Mostrar mensagens com a etiqueta Jesuítas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jesuítas. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

03 de Setembro de 1759: É decretada a expulsão dos Jesuítas de Portugal

A 3 de Setembro de 1759, o rei D. José I decretou a expulsão dos Jesuítas do país. Os primeiros padres saíram a 16 de Setembro rumo a Itália, para Civitate Vechia.
Algumas razões conduziram à sua expulsão, saída e consequente confiscação dos seus bens para a coroa: o terramoto de 1 de Novembro de 1755 levara à morte milhares de pessoas e à destruição do país. O pânico e o terror instalaram-se sobretudo em Lisboa. Os padres jesuítas, principais confessores e educadores da população, justificavam o terrível acontecimento como castigo divino, pela falta de manifestação de fé e de devoção. O respeitado padre Gabriel Malagrida chegou a proferir que só por meio de procissões e de orações se acalmava a ira de Deus.
O ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, empenhado na reconstrução do país, necessitava da energia da população para os trabalhos de remoção dos escombros e para a nova construção e justificando o terramoto como um fenómeno de causas naturais, repudiava a atitude dos padres, que prejudicavam a sua acção governativa.
Na noite de 3 de Setembro de 1758, o rei D. José I, sofreu um atentado, do qual escapou com ferimentos. A situação afectara-o em muito, o restabelecimento foi lento e o acontecimento recente do Terramoto, levara-o a refugiar-se em Belém, dado que se sucederam as réplicas sísmicas durante algum tempo. Vivia em pânico.
A investigação sobre o atentado e o processo judicial decorrente, conduziram à acusação e à prisão dos principais membros da família Távora, do Duque de Aveiro, respectivos criados envolvidos e à influência de alguns padres jesuítas, nomeadamente do padre Malagrida, confessor das famílias.
Em Janeiro de 1759, os implicados no crime de lesa-majestade, foram sentenciados e supliciados em Belém. Os seus bens tomados para a coroa e os jesuítas viram a sua influência e poder diminuídos, para além de recair sobre estes a suspeita do seu envolvimento, ainda que moral no atentado. A sua expulsão era iminente.
A 3 de Setembro desse mesmo ano, primeiro aniversário da tentativa de regicídio, um decreto real obrigava ao exílio de todos os jesuitas existentes no país. Foram presos os principais de cada colégio, reitores e padres mais influentes e conduzidos aos cárceres existentes na Junqueira e no forte de São Julião da Barra.
De Lisboa, os padres jesuítas partiram das suas principais casas: do Colégio e convento de Santo Antão, que logo foi transformado em Real Hospital de São José, substituindo o antigo e arruinado Hospital Real de Todos os Santos, localizado no Rossio, da Igreja e Casa professa de São Roque, transformada mais tarde em Misericórdia de Lisboa e centro assistencial dos mais necessitados, do Noviciado da Cotovia, na rua da Escola Politécnica, convento jesuita, que o Marquês de Pombal transformou em Colégio dos Nobres, para a educação dos filhos fidalgos e da nobreza citadina e finalmente do Convento de Arroios, também mais tarde convertido em hospital.
Partiram em barcos, escoltados pela guarda real e recolheram-se primeiro em Setúbal antes de partirem definitivamente do país.
Foram confiscados todos os bens e propriedades da Companhia de Jesus que reverteram para o Estado. O seu regresso a Portugal só foi permitido em 1858.


Aguarela representativa da expulsão dos Jesuitas, fotografia de Garcia Nunes, Arquivo Municipal de Lisboa, AFML - A59744
Aguarela representativa da expulsão dos Jesuitas, fotografia de Garcia Nunes, Arquivo Municipal de Lisboa, AFML - A59744

