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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Panteão Nacional abre esta quarta-feira as portas à grandeza poética e cívica de Sophia

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) entra esta quarta-feira no Panteão Nacional, quando se cumprem dez anos sobre a sua morte e se comemora o 40.º aniversário do 25 de Abril, esse “dia inicial inteiro e limpo”, como ela própria o descreveu naquele que é provavelmente o mais belo dos poemas dedicados à revolução dos cravos.
A ideia de trasladar os restos da escritora para o Panteão, na Igreja de Santa Engrácia, surgiu publicamente em Novembro do ano passado com um artigo que o escritor José Manuel dos Santos, ex-assessor cultural de Mário Soares e Jorge Sampaio, assinou no PÚBLICO. Ainda no final de 2013, por iniciativa dos deputados Marco Perestrello (PS) e Nuno Encarnação (PSD), a proposta chegou ao Parlamento, onde veio a ser aprovada por unanimidade em Fevereiro deste ano.
Um processo célere e que não provocou a menor controvérsia, o que não deixa de ser significativo, se tivermos em conta que Sophia é apenas a quinta personalidade a quem o regime democrático instaurado em 1974 concede esta honra. As anteriores foram Humberto Delgado, em 1990, Amália Rodrigues, em 2001, Manuel de Arriaga, em 2004 (sem dúvida a escolha mais surpreendente), e Aquilino Ribeiro, em 2007.
É possível que o século XX português tenha três ou quatro poetas (mais não terá) de grandeza equivalente à de Sophia. E algumas figuras que não desmereçam da sua integridade cívica e política. E outras que não terão sido menos amadas pelos seus concidadãos. Mas é difícil encontrar alguém que reúna todas estas características em tão alto grau.
E é justamente esse “encontro perfeito” entre “grandeza poética” e “exemplaridade cívica” que animaram José Manuel dos Santos a propor a entrada de Sophia no Panteão Nacional. Para lhe prestar o tributo que merece, mas também, assume, para revalorizar a própria instituição.
É a ele que caberá fazer esta quarta-feira a evocação da homenageada, numa cerimónia que foi pensada ao milímetro para garantir que todos os momentos encerrem algum simbolismo, algo que os ligue a Sophia e lhes dê razão de ser. “Tentarei falar dela como ela falou dos poetas que admirava”, diz José Manuel dos Santos, que sublinha que não se tratará de um elogio fúnebre, até porque a entrada no Panteão representa “uma espécie de ressurreição simbólica”.
Magnificat na Travessa das Mónicas
Os restos mortais de Sophia, exumados e colocados em urna há já alguns dias, sairão esta tarde do cemitério de Carnide, com escolta oficial, rumo à Capela do Rato, onde será celebrada uma missa, pelas 17h15, pelo patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, e pelo actual capelão, o padre e poeta José Tolentino Mendonça. Foi na Capela do Rato que ocorreram, em 1972, as célebres vigílias contra a ditadura e a guerra colonial promovidas por um grupo de católicos progressistas ao qual Sophia pertencia. A poeta já tinha, aliás, intervindo numa iniciativa semelhante organizada na Igreja de S. Domingos, também em Lisboa, na madrugada de 1 de Janeiro de 1969: uma vigília pela paz para a qual Sophia escreveu o poema Cantata da Paz (“Vemos, ouvimos e lemos,/ não podemos ignorar”), depois cantado pelo padre antifascista Francisco Fanhais.
Prevê-se que a urna saia da Capela do Rato pelas 18h15 e que faça uma paragem na Assembleia da República (AR) – onde se lembrará que Sophia foi deputada constituinte (eleita em 1975 pelo círculo do Porto, numa lista do PS) –, seguindo depois para a Igreja de Santa Engrácia. É aqui, no Campo de Santa Clara, ainda no exterior do Panteão, que terá início, pelas 19h00, a cerimónia oficial. Na presença do Presidente da República, do primeiro-ministro e da presidente da AR, e depois de o Coro do Teatro Nacional de São Carlos (TNSC) interpretar o hino nacional, José Manuel dos Santos fará a evocação de Sophia.
Seguem-se um dueto do Lago dos Cisnes  e outro de Orfeu e Eurídice, ambos interpretados pela Companhia Nacional de Bailado. “Numa carta à mãe, Sophia fala com entusiasmo de ter ido ver a Margot Fonteyn dançar o Lago dos Cisnes”, lembra José Manuel dos Santos. Entre os dois bailados intervirá Assunção Esteves, e no final do segundo falará Cavaco Silva. Ouvir-se-ão ainda poemas de Sophia ditos pela própria, a partir de uma gravação de 1957, e as três principais figuras do Estado assinarão então o Termo de Sepultura no Panteão Nacional.

