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segunda-feira, 10 de julho de 2017

10 de Julho de 1902: É inaugurado o Elevador de Santa Justa, obra do engenheiro Raul Mesnier de Ponsard.

Do topo do elevador, inaugurado em 1902, descobre-se toda a Baixa lisboeta e o Castelo de São Jorge. Situado em pleno coração pombalino da cidade de Lisboa, o Elevador de Santa Justa é um verdadeiro ex-líbris da capital portuguesa, tornando-se visita obrigatória para qualquer turista que se desloque a Portugal. 

O Elevador de Santa Justa é um transporte público da era da arquitectura do ferro, subindo da Rua de Santa Justa, na Baixa, ao Largo do Carmo, sendo actualmente o único ascensor vertical na cidade, desde que, em 1915, desapareceu o da Biblioteca. A sua construção foi licenciada em 6 de Julho de 1899, com o projecto pioneiro a cargo do engenheiro francês R. Mesnier de Ponsard, ficando a obra a cargo da empresa Elevadores do Carmo.A sua inauguração ocorreu a 10 de Julho de 1902 tendo, à época, sido apelidado de Ascensor Ouro-Carmo. Nos primeiros anos do seu funcionamento era movido a vapor, passando, a 6 de Novembro de 1907 a ser accionado por energia eléctrica. A diferença de nível entre o piso da estação inferior (Rua de Santa Justa, na Baixa) e o da superior (Rua do Carmo) é de trinta metros. Em Junho de 1902 ensaiaram-se máquinas e cabines e no mês seguinte, a 10 de Julho, o elevador inaugurou o serviço público. Nesse dia a chuva e a trovoada abateram-se sobre a cidade, mas nem mesmo assim esfriou o entusiasmo e a curiosidade de quantos quiseram experimentar o novo transporte ou apenas admirar o panorama. Era meio-dia quando, sob o olhar atento da multidão, se procedeu à experiência definitiva com as cabines transportando para a estação superior grande número de convidados e de representantes da imprensa. Pouco depois chegava o Secretário-geral do Governo Civil, Dr. Alberto Cardoso de Menezes, para presidir à cerimónia a qual teve lugar de imediato. Nessa ocasião, uma banda instalada no terraço do prédio do Conde de Tomar executou o hino nacional enquanto no ar subiam girândolas de foguetes.

O vistoso elevador de Santa Justa tem uma estrutura em ferro construída por viaduto metálico de 25 metros, apoiado ao meio num pilar de betão armado e, num dos extremos, numa torre metálica de 45 metros de altura. É fácil, assim, perceber a emoção que se sente durante os escassos minutos da lenta viagem, rumo aos céus. Mas quando se sai, quando as portas se abrem e o vento fresco acaricia a cara, é um mar de beleza que temos pela frente.
Fontes:http://www.visitlisboa.com/
wikipedia (imagens)
Elevador de Santa Justa - Fotografia do início do século XX
Elevador de Santa Justa

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Estado Islâmico destrói o milenar Arco do Triunfo de Palmira