O Marquês de Pombal por Louis-Michel van Loo

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

06 de Fevereiro de 1608: Nasce o Padre António Vieira

Notável prosador e o mais conhecido orador religioso português, o Padre António Vieira nasceu em 1608, em Lisboa, filho primogénito de um modesto casal burguês, e faleceu na Baía em 1697. Quando tinha apenas seis anos, os seus pais mudaram-se para a Baía, no Brasil, tendo iniciado os seus estudos.
Os jesuítas tinham sido desde sempre os portadores da cultura e civilização no Brasil, com relevo especial para os Padres José de Anchieta e Manuel de Nóbrega. Assim sendo, cursou Humanidades no colégio da Companhia de Jesus, onde revelou bem cedo dotes excecionais. Aos 15 anos, motivado pela sua na Virgem das Maravilhas na baiana e por um sermão que ouviu sobre as torturas do Inferno, Vieira teve o seu famoso "estalo" e decidiu ingressar na Companhia de Jesus. Ante a oposição dos pais, Vieira fugiu de casa e prosseguiu a sua formação, em que predominavam as Humanidades Clássicas (principalmente o latim), a Filosofia e a Teologia, com especial relevo para a Sagrada Escritura. Guiado pelos pressupostos e práticas jesuíticas, que apontavam para o objetivo primordial da salvação do próximo através da pregação, exerceu a sua função evangelizadora junto dos indígenas de uma aldeia onde passou algum tempo.
Todavia, cedo regressou à capital de forma a continuar a sua formação. Ao entrar no segundo ano do seu noviciado, assistiu à brusca invasão dos holandeses na Baía, tendo de refugiar-se no interior da capitania. Começara, então, a Guerra Santa entre Portugal e os inimigos de Deus, a que Vieira não ficou alheio durante mais de 25 anos. Descrevendo estes eventos calamitosos do ano de 1624, na "Carta Ânua" ao Padre Geral em Roma, Vieira deixou claro que a sua atividade não se limitaria a ser meramente religiosa, pois os preceitos jesuíticos, que apontavam para a emulação e o instinto de luta, levavam-no a bater-se pela justiça.
Em 1625 António Vieira fez votos de pobreza, castidade e obediência e, propondo-se missionar entre os ameríndios e escravos negros, estudou a "língua geral" (tupi-guarani) e o quimbundo. Foi nomeado professor de Retórica no colégio dos Padres em Olinda, onde permaneceu dois ou três anos, tendo depois voltado à Baía com o fito de seguir os cursos de Filosofia e Teologia. Ordenado padre em dezembro de 1634, depressa se avolumou a sua fama de orador e se celebrizaram os seus sermões que refletiam as vicissitudes da Baía, em luta contra os holandeses, e criticavam a ganância, a injustiça e a corrupção. Em 1641, restaurada a independência, Vieira acompanhou o filho do governador, que vinha trazer a adesão do Brasil a D. João IV, à Metrópole. Em Lisboa, começou a pregar em S. Roque e logo o seu talento se espalhou pela cidade. Segundo o testemunho de D. Francisco Manuel de Melo, a afluência às pregações era tal que, como se de provérbio se tratara, corria a frase: "Manda lançar tapete de madrugada em S. Roque para ouvir o Padre António Vieira". Cativa o favor de D. João IV, que não tardou em convidá-lo a pregar na capela real, onde ele proferiu o seu primeiro sermão no dia 1 de janeiro de 1642. Dois anos depois foi nomeado pregador régio. Nos numerosos sermões desta época da sua vida, Vieira não se cansava de animar o auditório a perseverar na luta desigual com Castela e propunha medidas concretas para a solução de problemas, inclusive