Se tudo tiver corrido como planeado, serão nesse momento 20h e ouvir-se-á oMagnificat de Bach interpretado pelo Coro do TNSC. Mais uma escolha simbólica, já que a homenageada tinha uma predilecção por este cântico que a Virgem Maria entoa no evangelho de Lucas. Segundo José Manuel dos Santos, Sophia contava que, quando descobriu a casa da Travessa das Mónicas, achou logo que era a sua casa e sentiu-se tão grata que disse o Magnificat
Chegará então finalmente o momento em que a urna com os restos mortais da poeta transporá o limiar do Panteão Nacional, onde ficará depositada numa arca tumular. “Será uma cerimónia solene, mas não pomposa; oficial, mas com um simbolismo respeitador da figura de Sophia”, prevê José Manuel dos Santos.
Caminho da Manhã
Antecedendo a cerimónia desta quarta-feira, Sophia foi homenageada há uma semana no Porto, cidade onde nasceu e passou a infância e a primeira adolescência, dividindo-se entre a casa paterna, na Rua de António Cardoso, e a gigantesca quinta dos avós, no Campo Alegre. Na passada quarta-feira, dia 25, o público encheu o auditório principal da Casa da Música para assistir a esta evocação, promovida pela Porto Editora.
A sessão incluiu debates com diversos convidados, a interpretação de poemas de Sophia pelos actores Luís Miguel Cintra e Luísa Cruz e pela cantora lírica Dora Rodrigues, a projecção de um excerto do documentário Sophia (1969), de João César Monteiro, intervenções da poetisa Maria Andresen Sousa Tavares e do escritor e jornalista Miguel Sousa Tavares, filhos da escritora, e ainda, entre outros momentos, uma sentida homenagem da arquitecta paisagista Teresa Andresen à sua tia Sophia, que a acolheu em Lisboa enquanto frequentava a universidade.
Algumas das intervenções mais interessantes deveram-se ao ensaísta Carlos Mendes de Sousa, que soube entretecer considerações mais literárias com detalhes biográficos pouco conhecidos, como o do episódio em que a jovem Sofia foi apresentada a Miguel Torga como autora de versos e este terá comentado: “A menina é tão bonita que não precisava de escrever poemas.” Uma tirada que a “deixou furiosa”, diz Carlos Mendes de Sousa, e a levou a enviar uma série de poemas a Torga. Este percebeu então que a “menina” era mesmo um poeta para levar a sério e ajudou-a a imprimir o seu livro de estreia, Poesia (1944), nas gráficas da Coimbra Editora, onde ele próprio publicava os seus.  
Miguel Sousa Tavares, que fazia anos nesse dia – circunstância a que aludiu lembrando os “demasiados anos” que se cumpriam desde a primeira vez que a mãe lhe dissera “Miguel, olha o mundo!” –, foi responsável pela mais prolongada ovação da noite quando garantiu que Sophia, se fosse viva, se oporia ao novo acordo ortográfico.
Começou por ler um texto da mãe, Caminho da Manhã, um belíssimo poema em prosa de Livro Sexto (1962), no qual a autora indica a alguém (que não é identificado) o caminho a seguir até uma cidade de “pequenas ruas estreitas, direitas e brancas” e o que deve fazer depois de lá chegar. Também o lugar não é nomeado, mas Sousa Tavares explicou que a cidade descrita é Lagos: passavam férias de Verão ali perto, e Sophia ia a pé até à povoação, fazia compras no mercado e regressava depois de táxi a casa carregada com mantimentos para alimentar a sua numerosa família.