O autoproclamado Estado Islâmico parece ter destruído mais um monumento milenar em Palmira. Os extremistas detonaram o Arco do Triunfo, uma das principais construções da era romana na cidade que foi conquistada pelos extremistas islâmicos em Maio.
A notícia foi transmitida no domingo à Reuters pelo director-geral das Antiguidades e Museus na Síria, Maamoun Abdulkarim, sediado em Damasco, e mais tarde confirmada por activistas à AFP e ao Observatório Sírio dos Direitos Humanos.
A confirmarem-se estas informações, o Arco do Triunfo de Palmira, erguido no século I, tem agora o mesmo destino dos dois principais monumentos na cidade milenar, os templos de Bel e de Baal Shamin, detonados em Agosto pelo autoproclamado Estado Islâmico, e de três das suas mais bem preservadas torres funerárias, destruídas em Setembro.  
“É como se uma maldição se tivesse apoderado desta cidade”, afirmou Abdulkarim à Reuters. Se os jihadistas continuarem no poder em Palmira, assegura, “a cidade está condenada”.
Os extremistas têm usado a cidade como palco mediático. O grupo não tolera símbolos de culturas e religiões que não sejam do islão, o que considera apostasia, e está agora a servir-se da importância arqueológica e cultural de Palmira para o afirmar com impacto.
A riqueza de Palmira, Património Mundial da UNESCO e um dos mais importantes locais históricos no Médio Oriente, no passado um ponto fundamental na Rota da Seda, deve-se em grande medida às influências de várias religiões e à sua arquitectura greco-romana com influências persas.
O Estado Islâmico capturou a cidade em Maio ao Exército sírio, que diz ter levado consigo centenas de estátuas antes de bater em retirada. Os aviões de Bashar al-Assad, agora mais eficazes com o armamento dado pela Rússia, bombardearam várias posições do grupo extremista nas últimas semanas de Setembro.
Irina Bokova, directora-geral da UNESCO, disse depois da destruição do templo de Baal Shamin que as acções do Estado Islâmico em Palmira são um “crime de guerra”. “Peço à comunidade internacional que se erga unida contra esta persistente limpeza cultural”, disse então a responsável. 

 Fonte: Público
O Arco do Triunfo de Palmira, uma das principais construções da era romana em Palmira, agora destruído

sexta-feira, 10 de julho de 2015

10 de Julho de 1902: É inaugurado o Elevador de Santa Justa, obra do engenheiro Raul Mesnier de Ponsard.

Do topo do elevador, inaugurado em 1902, descobre-se toda a Baixa lisboeta e o Castelo de São Jorge. Situado em pleno coração pombalino da cidade de Lisboa, o Elevador de Santa Justa é um verdadeiro ex-líbris da capital portuguesa, tornando-se visita obrigatória para qualquer turista que se desloque a Portugal. 

O Elevador de Santa Justa é um transporte público da era da arquitectura do ferro, subindo da Rua de Santa Justa, na Baixa, ao Largo do Carmo, sendo actualmente o único ascensor vertical na cidade, desde que, em 1915, desapareceu o da Biblioteca. A sua construção foi licenciada em 6 de Julho de 1899, com o projecto pioneiro a cargo do engenheiro francês R. Mesnier de Ponsard, ficando a obra a cargo da empresa Elevadores do Carmo.A sua inauguração ocorreu a 10 de Julho de 1902 tendo, à época, sido apelidado de Ascensor Ouro-Carmo. Nos primeiros anos do seu funcionamento era movido a vapor, passando, a 6 de Novembro de 1907 a ser accionado por energia eléctrica. A diferença de nível entre o piso da estação inferior (Rua de Santa Justa, na Baixa) e o da superior (Rua do Carmo) é de trinta metros. Em Junho de 1902 ensaiaram-se máquinas e cabines e no mês seguinte, a 10 de Julho, o elevador inaugurou o serviço público. Nesse dia a chuva e a trovoada abateram-se sobre a cidade, mas nem mesmo assim esfriou o entusiasmo e a curiosidade de quantos quiseram experimentar o novo transporte ou apenas admirar o panorama. Era meio-dia quando, sob o olhar atento da multidão, se procedeu à experiência definitiva com as cabines transportando para a estação superior grande número de convidados e de representantes da imprensa. Pouco depois chegava o Secretário-geral do Governo Civil, Dr. Alberto Cardoso de Menezes, para presidir à cerimónia a qual teve lugar de imediato. Nessa ocasião, uma banda instalada no terraço do prédio do Conde de Tomar executou o hino nacional enquanto no ar subiam girândolas de foguetes.