de ordem económica. A sua situação privilegiada dentro da corte teria contribuído para que fosse encarregue de diversas missões diplomáticas na Holanda, França e Itália, como foi o caso do casamento do príncipe Teodósio. Em 1644, António Vieira proferiu os votos definitivos, depois de ter feito o terceiro ano de noviciado em Lisboa. A Companhia de Jesus começou a ver com maus olhos a sua influência nos destinos do país, ameaçando-o de ser expulso da Companhia. A pedido da mesma, voltou ao Brasil em 1653, para o estado do Maranhão e assumiu um papel muito ativo nos conflitos entre jesuítas e colonos, como paladino dos direitos humanos, a propósito da exploração dos indígenas. No ano seguinte pregou o Sermão de Santo António aos Peixes. Foi expulso do Maranhão pelos colonos, em 1661, e regressou a Lisboa.De novo na capital, D. João IV, seu protetor, havia falecido e D. Afonso VI, instigado pelos inimigos do orador, desterrou-o para o Porto e, mais tarde, para Coimbra. Perfilhando as novas expectativas sebastianistas que encontrou no reino, que se baseavam no juramento de D. Afonso Henriques, nas cartas apócrifas de São Bernardo, nas profecias atribuídas a São Frei Gil e nas famosas trovas de Bandarra, escreveu o Sermão dos Bons Anos, em 1642. Foi nesta altura que a Inquisição o prendeu sob a acusação de que tomava a defesa dos judeus, acreditava nas possibilidades de um Quinto Império e nas profecias de Bandarra. Durou largo tempo o processo, porque a Inquisição não se dava por satisfeita e impunha que reconhecesse os seus erros, a que o padre jesuíta se recusou, e talvez se não salvasse da fogueira, se a Companhia o abandonasse à sua sorte, e o papa Alexandre VII não interviesse a recomendar-lhe que se retractasse. A sentença do tribunal foi proferida a 23 de Dezembro de 1667. Condenando Vieira a perder a voz activa e passiva, proibindo-lhe a predica, e ordenando lhe que se recolhesse a um colégio de noviços, ele ouviu a sentença de pé e imóvel durante duas horas com o olhar fito num crucifixo do tribunal, e isto depois de 27 meses de cárcere incomunicável.  Entretanto, a situação política alterou-se. Destituído D. Afonso, subiu ao trono D. Pedro II. António Vieira foi amnistiado e retomou as pregações em Lisboa. Em 1669 parte para Roma como diplomata e obtém grande sucesso como pregador, combatendo o Tribunal do Santo Ofício. Na Cidade Eterna, continuou a defesa acérrima dos judeus e ganhou grande reputação, encantando com a sua eloquência o Papa Clemente X e a rainha Cristina da Suécia. Regressou a Portugal em 1675; mas, agora sem apoios políticos e desiludido pela perseguição aos cristãos-novos (que tanto defendera), retirou-se de vez para a Baía em 1681 onde se entregou ao trabalho de compor e editar os seus Sermões. A sua prosa é vista como um modelo de estilo vigoroso e lógico, onde a construção frásica ultrapassa o mero virtuosismo barroco. A sua riqueza e propriedade verbais, os paradoxos e os efeitos persuasivos que ainda hoje exercem influência no leitor, a sedução dos seus raciocínios, o tom por vezes combativo, e ainda certas subtilezas irónicas, tornaram a arte de Vieira admirável. As obras Sermões, Cartas e História do Futuro ficam como testemunho dessa arte.
Padre António Vieira. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
wikipedia(imagens) 
Ficheiro:Padre António Vieira.jpg
Retrato do Padre António Vieira - Autor desconhecido, início do século XVIII