Sousa Tavares defendeu que Caminho da Manhã é uma espécie de texto-chave, que resumiria tudo o que é essencial na criação literária da mãe, da poesia e dos contos aos livros para crianças. Neste poema, Sophia sugere ao seu interlocutor que, ainda antes de entrar no mercado, olhe “um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim”. Depois dá-lhe instruções detalhadas sobre o que deve ver e comprar no mercado: “Ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar.”
Quando a pessoa a quem a autora se dirige já tem os cestos cheios de peixes, frutos, hortaliças, ramos de ervas aromáticas, é então tempo de regressar: “Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.” E Sophia conclui assim o texto: “Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.”
Se é evidente que o verdadeiro interlocutor de Sophia no poema é ela própria, a autora conta, numa entrevista de 1991 a José Carlos de Vasconcelos, a curiosa origem deste texto: “Muitas vezes eu ia a Lagos a pé, às compras. Outras vezes ia a empregada. Um dia ensinei-lhe o caminho e o que havia de comprar, etc., para ela fazer o que eu tinha feito sozinha na véspera. Depois de lhe dizer tudo isso, apercebi-me que aquilo era uma espécie de poema e escrevi mais ou menos o que lhe tinha dito. Chamei-lhe Caminho da Manhã.”
Sousa Tavares acha que se a poesia da mãe “continua deslumbrantemente actual”, é porque “toda a gente entende o que ela escreveu”. Mas a exemplaridade que vê em Caminho da Manhã não decorre apenas dessa limpidez, mas também do modo como este texto ilustra a verdadeira natureza da aliança que em Sophia sempre existiu entre poesia e ética. E que faz com que o próprio impulso que a leva à poesia a transforme inevitavelmente numa criatura ética, como ela própria explica na terceira das suas artes poéticas: “Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. (…) E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia.”
Do lado de Antígona
Se Miguel Sousa Tavares, ironizando com “a crítica bem pensante”, defendeu que a escrita da mãe “não precisa de crítica nem de explicações”, já a intervenção de Maria Andresen Sousa Tavares teve o mérito de nos lembrar que esta é também uma poesia culta, que não ignora de todo a tradição literária, e cuja clareza não é necessariamente isenta de uma dimensão enigmática.
Não que a filha de Sophia tenha expressamente dito isto. O que fez foi contrastar os poemas que tanto a sua mãe como o poeta grego Konstantínos Kaváfis (1863-1933), natural de Alexandria, dedicaram ao tópico homérico de Ítaca, a terra natal de Ulisses à qual o herói anseia regressar. Convicta de que a mãe lera o poema de Kaváfis, procurou demonstrar que Sophia se afasta, no entanto, da “serenidade estóica” que este propõe – a ideia de que a única coisa que Ítaca nos poderá dar é a viagem para Ítaca, e que devemos aproveitá-la sem pressa de chegar, porque todos os destinos são utópicos –, para se aproximar duma “tradição de contestação e revolta”, que radicaria antes na figura de Antígona. Essa que, nas palavras de Sophia, diz: “Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres.”
A respeito da entrada de Sophia para o Panteão, disse ao PÚBLICO que “seria difícil” a qualquer família recusar esta distinção, e que está convencida de que a mãe não antipatizaria demasiado com a ideia. “Como todos os grandes artistas, gostava de reconhecimento.” A título pessoal confessa ter sido “seduzida pelo texto de José Manuel dos Santos”, mas crê que “só o futuro” – isto é: aquilo em que o Panteão Nacional se vier a tornar – “dirá se a família fez bem em aceitar”.
Fonte: Público
 