O vistoso elevador de Santa Justa tem uma estrutura em ferro construída por viaduto metálico de 25 metros, apoiado ao meio num pilar de betão armado e, num dos extremos, numa torre metálica de 45 metros de altura. É fácil, assim, perceber a emoção que se sente durante os escassos minutos da lenta viagem, rumo aos céus. Mas quando se sai, quando as portas se abrem e o vento fresco acaricia a cara, é um mar de beleza que temos pela frente.
Fontes:http://www.visitlisboa.com/
wikipedia (imagens)
Elevador de Santa Justa - Fotografia do início do século XX
Elevador de Santa Justa

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Já se chora pela perda de Palmira ainda antes de o Estado Islâmico a destruir

Palmira era uma cidade-oásis no deserto sírio, uma paragem obrigatória na rota da seda. Hoje, os combatentes do Estado Islâmico (EI) estão apenas a um quilómetro destas ruínas com 2000 anos, onde se misturam influências gregas, romanas, persas e islâmicas. “É preciso proteger Palmira e fazer tudo para impedir a sua destruição”, apela a desesperada directora da UNESCO.
A aviação do Presidente Bashar al-Assad bombardeou os arredores da cidade, cujas ruínas arqueológicas foram inscritas na lista de património da Humanidade em 1980. Foram também “enviados reforços militares para a cidade para Tadmor” – o nome da cidade em árabe –, disse à AFP Abdel Rahmane, director do Observatório Sírio dos Direitos do Homem, uma organização com informadores no terreno.
O grupo jihadista estará a apenas um quilómetro de Palmira, famosa pelas suas colunas romanas, os seus templos e torres funerários que são testemunha de um passado glorioso, quando os seus palmeirais de tâmaras a tornavam um ponto de paragem obrigatório para as caravanas entre o Golfo Pérsico e o Mediterrâneo e os viajantes que faziam a longa rota da seda, para Oriente. Era então conhecida como “a pérola do deserto”. Com a conquista romana, atingiu o seu auge, mas, com o declínio do império, ousou mesmo desafiar o domínio de Roma: no século III, a rainha Zenóbia declara a independência e conquista toda a Síria, uma parte do Egipto e até à Ásia Menor. Mas o imperador Aureliano retoma Palmira e leva Zenóbia como refém.
Petróleo e gás natural

Só que, hoje, a cidade tem valor como alvo militar. Naquela zona existem importantes depósitos de armas e aquartelamentos de forças governamentais e possivelmente também iranianas, além de um aeroporto militar. Por outro lado, acrescenta o site Syria Direct, uma organização jornalística sem fins lucrativos sírio-americana, para dominar os campos de exploração de gás natural e petróleo vizinhos, é importante controlar a cidade de Palmira – onde vivem cerca de 35 mil pessoas, 100 mil contando com os seus subúrbios, segundo Talal Barazi, o governador da província de Homs, este citado pela AFP.

O avanço sobre Palmira dá ao Estado Islâmico um maior controlo sobre a via rápida que passa nesta cidade e conduz até à província de Deir al-Zour, a Oriente, e ao campo de extracção de gás natural, diz ainda o New York Times.
Os combates já fizeram pelo menos 138 mortos – 73 soldados e 65 jihadistas, segundo Abdel Rahmane – e 26 sírios foram executados pelo EI sob a acusação de serem colaboradores do regime.
Para além da violência sobre as pessoas, teme-se uma repetição das destruições que o grupo terrorista já fez no Iraque, a golpes de marreta ebulldozer, nas cidades da antiga Mesopotâmia de Hatra (uma cidade do período romano com cerca de 2000 anos) e Nimrud (uma cidade do Império Assírio, com 3000 anos).
Na Síria, os jihadistas já fizeram estragos noutros sítios arqueológicos, enumera a AFP: destruíram dois leões assírios em Raqqa, a cidade da qual o grupo fez sua capital, e fizeram escavações clandestinas, por vezes combulldozers, em Mari, Doura Europos, Apamé, Ajaja e Hamam Turkoman. Apesar de considerarem a arte pré-islâmica como idólatra – e por isso a destruírem –, os terroristas do EI pilham os sítios arqueológicos para venderem clandestinamente os objectos mais pequenos e assim financiarem as suas actividades e a guerra contra o regime de Assad.
“Se o Estado Islâmico entrar em Palmira, será a sua destruição”, disse à AFP Maamoun Abdelkarim, director das Antiguidades e Museus Sírios, que apela à mobilização da comunidade internacional para impedir o que seria “uma catástrofe internacional”.
Os artefactos que estão guardados num museu no sítio arqueológico de Palmira, que foram sendo escavados ao longo dos anos, serão colocados num sítio seguro. “Podemos proteger estátuas e artefactos, mas não a arquitectura, os templos”, afirmou Abdelkarim.
Mas o Governo de Damasco não tem grande crédito nesta área: o avanço dos jihadistas está acontecer ao mesmo tempo que decorre no Cairo uma conferência internacional sobre a destruição já feita pelos jihadistas, em Nimrud e Hatra. Abdelkarim reconheceu ao Guardian que não tinha sido convidado nem contactado por ninguém ligado à conferência, onde estava a directora da UNESCO e vários países árabes da região, nem sequer para falar sobre os riscos que Palmira corre.
No Iraque, Ramadi está quase a cair

