camilo Castelo Branco descreverá, mais tarde, um diálogo entre dois partidários de D. Miguel: "o rei deve saber o que lhe valeram o Bourmont e o Pussieux e o MacDonnell, no fim da campanha. Sabes tu? - rematou o morgado - aqui anda marosca..."
Em Espanha a guerra civil vai prosseguir até 1839 com um resultado final idêntico ao português mas num cenário simétrico: o governo central e o exército eram liberais, enquanto os absolutistas dominavam o campo e tiveram que formar um exército a partir de milícias "e de oficiais carlistas saneados".

Guerra continua em Espanha

Muitos dos estrangeiros que tinham lutado em Portugal vão, agora, combater em Espanha, uns ao serviço de liberais, outros dos absolutistas. Uma divisão portuguesa combaterá ao lado dos liberais espanhóis, retribuindo o apoio militar prestado em 1834, quando tropas espanholas tinham entrado por Almeida e pelo Alentejo para pressionar D. Miguel.
Os franceses, quase todos realistas, combatem nos dois campos: durante o cerco do Porto, os liberais chegaram a ser comandados por Solignac e os miguelistas por Bourmont.
Sendo os governos francês e britânico da época partidários da monarquia constitucional e tendo assinado a Quádrupla Aliança com os liberais portugueses e espanhóis, o apoio internacional a esta causa estava garantido.
As leis francesas e inglesas proibiam o envolvimento de oficiais em conflitos estrangeiros, razão pela qual muitos dos envolvidos, como por exemplo Napier, usaram pseudónimos.
A diferença é que os franceses que lutavam no campo absolutista arriscavam sanções mais pesadas, por estarem a contrariar a política peninsular dos respectivos governos.
Fontes: Expresso
Batalha de Asseiceira. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
Ficheiro:Liberal Wars.jpg
Caricatura representando D. Pedro  e D. Miguel  a disputar  a coroa portuguesa, por Honoré Daumier1833

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