Sophia foi homenageada há uma semana no Porto numa sessão que encheu o auditório da Casa da Música

 
Manuscrito com o poema de Sophia dedicado à revolução dos cravos e que faz parte do espólio doado à Biblioteca Nacional de Portugal pela família

sábado, 12 de abril de 2014

Sophia será trasladada para o Panteão a 2 de Julho

Os restos mortais da escritora Sophia de Mello Breyner Andresen serão trasladados para o Panteão Nacional, em Lisboa, a 2 de Julho, disse à agência Lusa fonte do grupo de trabalho criado para definir a cerimónia.
A trasladação acontecerá no dia em que passam dez anos da morte da escritora e, segundo a edição deste sábado do semanário Expresso, o programa oficial já está definido.
A fonte do grupo de trabalho confirmou à Lusa que o percurso para a trasladação – do cemitério de Carnide para o Panteão Nacional – incluirá passagem pela Capela do Rato, onde decorrerá uma missa, e pela Assembleia da República.
No Panteão Nacional está prevista uma actuação da Companhia Nacional de Bailado e do Coro do Teatro Nacional de São Carlos e José Manuel dos Santos, director cultural da Fundação EDP e amigo da família da escritora, fará uma leitura na cerimónia.
Maria Andresen, filha da escritora, afirmou à Lusa que faz mais sentido que a trasladação aconteça a 2 de Julho e não a 25 de Abril – como chegou a ser falado –, tendo em conta que "neste momento se recusa a presença dos militares do 25 de Abril [na Assembleia da República]. Mais vale a minha mãe estar fora disso, das comemorações".
Em Fevereiro, a Assembleia da República aprovou por unanimidade a concessão de honras de Panteão Nacional à poeta e a criação de um grupo de trabalho para determinar a data e o programa da trasladação.
Na resolução aprovada, os deputados afirmaram que a trasladação é uma forma de homenagear "a escritora universal, a mulher digna, a cidadã corajosa, a portuguesa insigne" e evocar "o seu exemplo de fidelidade aos valores da liberdade e da justiça".

Sustentando a decisão da trasladação, os deputados afirmaram ainda que para Sophia de Mello Breyner Andresen "a intervenção política fez-se sempre por imperativos morais e poéticos".

Nascida no Porto em 1919, Sophia de Mello Breyner Andresen foi a segunda mulher a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999.
A escritora foi co-fundadora da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos durante a ditadura e, após o 25 de Abril de 1974, foi eleita deputada à Assembleia Constituinte.

Por ocasião dos dez anos da morte de Sophia de Melo Breyner, Maria Andresen afirmou à Lusa que a página na Internet com toda a documentação da escritora vai ser actualizada e que foi criada uma equipa, coordenada por Carlos Mendes de Sousa, para estudar os manuscritos inéditos de poesia.
Fonte: Público

Cerimónia acontecerá no dia em que passam dez anos sobre a morte da escritora e não a 25 de Abril.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Panteão Nacional: A igreja que já foi fábrica de sapatos