sábado, 3 de setembro de 2016

03 de Setembro de 1759: É decretada a expulsão dos Jesuítas de Portugal

A 3 de Setembro de 1759, o rei D. José I decretou a expulsão dos Jesuítas do país. Os primeiros padres saíram a 16 de Setembro rumo a Itália, para Civitate Vechia.
Algumas razões conduziram à sua expulsão, saída e consequente confiscação dos seus bens para a coroa: o terramoto de 1 de Novembro de 1755 levara à morte milhares de pessoas e à destruição do país. O pânico e o terror instalaram-se sobretudo em Lisboa. Os padres jesuítas, principais confessores e educadores da população, justificavam o terrível acontecimento como castigo divino, pela falta de manifestação de fé e de devoção. O respeitado padre Gabriel Malagrida chegou a proferir que só por meio de procissões e de orações se acalmava a ira de Deus.
O ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, empenhado na reconstrução do país, necessitava da energia da população para os trabalhos de remoção dos escombros e para a nova construção e justificando o terramoto como um fenómeno de causas naturais, repudiava a atitude dos padres, que prejudicavam a sua acção governativa.
Na noite de 3 de Setembro de 1758, o rei D. José I, sofreu um atentado, do qual escapou com ferimentos. A situação afectara-o em muito, o restabelecimento foi lento e o acontecimento recente do Terramoto, levara-o a refugiar-se em Belém, dado que se sucederam as réplicas sísmicas durante algum tempo. Vivia em pânico.
A investigação sobre o atentado e o processo judicial decorrente, conduziram à acusação e à prisão dos principais membros da família Távora, do Duque de Aveiro, respectivos criados envolvidos e à influência de alguns padres jesuítas, nomeadamente do padre Malagrida, confessor das famílias.
Em Janeiro de 1759, os implicados no crime de lesa-majestade, foram sentenciados e supliciados em Belém. Os seus bens tomados para a coroa e os jesuítas viram a sua influência e poder diminuídos, para além de recair sobre estes a suspeita do seu envolvimento, ainda que moral no atentado. A sua expulsão era iminente.
A 3 de Setembro desse mesmo ano, primeiro aniversário da tentativa de regicídio, um decreto real obrigava ao exílio de todos os jesuitas existentes no país. Foram presos os principais de cada colégio, reitores e padres mais influentes e conduzidos aos cárceres existentes na Junqueira e no forte de São Julião da Barra.
De Lisboa, os padres jesuítas partiram das suas principais casas: do Colégio e convento de Santo Antão, que logo foi transformado em Real Hospital de São José, substituindo o antigo e arruinado Hospital Real de Todos os Santos, localizado no Rossio, da Igreja e Casa professa de São Roque, transformada mais tarde em Misericórdia de Lisboa e centro assistencial dos mais necessitados, do Noviciado da Cotovia, na rua da Escola Politécnica, convento jesuita, que o Marquês de Pombal transformou em Colégio dos Nobres, para a educação dos filhos fidalgos e da nobreza citadina e finalmente do Convento de Arroios, também mais tarde convertido em hospital.
Partiram em barcos, escoltados pela guarda real e recolheram-se primeiro em Setúbal antes de partirem definitivamente do país.
Foram confiscados todos os bens e propriedades da Companhia de Jesus que reverteram para o Estado. O seu regresso a Portugal só foi permitido em 1858.


Aguarela representativa da expulsão dos Jesuitas, fotografia de Garcia Nunes, Arquivo Municipal de Lisboa, AFML - A59744
Aguarela representativa da expulsão dos Jesuitas, fotografia de Garcia Nunes, Arquivo Municipal de Lisboa, AFML - A59744
O Marquês de Pombal por Louis-Michel van Loo