Os jihadistas do grupo EI tomaram o principal complexo governamental em Ramadi, garantindo assim o controlo quase total da capital da província de Anbar no Oeste do Iraque.

“O Daech (acrónimo árabe do EI) ocupa o complexo governamental de Ramadi e já içou a sua bandeira no quartel-general da polícia de Anbar”, disse à AFP um alto responsável da polícia que não se quis identificar.
Do lado dos jihadistas, o EI difundiu um comunicado em que afirma que os seus combatentes tinham “tomado de assalto o complexo governamental no centro de Ramadi, morto os renegados e feito explodir os edifícios do Governo de Anbar e do quartel-general da polícia safávida” antes de assumir o controlo.
“Safávida” é um termo pejorativo utilizado pelos sunitas do EI que subentende uma ligação entre as forças governamentais e as forças militares do Irão xiita. Por “renegados”, o grupo designa os combatentes das tribos sunitas que se aliaram ao Governo. A comunidade xiita é maioritária no Iraque.
Um chefe tribal que fazia a coordenação entre as forças locais e o exército iraquiano disse que “as únicas forças governamentais que continuam a combater estão confinadas a pequenas bolsas em Ramadi e já sem nenhum posto de comando”. A BBC refere que pelo menos 50 combatentes governamentais terão sido feitos reféns e que o complexo foi tomado pelos jihadistas depois de terem feito explodir seis carros-bomba com suicidas ao volante.
Se os radicais do EI conseguirem manter as suas posições em Ramadi, passam a controlar as capitais das duas maiores províncias do Iraque. Mossul, a capital da província de Níneve, vizinha de Anbar, está nas mãos os jihadistas desde Junho.