Ao entrar chega-nos, baixinho, a voz de Amália. Canta Uma casa portuguesa, bem a propósito. No Panteão Nacional, diz um dos funcionários da guardaria, ouve-se sempre a fadista e música barroca. “Ninguém estranha”, garante, “porque há turistas que vêm para ver o monumento e outros que vêm só à procura da Amália, muitos até para lhe deixarem flores”.
Na sala onde está o seu túmulo de mármore, a mesma dos escritores Almeida Garrett, Guerra Junqueiro e João de Deus, há quem se encarregue de nunca deixar secar as flores que lhe oferecem. Das dez figuras que têm os restos mortais na Igreja de Santa Engrácia, em Lisboa, só Amália e Sidónio Pais, o Presidente da República assassinado em 1918, as recebem.
A escala da igreja hoje dessacralizada é monumental e sente-se sobretudo no interior solene, decorado com mármores de várias cores. Não há símbolos religiosos no altar e o espaço mais nobre parece uma enorme praça feita para passear. É difícil imaginar o edifício como depósito de armamento e fábrica de sapatos do Exército (século XIX e começo do XX). A sua história é atribulada e inclui uma igreja primitiva destruída por uma tempestade, uma lenda à volta de um amor proibido e até uma maldição. Acredite-se ou não nestas duas últimas, certo é que este templo barroco que muitos historiadores de arte consideram único esperou séculos para ser concluído e esteve praticamente os últimos 100 anos – foi destinado a Panteão Nacional em 1916 – entre os holofotes do Estado Novo, que fizeram dele um instrumento de propaganda, e um certo esquecimento, aparentemente incapaz de medir forças com o Mosteiro dos Jerónimos, monumento que muitos portugueses vêem ainda como o verdadeiro panteão.
“Como os restos mortais de Camões, de Vasco da Gama e de Alexandre Herculano se mantiveram em Belém, os Jerónimos continuaram a funcionar como um panteão de facto”, explica ao PÚBLICO Fernando Catroga, catedrático da Universidade de Coimbra que tem vindo a especializar-se, entre outros assuntos, no laicismo e no republicanismo. “Como o mais alto altar cívico da pátria.”
Se o panteão de Santa Engrácia está hoje um pouco mais presente no imaginário nacional, deve-o, diz a sua directora, Isabel Melo, a Amália Rodrigues, a fadista que morreu em 1999 e que para lá foi trasladada em 2001, numa cerimónia a que assistiram milhares de pessoas. Passará a devê-lo também e em breve à escritora Sophia de Mello Breyner Andresen, que será a próxima e ainda este ano a receber esta honra de Estado, depois de os vários grupos parlamentares terem chegado a acordo no final do ano passado, soube-se na sexta-feira. 
A decisão de quem deve figurar no Panteão Nacional “é sempre política”, diz Maria João Neto, professora de História de Arte da Faculdade de Letras de Lisboa, que tem dedicado parte da sua investigação à evolução do monumento e às suas relações com os vários regimes, primeiro com a monarquia liberal, depois com a República, o Estado Novo e a democracia. Qualquer escolha feita até aqui deu origem a polémica, lembra, “porque estas figuras de Estado são pessoas e, como tal, não são perfeitas”. Guerra Junqueiro, exemplifica, foi um arauto do republicanismo, mas é por muitos visto como um instigador do regicídio de 1908.
No caso de Amália, situação que agora se repetiu com Eusébio, à decisão política juntou-se “uma forte pressão popular”, acrescenta a directora do monumento, garantindo que boa parte do seu trabalho passa por demonstrar que “o panteão não é um lugar de celebração da morte, mas de celebração da vida”, e que está longe de ter a atenção que merece, apesar do número crescente de visitantes. Em 2013 teve 72 mil, cerca de 70% dos quais estrangeiros. O público, garante, tem aumentado de forma constante desde a chegada de Amália.
“É preciso que haja uma relação emocional com quem aqui está para que haja um sentimento de pertença. Não se pode amar ou acarinhar um panteão sem isso. Creio que essa relação só se começou a construir verdadeiramente em 2001.”
Uma maldição lendária