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

15 de Agosto de 1534: Inácio de Loyola funda a Companhia de Jesus

A 15 de agosto de 1534, acompanhado de seis discípulos, Inácio de Loyola, espanhol, figura de grande dimensão espiritual e humana, pronuncia em Montmartre (Paris) votos de pobreza e castidade, formando um novo instituto religioso, a Companhia de Jesus. Mais tarde, em Roma, submetem-se ao serviço da Santa Sé. O papa Paulo III aprova a nova Ordem em 1540, mediante a apresentação por Inácio do esboço de uma regra, designada Formula Instituti
O lema da nova congregação é "defender e proteger a fé", visando-se o progresso espiritual dos fiéis. Para isso acentua-se o apostolado sacerdotal, caracterizado por uma grande mobilidade e capacidade de adaptação dos seus membros às contingências do mundo exterior. Para além dos três votos solenes (pobreza, castidade e obediência), alguns jesuítas pronunciam um quarto, o de obediência especial ao papa como chefe da Igreja e vigário de Cristo. Com uma hierarquia centralizadora, a Ordem é governada por um prepósito geral (cargo máximo dos jesuítas), eleito pela Congregação Geral, única e plena autoridade legislativa. A estrutura da Companhia é composta por noviços, coadjutores espirituais e professos. 
A defesa da reforma católica por teólogos jesuítas no Concílio de Trento (1545-1563) demonstra bem o contexto da época em que nasceu a Companhia de Jesus: a Contrarreforma católica em oposição à Reforma Protestante encetada por Lutero em 1527. Combater a Reforma e formar teólogos e padres capazes de combater as novas adversidades do século XVI são alguns objetivos que norteiam a aprovação papal das propostas de Sto. Inácio. Canisius e Acquaviva são alguns dos grandes nomes jesuítas desses tempos conturbados. A Companhia consegue também delinear uma espiritualidade própria, com a contemplação no mesmo plano que a meditação, a par do exame de consciência. Criam-se, ao mesmo tempo, por toda a Europa e Índia, estabelecimentos pedagógicos da Ordem, gratuitos no início, direcionados quer para a formação do clero quer para a educação e apostolado dos jovens. Em 1600, contavam-se já 245 colégios; 444 em 1626. 
A tarefa missionária dos Jesuítas é deveras importante, tal como o combate à Reforma Protestante e a reforma e instrução do clero. Várias missões são empreendidas pela Companhia em toda a América, especialmente nas colónias espanholas, no Brasil, e no Canadá francês (onde sucede o martírio de S. João Brébeuf em 1649). Na América Latina, face à brutalidade dos colonos sobre os Índios e à constante mobilidade das populações, os Jesuítas concebem as chamadasreduções, áreas onde os nativos eram agrupados sem qualquer sujeição à apropriação por parte dos colonos. Os Jesuítas davam-lhes formação religiosa e instalavam-nos em aldeias geridas por um sistema comunitário no qual os Índios participavam. A maior delas, a República dos Guaranis, fundada em 1609 no Paraguai, durou 150 anos até ser destruída pelos colonos. Também na China os missionários M. Ruggieri (1543-1607) e Matteo Ricci (1522-1560) enraizaram um Cristianismo adaptado às tradições e cultura locais, experiência lúcida que contudo originou algumas discussões na Companhia de Jesus, acerca, por exemplo, da cristianização do culto chinês dos antepassados. 