 Fonte: Público

Teatro na cidade de Palmira, numa foto de arquivo 

sexta-feira, 6 de março de 2015

Extremistas avançam com bulldozers sobre cidade milenar de Nimrud


Os extremistas do autodesignado Estado Islâmico estão a levar cada vez mais longe a onda de destruição do passado histórico do Iraque. Depois do ataque ao Museu de Mossul, um dos mais importantes do Médio Oriente, ter levado militantes a partirem com martelos, picaretas e berbequins esculturas e frisos milenares, chega agora a vez da cidade assíria de Nimrud, com 3000 anos.
Segundo as autoridades iraquianas, citadas pela imprensa internacional, os jihadistas avançaram sobre este sítio arqueológico nas margens do Rio Tigre, a sul de Mossul, a segunda maior cidade do país, com bulldozers, arrasando várias estruturas.
Nimrud, assim chamada em homenagem ao rei Nimrod, caçador lendário que a Bíblia refere, é um dos principais pólos da antiga Mesopotâmia, tida com um dos berços da civilização, formando com as cidades reais de Nínive e Hatra um triângulo patrimonial de referência. Foi fundada por volta de 1250 a.C. e, quatro séculos mais tarde, tornou-se a capital do império assírio, o mais poderoso do seu tempo, com um território que abarca o que é hoje o Egipto, a Turquia e o Irão.
Os motivos que os extremistas evocam para a destruição em Mossul e na velha Nimrud são os mesmos: as estátuas dos acadianos – povos, como os assírios e babilónicos, que falavam acádio, língua da Mesopotâmia que usava a escrita cuneiforme e é uma das mais antigas do mundo - são vistas como blasfemas, já que são o reflexo de que, no passado, esta região já adorou “ídolos”, desrespeitando o Profeta.
Foi o ministro do Turismo e das Antiguidades que, segundo a agência de notícias francesa, AFP, deu o alerta, garantindo, na quinta-feira, que o grupo terrorista atacara “a cidade histórica de Nimrud, demolindo-a com veículos pesados”. Os extremistas, acrescentou, “continuam a afrontar a vontade do mundo e os sentimentos da humanidade”, escreveu na sua página na rede social Facebook, de acordo com o jornal The Independent.
Outro responsável pelo património, que preferiu manter o anonimato, precisou que o ataque começou depois das orações do meio-dia e que, além dos bulldozers, os militantes levaram camiões para poderem transportar as esculturas mais pequenas, que foram capazes de destacar dos muros e paredes do sítio arqueológico. O tráfico de antiguidades, recorde-se, foi já identificado como uma das fontes de financiamento destes extremistas.
A destruição foi também confirmada, desta vez à agência Reuters, por uma fonte tribal: “Os membros do EI vieram à cidade arqueológica de Nimrud e saquearam tudo o que havia de valor e depois continuaram, arrasando todo o sítio. (…) Havia estátuas e paredes, assim como um ‘castelo’ que o Estado Islâmico destruiu por completo.”
Ainda que a destruição levada a cabo pelo grupo terrorista possa comparar-se à implosão dos budas de Bamiyan, levada a cabo pelos taliban no Afeganistão, em 2001, muitos arqueólogos têm vindo a defender que, no seu ataque ao património, o autoproclamado Estado Islâmico tem sido mais rápido, implacável e abrangente do que os “estudantes de teologia”, lembra esta sexta-feira o jornal britânico The Guardian.
É ainda cedo para determinar a amplitude do ataque, disse à televisão Al-Jazira outro funcionário ligado às antiguidades, embora haja já relatos de que os portões do palácio do rei assírio Ashurnasirpal II foram esmagados. Estes portões são formados por esculturas icónicas que se podem encontrar em cidades como Persépolis e nalgumas das mais importantes colecções do mundo, como as dos museus Britânico, em Londres, do Louvre, em Paris, ou do Metropolitan de Nova Iorque – os lamassu são divindades assírias, representadas com corpo de leão ou de touro, asas de águia e rosto humano. Para os jihadistas promovem a idolatria.
A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO, na sigla em inglês) já classificou este ataque como um “crime de guerra”, apelando a que “todos os responsáveis políticos e religiosos da região se levantem contra esta nova barbárie”.
Ao diário francês Le Monde, Abdelamir Hamdani, arqueólogo iraquiano da Universidade de Stony Brook, em Nova Iorque, disse estar “chocado” com o que aconteceu em Nimrud, mas não surpreendido. Para Hamdani é certo que os extremistas farão o mesmo em Hatra, “é so uma questão de tempo": "Lamento dizê-lo, mas o mundo já estava à espera. O objectivo dos jihadistas é destruir o património iraquiano, sítio após sítio.”

O Iraque a Síria têm sido particularmente visados nos ataques ao património nos últimos anos. Sendo que, lembram especialistas dos museus europeus e americanos, a destruição de artefactos e sítios arqueológicos nesta região do Médio Oriente compromete uma herança comum, já que boa parte da história da civilização passa pelas cidades acadianas. Entre os ataques mais graves está a invasão do Museu de Bagdad, em 2003, que levou à perda irremediável de milhares de artefactos e documentos que terão inundado o mercado negro de antiguidades; o ataque sistemático à Cidade Velha de Alepo, património da humanidade, e agora Mossul e Nimrud.
Fonte: Público
Um animal alado com rosto humano, símbolo da força da civilização assíria, no sítio arqueológico de Nimrud, em 2001

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Obra em Fafe revela um dos monumentos funerários mais antigos do Norte do país