A igreja primitiva, da qual nada resta hoje, foi erguida em 1568 por vontade da infanta D. Maria (1521-1577), filha de D. Manuel I, e praticamente destruída durante uma tempestade, em 1681. No ano seguinte lançou-se a primeira pedra do actual edifício – para muitos uma jóia do barroco português de influência italiana, com projecto do mestre João Antunes –, que só viria a ser concluído em 1966, por ordem expressa do então Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar. Tinham passado 284 anos.
A expressão popular “obras de Santa Engrácia”, usada por referência a algo que tarda em acabar, é apenas um dos dados da tradição associados à igreja. Outro é Simão Solis, o cristão-novo que em 1630 foi acusado de profanar o templo, roubando as hóstias guardadas no relicário da capela-mor. Diz a lenda que Solis, visto a rondar a igreja na noite do assalto, com as patas do cavalo em que seguia embrulhadas em panos para que não fizessem barulho, jurou até à morte que era inocente. Antes de ser queimado vivo no Campo de Santa Clara, lançou uma maldição à igreja ainda em construção, dizendo: “É tão certo morrer inocente como as obras nunca mais acabarem!”
O verdadeiro assaltante foi identificado mais tarde, vindo a descobrir-se por que razão Solis nunca quis dizer o que fazia junto a Santa Engrácia naquela noite – esperava que Violante, filha de um fidalgo e noviça no Convento de Santa Clara, viesse ao seu encontro para que fugissem juntos.
Entre a destruição da igreja primitiva e a inauguração em missa solene com o cardeal Cerejeira – uma das pouquíssimas missas celebradas em Santa Engrácia –, muitas foram as tentativas para concluir o templo, algumas falhadas por falta de verbas. Nesse período não se pensava, no entanto, noutra função que não a de igreja.
O panteão e a lei
Nem mesmo a monarquia liberal, no quadro da qual é criado o Panteão Nacional (Decreto de Passos Manuel, de 26 de Setembro de 1836), define para ele um local. O regime de então queria guardar solenemente “‘as cinzas dos grandes homens’ que se tinham sacrificado na revolução de 1820”, sublinha o historiador Fernando Catroga, acrescentando que a este objectivo se associava outro, o da “reparação do esquecimento a que, há séculos, estava votado o maior de todos os portugueses: Camões”. O escritor Almeida Garrett (1799-1854), que quis vê-lo sepultado nos Jerónimos, foi o mais acérrimo defensor da homenagem ao autor de Os Lusíadas, que eram lidos nas últimas décadas do século XIX como “uma espécie de bíblia da aventura portuguesa no mundo”.
Garrett comparava o mosteiro ao panteão inglês da Abadia de Westminster – onde hoje estão sepultados escritores e e homens de ciência como Shakespeare, Spenser, Tennyson, Dickens, Darwin e Newton – e não com a Igreja de Santa Genoveva, o panteão francês.
Os primeiros “panteonizáveis” neste quadro que se segue ao enaltecimento da figura de Luís de Camões, continua Catroga, são inseparáveis de uma visão que acredita no progresso e rejeita o culto do passado. Procura-se enaltecer “os que melhor exprimiam um pulsar colectivo, não tanto os políticos e os militares, mas, sobretudo, os intelectuais e, entre estes, os poetas”. Numa primeira fase, os eleitos são, assim, “oriundos da ‘República das Letras’, onde o escritor emergia, cada vez mais como um clérigo laico”. Depois de Camões honraram-se nos Jerónimos Alexandre Herculano, João de Deus e o próprio Garrett.
Sublinha ainda o professor de Coimbra, “para quem exageram os que republicanizam em excesso a origem do culto panteónico português”, que na I República o panteão continua a ser os Jerónimos. Só mais tarde, com a Lei n.º 520, de 29 de Abril de 1916, se destina para estas funções o “incompleto templo de Santa Engrácia”, monumento nacional desde 1910. Mas entre esta data e a da sua inauguração passa meio século.
Bandeira do Estado Novo
Vencendo quase 300 anos de espera, Salazar quis ver o edifício terminado em apenas dois - faltava a cúpula que hoje marca aquela zona da cidade, quando se olha a colina a partir do rio – numa grande operação de propaganda de um regime que enfrentava já grandes dificuldades, explica Maria João Neto.