Também em Portugal, e nomeadamente na missionação, os Jesuítas desempenharam um papel de relevo desde a sua instalação em Lisboa em 1540. Tendo sido Portugal a sua primeira província e um dos balões de ensaio para a experiência apostólica da Companhia, rapidamente se radicaram e cresceram entre nós os Jesuítas, quer no continente quer no ultramar. Em 1600 eram mais de 600, com uma universidade, colégios, hospitais, seminários e asilos por todo o País, com os seus membros rodeando as mais altas figuras da Nação, sobre os quais exerciam enorme influência. O seu projeto e métodos de educação e ensino dominavam quase todo o ensino normal em Portugal. Combatiam também as heresias e os cristãos-novos, aliando-se a princípio à Inquisição e ao clero secular. Atingiram grande poderio e riqueza. 
Na Índia e no Brasil empreenderam um esforço de missionação notável, assumindo-se como grandes difusores da cultura portuguesa e da nossa língua, para além da obra apostólica e artística. S. Francisco Xavier, José de Anchieta, Pe. António Vieira, Manuel da Nóbrega, para além de muitos outros, missionários e exploradores, são algumas das figuras cimeiras dos Jesuítas em Portugal. 


O século XVII é marcado, na história da Companhia, por tentativas de reforma tendentes sobretudo a suprimir o carácter hierárquico da estrutura e o governo vitalício. Intrigas e cabalas são tentadas, com o papa a resolver as contendas. Tudo isto demonstra a vitalidade e o poder atingidos pela Ordem ao fim de um século de vida. Passada esta fase agitada, a Ordem conhece um desenvolvimento e expansão vigorosos. 


Porém, o advento do Iluminismo, com as suas exigências racionalistas e a implantação de uma noção de Estado, origina mudanças de fundo na Companhia de Jesus. O seu sucesso e elevado número de colégios constitui, aos olhos dos seus velhos inimigos, um grande obstáculo à difusão dos ideais iluministas e das "luzes" da Razão. Simultaneamente, fortes tensões desencadeiam-se no seio da Ordem, com a sua divisão em várias sensibilidades, o que dificulta a sua defesa das ofensivas do exterior, a cair já num plano político, com difamações e ataques violentos. A forte ligação dos Jesuítas ao papa constitui um dos alvos preferenciais dos enciclopedistas e filósofos nos ataques à Companhia. 
Neste clima agressivo, a Companhia mantém a sua atividade cultural e educacional, a par do apostolado. O grande monumento de erudição hagiográfica - as Ata Sanctorum - é publicado em 1643 por Jean Bolland. Contudo, o século XVIII constitui o cenário de uma maior amplitude e gravidade no conflito entre os Jesuítas e o mundo intelectual da época. Começam, então, as expulsões da Companhia em vários países, cada vez mais influenciados por governantes "esclarecidos" (homens das "Luzes"). A primeira de todas ocorre em Portugal, em 1759, culminando uma perseguição por parte do Marquês de Pombal. Luís XV, em França, em 1764, condena a Ordem como "contrária ao direito natural". Em 1767, são expulsos de Espanha por Aranda, ministro de Carlos III. O golpe final será dado pelo papa Clemente XIV, que suprime a Companhia, em 1773, da Igreja Católica. 
Porém, alguns conseguem refugiar-se na Rússia, apoiados por Catarina II, mantendo viva a chama do projeto de Sto. Inácio de Loyola. Daí se espalham novamente pelo mundo a partir de 1814, quando o papa Pio VII restaura a Companhia. De 600 membros nessa data, o seu número nunca mais para de crescer, tornando-a na maior Ordem religiosa católica (36 000 em 1974), mau grado outras perseguições de que é alvo, como em França (1905), no México, na Alemanha (nas Guerras Mundiais) e na Espanha (na Guerra Civil). 