Durante a construção da subestação da REN em Fafe, no distrito de Braga, foram descobertos dois monumentos funerários megalíticos, designados mamoas, pequenos montículos revestidos por uma couraça de terra e pedras, cuja forma lembra um seio feminino. Uma dessas mamoas terá sido construída há mais de 4000 anos, sendo a mais antiga identificada e datada na zona Norte do país.
O concelho é rico em vestígios arqueológicos – entre os quais está o Castro de Santo Ovídio, um dos mais afamados. Só no Monte de S. Jorge, onde foi construída a subestação da REN (a funcionar desde 30 de Dezembro de 2014), na fronteira entre as freguesias de Armil e Cepães, existem pelo menos mais 12 mamoas, que compõem a Necrópole Megalítica de S. Jorge, mas há muitas outras espalhadas pelo território, identificadas na carta arqueológica.
No entanto, “são poucos os monumentos completamente escavados e estudados”, diz Gabriel Pereira, um dos arqueólogos da equipa multidisciplinar que acompanhou os trabalhos da REN.
Uma das mamoas agora encontradas, a mamoa 2 da Regedoura, fica dentro do perímetro da subestação e por isso não foi preservada. “Foi feita a escavação completa para registo e memória futura, acompanhada pela Direcção-Geral do Património Cultural”, afirma Francisco Parada, director do Departamento de Qualidade e Segurança da REN. Os dados recolhidos darão origem a um relatório, que será entregue à tutela e à autarquia.
O estudo deste monumento permitiu situar a data de construção entre 2468 antes de Cristo (a.C.) e 2332 a.C., no início da Idade do Bronze, o que faz dele um dos mais antigos da zona Norte. “Devido à plantação de eucaliptos, o interior da câmara funerária estava mal conservado”, explica Gabriel Pereira. Mesmo assim, foi possível perceber alguns pormenores sobre a construção: após uma queimada para limpeza do local, foi desmontada a fraga rochosa, da qual resultaram pedras utilizadas na construção do montículo.
Pelas dimensões reduzidas da mamoa 2 (cerca de sete metros de diâmetro e cerca de 60 centímetros de altura), que a tornam quase imperceptível na paisagem, os arqueólogos concluem que terá albergado apenas um ou dois indivíduos. Seria um monumento fechado, de planta circular, com uma câmara de tipo cistóide (com pedras ou alto ou na horizontal, em forma rectangular) ou poligonal (com mais do que seis pedras, maiores). Os investigadores acreditam que a mamoa terá sido saqueada na época romana.
No local foram encontrados ainda alguns objectos de cerâmica, um braçal de arqueiro, um amolador e o fragmento de uma ponta de seta em cobre, materiais habitualmente depositados nas sepulturas.
Já no exterior do perímetro da subestação foi encontrada outra mamoa, maior, com cerca de dez metros de diâmetro, supostamente colectiva. Segundo o Gabriel Pereira, a zona envolvente foi limpa e foi feito um registo gráfico do estado actual do monumento. O objectivo é preservá-lo, para que possa ser visitado e, eventualmente, escavado no futuro.
“Vamos colocar uma placa identificativa para que as pessoas possam perceber o que ali está”, diz Francisco Parada, da REN. A Câmara de Fafe quer “ir um pouco mais além”, segundo o vereador da Cultura, Pompeu Martins. “Gostávamos de ter ali um parque arqueológico, visitável”, explica. A autarquia está actualmente a rever o Plano Director Municipal (PDM) de forma a garantir a protecção das mamoas e da zona envolvente.
Nos últimos anos, a pressão urbanística e a reflorestação – sobretudo de vinhas e eucaliptos – levaram à destruição de alguns monumentos do concelho. O executivo liderado pelo socialista Raul Cunha quer travar esse processo promovendo o conhecimento da população sobre o património arqueológico do concelho. “A nossa intenção é fazer uma série de sessões de esclarecimento nas freguesias”, diz Pompeu Martins, sublinhando que “só se protege o que se conhece”.
Este ano a câmara vai dedicar especial atenção ao Castro de Santo Ovídeo, classificado como imóvel de interesse público, situado no monte homónimo. “Vamos cuidar das ruínas, que já estão a descoberto, para evitar derrocadas, e fazer uma prospecção no monte para percebermos o que pode ser feito em termos de planeamento”, afirma o vereador. O povoado fortificado foi construído na Idade do Ferro e depois reaproveitado pelos romanos. No século XIX foi ali encontrada uma estátua de guerreiro, que se encontra exposta no Museu da Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães.
Além disso, a autarquia está a formalizar o pedido de integração na Rota do Românico, que engloba 12 concelhos dos vales do Sousa, Tâmega e Douro. O argumento principal é a Igreja de São Romão de Arões, um templo rural do século XII de arquitectura românica e cunho gótico, o único monumento nacional do concelho.
Fonte: Público
Por se encontrar dentro do perímetro da subestação, a mamoa 2 da Regedoura não pôde ser preservada

