Carta de Pero
Vaz de Caminha, escrita a D. Manuel I, datada de 1 de Maio de 1500, por altura
da descoberta do Brasil pelo navegador Pedro Álvares
Cabral.
Escrivão da
frota de Pedro Álvares Cabral, Caminha redigiu a carta para o rei D. Manuel I a
comunicar-lhe a descoberta das novas terras. Datada de Porto Seguro, do dia 1 de
Maio de 1500, Gaspar de Lemos, comandante do navio de mantimentos da frota,
trouxe-a para Portugal.
Em 2005 este
documento foi inscrito no Programa Memória do Mundo da Organização das Nações
Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura(UNESCO).
Este é um
documento essencial e curiosíssimo de um momento supremo da História e da
cultura portuguesas, e, como tal, um paradigma da literatura de viagens do
Renascimento e da cultura nova, de base experimental e tendência crítica, na
qual, segundo Jaime Cortesão, está contido o «fermento crítico» responsável pelo
espírito filosófico do século XVIII.Trata-se de uma verdadeira carta-narrativa,
na qual são descritos a geografia, a fauna, a flora do Brasil, a aparência e a
psicologia dos nativos, os métodos e experiências de contacto dos portugueses e
as reações mútuas, obviamente a partir de uma perspetiva etnocêntrica que estuda
a nova terra e a população com o objetivo de colher algum proveito: «[Nesta
terra] não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou
ferro, nem lho vimos. A terra, porém, em si é de muito bons ares [...]. Mas o
melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta
gente».
A própria
«salvação» religiosa da população nativa é capitalizável, na medida em que os
portugueses acalentavam então a noção de que a grandiosidade dos seus
empreendimentos derivaria do facto de os feitos da sua História se relacionarem
com a expansão da fé cristã, e portanto beneficiarem sempre da proteção de Deus.
É a mesma conceção providencialista da História portuguesa que encontramos em Os
Lusíadas. A expansão era encarada, não só como o alargamento da civilização e da
cultura em que o Homem de então mais perfeitamente realizava as suas
potencialidades - a portuguesa -, mas também Deus mais dilatava no mundo a sua
lei. Numa perspetiva humanista e neoplatónica, portanto, era através da expansão
portuguesa que o Homem se aproximava cada vez mais do estatuto divino, o qual,
aliás, se cumpre metaforicamente nos cantos finais de Os
Lusíadas.
Deste modo,
a Carta do Achamento do Brasil é um documento fundamental para a
compreensão do Renascimento português, logo, também da História do
mundo.
Carta do Achamento do Brasil. In
Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
wikipedia (Imagens)
wikipedia (Imagens)
Pero
Vaz de Caminha lê a Pedro Álvares Cabral, Frei Henrique de Coimbra e Mestre
João, a carta que será enviada a D.Manuel I - Francisco Aurélio de Figueiredo e
Melo
Reprodução
da Carta de Pero Vaz de Caminha
"Senhor,
posto que o capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães, escrevam a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que nesta navegação agora se achou, não deixarei também de dar minha conta disso a Vossa Alteza (…)
(…) do que hei de falar começo e digo: a partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de março. Sábado, 14 do dito mês, entre as oito e as nove horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grã-Canária, onde andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas (…)
E assim seguimos nosso caminho por este mar, de longo, até que, terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram vinte e um dias de abril (…) topámos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topámos aves a que chamam fura-buxos. Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra!
Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome, o Monte Pascoal, e à terra, a Terra de Vera Cruz (…)
Pela manhã fizemos vela e seguimos direitos à terra (…) avistámos homens que andavam pela praia.
Afonso Lopes (…) meteu-se logo no batel e tomou dois deles.
Um deles trazia um arco e seis ou sete flechas (…) Trouxe-os logo ao capitão em cuja nau foram recebidos com muito prazer e festim. A feição deles é serem pardos (…) avermelhados, de bons rostos e bons narizes (…) Andam nus (…) os seus cabelos são corredios (…) e um deles trazia uma espécie de cabeleira de penas de ave (…)
O capitão (…) estava com um colar de oiro ao pescoço. Um deles pôs o olho no colar do capitão e começou de acenar com a mão para terra e depois para o colar como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para o castiçal de prata e assim mesmo acenava para terra (…) Mostraram-lhes um papagaio; tomaram-no logo na mão e acenaram para terra (…) Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso. Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela (…)
Estavam na praia (…) obra de 60 (…) Vieram logo para nós sem se esquivarem (…) Pareceu-me gente de tal inocência que se homem os entendesse e eles a nós seriam logo cristãos (…)"
Carta de Pero Vaz de Caminha (adaptação)
Descoberta
do Brasil (1500). In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora,
2003-2013.
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