“Salazar transforma a conclusão do panteão numa manobra de propaganda, propondo-se acabar em dois anos o que não se tinha conseguido acabar em séculos”, sublinha, mostrando, como diria o ministro das Obras Públicas no discurso de inauguração, “que o Estado Novo era capaz de ‘pulverizar mitos’, como o da obra inacabada”. Era, por isso, mais importante terminar o edifício do que pensar em quem iria ocupá-lo. “O conceito e o programa do panteão ficaram claramente em segundo plano, porque a discussão se adensou e a comissão criada [em 1965] para a obra não conseguia chegar a conclusões.”
O Marquês de Pombal, a rainha D. Leonor, o Padre António Vieira, o poeta Fernando Pessoa e o escritor Eça de Queirós foram considerados, mas não chegaram ao panteão. A comissão acordou em seis grandes figuras históricas a ocupar os mausoléus no topo dos braços do transepto (o espaço mais nobre) – Camões, Vasco da Gama, D. Nuno Álvares Pereira, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque e o Infante D. Henrique –, mas, para evitar a trasladação destes corpos, que poderia vir a desagradar à opinião pública, optou-se por evocar a sua memória através de cenotáfios (monumentos fúnebres sem a presença dos restos mortais).
Foi Salazar, acrescenta a também comissária científica do livro Obras de Santa Engrácia, quem desbloqueou a situação, decidindo que iriam para o novo panteão figuras que já estavam provisoriamente sepultadas no Mosteiro dos Jerónimos. Da antiga sala do capítulo saíram, assim, três presidentes da República (Teófilo Braga, Sidónio Pais e Óscar Carmona) e outros tantos escritores (Almeida Garrett, João de Deus e Guerra Junqueiro).
“É curioso ver que o Estado Novo, que tanto enaltecia a história e as suas figuras, não ‘panteoniza’ ninguém. Os que escolhe vêm já de uma sepultura nobre que muitos portugueses consideram ser ainda o verdadeiro panteão nacional”, diz a professora de História de Arte. Esta relação com as homenagens aos “grandes homens” do país durante a consolidação do regime de Salazar, que dá maior relevo a panteões como a Batalha e S. Vicente de Fora, pode explicar-se, avança Catroga, com a “recatolicização da educação cívica e moral, [que] convidada à secundarização de práticas de matriz liberal e republicana”.
Desde a sua inauguração em 1966, o panteão recebeu apenas os restos mortais do general Humberto Delgado (1990), de Amália, de Manuel Arriaga, primeiro Presidente da República (2004), e de Aquilino Ribeiro (2007).
Foi preciso esperar por 2000 – um ano depois da morte de Amália – para que se vissem definidas as actuais honras do panteão. A Lei n.º 28 estipula que estas têm por objectivo “homenagear e perpetuar a memória dos cidadãos que se distinguiram por serviços prestados ao país, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade”.
É justamente este parágrafo que Maria João Neto defende que deve ser revisto para que Eusébio da Silva Ferreira entre, “sem margem para dúvidas”, no panteão. Gostaria de ver nele acrescentado algo que se referisse a feitos desportivos.
Ainda que o paradigma do mérito literário nunca tenha deixado de pairar sobre o panteão – Sophia está aí para o confirmar –, a ida de Amália para Santa Engrácia, a que se seguirá a de Eusébio, reflecte, na opinião de Catroga, um “alargamento dos critérios definidores da grandeza da figura a ser consagrada”, passando a abranger “personalidades produtoras e produtos da cultura de massas dos nossos dias”. Têm, continua o historiador, “um forte poder de mediatização e de transformação icónica e iconolátrica e dir-se-ia que já estão panteonizados, mesmo antes de entrarem em qualquer panteão”.
Para os dois historiadores, os panteões são uma forma de revivificar actos heróicos ou percursos de mérito capazes de ligar as pessoas a um destino histórico comum, numa sociedade que não pode viver sem mitos e símbolos. Mas os heróis de Santa Engrácia e de outros panteões, de facto, são sempre produto do seu tempo e das suas circunstâncias. “Estas dez personalidades que estão em Santa Engrácia não falarão a todos da mesma maneira, estão longe de serem consensuais. É sempre discutível quem deve ir para um panteão nacional”, conclui Maria João Neto. “A própria ideia de entronizar heróis é discutível. Poucas coisas na história não são.”
Fonte: Público
A grande cúpula que domina o rio
 
Ainda como fábrica de sapatos
 
Aspecto geral do Panteão