 

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Carta de abolição da pena de morte e biblioteca da Universidade de Coimbra recomendadas para Património Europeu


A carta de lei de abolição da pena de morte em Portugal, datada de 1867, e a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra estão entre os 16 bens culturais – documentos ou sítios – recomendados por um painel de peritos para receberem o Selo do Património Europeu 2014.
Esta é uma iniciativa criada em 2011 pela União Europeia (EU) com o objectivo de reconhecer bens que “contribuíram para a história e cultura europeias e/ou constituição da União” e cuja dimensão europeia continua a ser valorizada nos dias de hoje. Esta é apenas a segunda edição da iniciativa, que arrancou em 2013, e à qual se submeteram 36 candidaturas de 13 Estados-membro da EU, incluindo Portugal.
A decisão final será tomada pela Comissão Europeia em Março de 2015, mas como explicou ao PÚBLICO Silvestre Lacerda, director do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, onde se encontra a carta de lei de abolição da pena de morte, “normalmente a Comissão Europeia não rejeita as recomendações” do painel de peritos.
As candidaturas são pré-seleccionadas a nível nacional e cada país pode apresentar o máximo de quatro. Portugal submeteu três candidaturas e uma delas, o Convento de Jesus, em Setúbal, onde foi assinado o Tratado de Tordesilhas em 1494, foi recusada pelo painel de peritos por não corresponder aos critérios de relevância europeia consagrados no documento que estabeleceu o Selo do Património Europeu (Decisão 1194/2011/EU).
O relatório de avaliação do painel de especialistas nota que a pena de morte já tinha sido abolida antes, em San Marino e Turim (onde voltou a ser reintroduzida, mais tarde), mas que a carta de lei abolindo a pena de morte em Portugal, ratificada por D. Luís em 1867, constitui “um caso atípico” porque o rei foi “guiado por princípios humanistas”. Nesse documento, que aprova a reforma penal e das prisões, é decretada a abolição da pena de morte e a sua substituição por pena de “prisão celular perpétua”. À época, o escritor francês Vítor Hugo escreveu uma carta congratulando Portugal como um país pioneiro na adopção dessa medida. A candidatura que foi apresentada compromete a Torre do Tombo a levar a cabo uma série de actividades de divulgação do documento, nomeadamente a sua tradução noutras línguas da EU, exposições, digitalização e programas para escolas.
Quanto à Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, fundada há 500 anos, o relatório do painel de peritos reconhece o seu pioneirismo: foi uma das primeiras bibliotecas na Europa a permitir o acesso público ao seu acervo e a organizá-lo em catálogos por temas para consulta, além de ter disponibilizado livros proibidos durante o Estado Novo.
Da lista de sítios patrimoniais recomendados para receber o Selo do Património Europeu 2014 constam o centro histórico de Atenas, a abadia de Cluny em França, ou o estaleiro naval de Gdansk, palco das manifestações que levariam ao fim do regime comunista na Polónia no arranque da década de 1980.
No ano passado, a Universidade de Coimbra, onde está incluída a biblioteca joanina, parte da biblioteca geral, foi classificada como Património da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