Em 1833 as missões são reiniciadas, graças ao vigor do prepósito geral Roothaan, partindo da Europa para as regiões missionárias tradicionais, adaptando-se, vigilantemente, às condições locais. A América foi uma das regiões privilegiadas, uma vez mais, como também a Índia e o Extremo Oriente, regiões donde provêm, atualmente, muitos dos efetivos da Companhia, que conta atualmente cerca de 24 000 em mais de 120 países. 
Portugal é um desses países, o mais antigo mesmo, pois foi entre nós que se fundou a primeira província (1546) da Companhia e um dos seus primeiros colégios (Colégio de Sto. Antão, em Lisboa), para além de um dos companheiros mais chegados de Sto. Inácio ser português, o Pe. Simão Rodrigues. Aqui se escreveram também muitas das páginas mais importantes da história dos Jesuítas, para além da contribuição, entre outras, por eles dada para a arquitetura portuguesa (como noutros países do sul da Europa), nomeadamente no que concerne ao denominado "estilo jesuítico", expressão própria do barroco, que eles ajudaram a difundir. A Companhia foi restaurada em Portugal no século XIX pelo Pe. Carlos J. Rademaker, no Colégio de Campolide.


Fontes: Infopédia
wikipedia (imagens)

Inácio de Loyola

Jesuítas na China

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

03 de Setembro de 1759: É decretada a expulsão dos Jesuítas de Portugal

A 3 de Setembro de 1759, o rei D. José I decretou a expulsão dos Jesuítas do país. Os primeiros padres saíram a 16 de Setembro rumo a Itália, para Civitate Vechia.
Algumas razões conduziram à sua expulsão, saída e consequente confiscação dos seus bens para a coroa: o terramoto de 1 de Novembro de 1755 levara à morte milhares de pessoas e à destruição do país. O pânico e o terror instalaram-se sobretudo em Lisboa. Os padres jesuítas, principais confessores e educadores da população, justificavam o terrível acontecimento como castigo divino, pela falta de manifestação de fé e de devoção. O respeitado padre Gabriel Malagrida chegou a proferir que só por meio de procissões e de orações se acalmava a ira de Deus.
O ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, empenhado na reconstrução do país, necessitava da energia da população para os trabalhos de remoção dos escombros e para a nova construção e justificando o terramoto como um fenómeno de causas naturais, repudiava a atitude dos padres, que prejudicavam a sua acção governativa.
Na noite de 3 de Setembro de 1758, o rei D. José I, sofreu um atentado, do qual escapou com ferimentos. A situação afectara-o em muito, o restabelecimento foi lento e o acontecimento recente do Terramoto, levara-o a refugiar-se em Belém, dado que se sucederam as réplicas sísmicas durante algum tempo. Vivia em pânico.
A investigação sobre o atentado e o processo judicial decorrente, conduziram à acusação e à prisão dos principais membros da família Távora, do Duque de Aveiro, respectivos criados envolvidos e à influência de alguns padres jesuítas, nomeadamente do padre Malagrida, confessor das famílias.
Em Janeiro de 1759, os implicados no crime de lesa-majestade, foram sentenciados e supliciados em Belém. Os seus bens tomados para a coroa e os jesuítas viram a sua influência e poder diminuídos, para além de recair sobre estes a suspeita do seu envolvimento, ainda que moral no atentado. A sua expulsão era iminente.
A 3 de Setembro desse mesmo ano, primeiro aniversário da tentativa de regicídio, um decreto real obrigava ao exílio de todos os jesuitas existentes no país. Foram presos os principais de cada colégio, reitores e padres mais influentes e conduzidos aos cárceres existentes na Junqueira e no forte de São Julião da Barra.
De Lisboa, os padres jesuítas partiram das suas principais casas: do Colégio e convento de Santo Antão, que logo foi transformado em Real Hospital de São José, substituindo o antigo e arruinado Hospital Real de Todos os Santos, localizado no Rossio, da Igreja e Casa professa de São Roque, transformada mais tarde em Misericórdia de Lisboa e centro assistencial dos mais necessitados, do Noviciado da Cotovia, na rua da Escola Politécnica, convento jesuita, que o Marquês de Pombal transformou em Colégio dos Nobres, para a educação dos filhos fidalgos e da nobreza citadina e finalmente do Convento de Arroios, também mais tarde convertido em hospital.
Partiram em barcos, escoltados pela guarda real e recolheram-se primeiro em Setúbal antes de partirem definitivamente do país.
Foram confiscados todos os bens e propriedades da Companhia de Jesus que reverteram para o Estado. O seu regresso a Portugal só foi permitido em 1858.


Aguarela representativa da expulsão dos Jesuitas, fotografia de Garcia Nunes, Arquivo Municipal de Lisboa, AFML - A59744
Aguarela representativa da expulsão dos Jesuitas, fotografia de Garcia Nunes, Arquivo Municipal de Lisboa, AFML - A59744
O Marquês de Pombal por Louis-Michel van Loo

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

6 de Fevereiro de 1608: Nascimento do Padre António Vieira


Notável prosador e o mais conhecido orador religioso português, o Padre António Vieira nasceu em 1608, em Lisboa, filho primogénito de um modesto casal burguês, e faleceu na Baía em 1697. Quando tinha apenas seis anos, os seus pais mudaram-se para a Baía, no Brasil, tendo iniciado os seus estudos.
Os jesuítas tinham sido desde sempre os portadores da cultura e civilização no Brasil, com relevo especial para os Padres José de Anchieta e Manuel de Nóbrega. Assim sendo, cursou Humanidades no colégio da Companhia de Jesus, onde revelou bem cedo dotes excecionais. Aos 15 anos, motivado pela sua na Virgem das Maravilhas na baiana e por um sermão que ouviu sobre as torturas do Inferno, Vieira teve o seu famoso "estalo" e decidiu ingressar na Companhia de Jesus. Ante a oposição dos pais, Vieira fugiu de casa e prosseguiu a sua formação, em que predominavam as Humanidades Clássicas (principalmente o latim), a Filosofia e a Teologia, com especial relevo para a Sagrada Escritura. Guiado pelos pressupostos e práticas jesuíticas, que apontavam para o objetivo primordial da salvação do próximo através da pregação, exerceu a sua função evangelizadora junto dos indígenas de uma aldeia onde passou algum tempo.
Todavia, cedo regressou à capital de forma a continuar a sua formação. Ao entrar no segundo ano do seu noviciado, assistiu à brusca invasão dos holandeses na Baía, tendo de refugiar-se no interior da capitania. Começara, então, a Guerra Santa entre Portugal e os inimigos de Deus, a que Vieira não ficou alheio durante mais de 25 anos. Descrevendo estes eventos calamitosos do ano de 1624, na "Carta Ânua" ao Padre Geral em Roma, Vieira deixou claro que a sua atividade não se limitaria a ser meramente religiosa, pois os preceitos jesuíticos, que apontavam para a emulação e o instinto de luta, levavam-no a bater-se pela justiça.
Em 1625 António Vieira fez votos de pobreza, castidade e obediência e, propondo-se missionar entre os ameríndios e escravos negros, estudou a "língua geral" (tupi-guarani) e o quimbundo. Foi nomeado professor de Retórica no colégio dos Padres em Olinda, onde permaneceu dois ou três anos, tendo depois voltado à Baía com o fito de seguir os cursos de Filosofia e Teologia. Ordenado padre em dezembro de 1634, depressa se avolumou a sua fama de orador e se celebrizaram os seus sermões que refletiam as vicissitudes da Baía, em luta contra os holandeses, e criticavam a ganância, a injustiça e a corrupção. Em 1641, restaurada a independência, Vieira acompanhou o filho do governador, que vinha trazer a adesão do Brasil a D. João IV, à Metrópole. Em Lisboa, começou a pregar em S. Roque e logo o seu talento se espalhou pela cidade. Segundo o testemunho de D. Francisco Manuel de Melo, a afluência às pregações era tal que, como se de provérbio se tratara, corria a frase: "Manda lançar tapete de madrugada em S. Roque para ouvir o Padre António Vieira". Cativa o favor de D. João IV, que não tardou em convidá-lo a pregar na capela real, onde ele proferiu o seu primeiro sermão no dia 1 de janeiro de 1642. Dois anos depois foi nomeado pregador régio. Nos numerosos sermões desta época da sua vida, Vieira não se cansava de animar o auditório a perseverar na luta desigual com Castela e propunha medidas concretas para a solução de problemas, inclusive de ordem económica. A sua situação privilegiada dentro da corte teria contribuído para que fosse encarregue de diversas missões diplomáticas na Holanda, França e Itália, como foi o caso do casamento do príncipe Teodósio. Em 1644, António Vieira proferiu os votos definitivos, depois de ter feito o terceiro ano de noviciado em Lisboa. A Companhia de Jesus começou a ver com maus olhos a sua influência nos destinos do país, ameaçando-o de ser expulso da Companhia. A pedido da mesma, voltou ao Brasil em 1653, para o estado do Maranhão e assumiu um papel muito ativo nos conflitos entre jesuítas e colonos, como paladino dos direitos humanos, a propósito da exploração dos indígenas. No ano seguinte pregou o Sermão de Santo António aos Peixes. Foi expulso do Maranhão pelos colonos, em 1661, e regressou a Lisboa.De novo na capital, D. João IV, seu protetor, havia falecido e D. Afonso VI, instigado pelos inimigos do orador, desterrou-o para o Porto e, mais tarde, para Coimbra. Perfilhando as novas expectativas sebastianistas que encontrou no reino, que se baseavam no juramento de D. Afonso Henriques, nas cartas apócrifas de São Bernardo, nas profecias atribuídas a São Frei Gil e nas famosas trovas de Bandarra, escreveu o Sermão dos Bons Anos, em 1642. Foi nesta altura que a Inquisição o prendeu sob a acusação de que tomava a defesa dos judeus, acreditava nas possibilidades de um Quinto Império e nas profecias de Bandarra. Entretanto, a situação política alterou-se. Destituído D. Afonso, subiu ao trono D. Pedro II. António Vieira foi amnistiado e retomou as pregações em Lisboa. Em 1669 parte para Roma como diplomata e obtém grande sucesso como pregador, combatendo o Tribunal do Santo Ofício. Na Cidade Eterna, continuou a defesa acérrima dos judeus e ganhou grande reputação, encantando com a sua eloquência o Papa Clemente X e a rainha Cristina da Suécia. Regressou a Portugal em 1675; mas, agora sem apoios políticos e desiludido pela perseguição aos cristãos-novos (que tanto defendera), retirou-se de vez para a Baía em 1681 onde se entregou ao trabalho de compor e editar os seus Sermões. A sua prosa é vista como um modelo de estilo vigoroso e lógico, onde a construção frásica ultrapassa o mero virtuosismo barroco. A sua riqueza e propriedade verbais, os paradoxos e os efeitos persuasivos que ainda hoje exercem influência no leitor, a sedução dos seus raciocínios, o tom por vezes combativo, e ainda certas subtilezas irónicas, tornaram a arte de Vieira admirável. As obras Sermões, Cartas e História do Futuro ficam como testemunho dessa arte.
Padre António Vieira. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
wikipedia(imagens) 
Ficheiro:Padre António Vieira.jpg
Retrato do Padre António Vieira - Autor desconhecido, início do século XVIII