 Fonte: Público
Neste documento, que aprova a reforma penal e das prisões, é decretada a abolição da pena de morte e a sua substituição por pena de “prisão celular perpétua”

sábado, 15 de novembro de 2014

Vestígios arqueológicos de convento islâmico encontrados em Sintra

Restos de um convento islâmico foram encontrados no litoral de Sintra na escavação de vestígios de um santuário romano dedicado ao sol, à lua e ao oceano, numa intervenção que, depois da atual temporada, vai prosseguir nos próximos anos.
As escavações realizadas desde 2008 revelaram, para além de vestígios islâmicos, aras (monumentos votivos) romanas com inscrições em latim e em grego, agora conservados no museu da Câmara de Sintra.
Numa vala aberta no Alto da Vigia, na arriba sobranceira à Praia das Maçãs, arqueólogos escavam o "derrube de um muro de taipa", como explicou à agência Lusa José Cardim Ribeiro, diretor do Museu Arqueológico de São Miguel de Odrinhas (MASMO).
"Estamos a preparar o registo para fechar o campo", esclareceu o arqueólogo Alexandre Gonçalves, após dias sem poder escavar devido ao mau tempo.
A escavação apenas se iniciou em setembro, mas foram encontradas "algumas inscrições" romanas e recolhidos outros fragmentos em pedra, que vão agora ser estudados no MASMO.
O relato de vestígios arqueológicos no Alto da Vigia remonta a 1505, quando foram encontradas lápides romanas durante a construção de uma torre de facho.
"Esta foi a primeira descoberta arqueológica feita em Portugal, não há nenhuma anterior a esta data", salientou Cardim Ribeiro.
O achado das lápides levou o rei D. Manuel I, que passava o verão no Paço Real de Sintra, a deslocar-se à Praia das Maçãs, então ainda sem areia, e que era "um braço de mar" navegável que entrava terra dentro para além de Colares.
A tradução das inscrições romanas serviram para "marketing político" em honra do rei e do império português, mas manteve a referência verdadeira que eram dedicadas "ao sol eterno e à lua", contou o investigador.
Francisco d'Ollanda, discípulo de Miguel Ângelo, também desenhou num livro que ofereceu ao rei D. Sebastião, intitulado "Da fábrica que falece à cidade de Lisboa", o templo romano, com um círculo formado por cipos, dedicado ao sol e à lua.
"O que Ollanda deve ter visto não era um templo, era uma estrutura arquitetónica", como uma base monumental circular, aventou o diretor do MASMO.
A exata localização do templo perdeu-se e, apesar de fontes do século XVII orientarem o santuário com vista para a serra, só na década de 1970 se voltou a apontar para o Alto da Vigia.
Após sondagens anteriores sem sucesso nas proximidades, os arqueólogos resolveram escavar à volta da torre do século XVI.
"Encontrámos vestígios do santuário romano, mas também restos de um 'ribat' [convento] islâmico", revelou Cardim Ribeiro, notando que se trata do segundo "ribat" encontrado no país, idêntico ao descoberto há uma década em Aljezur.
O "ribat", com ocupação entre os séculos VIII e XII, será constituído por várias construções, uma delas com um "mirhab", nicho virado a Meca, para orientar as preces, idêntico ao oratório nas celas dos eremitas cristãos.
Na construção islâmica foram reutilizadas lápides romanas, algumas inteiras, outras só parcialmente partidas, mas no seu lugar foram colocadas réplicas em cor rosa, com as originais preservadas no MASMO.
Do religioso guerreiro que liderava este "ribat" nada se sabe, mas esta ocupação ocorreu durante um episódio histórico importante, quando barcos vikings saquearam a costa de Sintra, no século XII.
Os vestígios do santuário romano demonstram que a consagração ao sol e à lua também incluiu o oceano e que a sua fundação terá ocorrido um século antes do que se presumia, em inícios do império, por volta de 27 a.C.
"Não temos aqui um templo local, apesar de Olisipo ser um município importante, e Lisboa ter sido a única cidade da Lusitânia à qual foi conferido o direito romano, idêntico ao de Roma", frisou Cardim Ribeiro.
O investigador do MASMO não tem dúvidas de que a importância desta descoberta transcende a realidade local, nacional e ibérica, sendo fundamental para "o estudo de todo o império romano".
A campanha deste ano marcou o início de um projeto de investigação aprovado pela Direção-Geral do Património Cultural para os próximos quatro anos.


Vestígios arqueológicos de convento islâmico encontrados em Sintra

domingo, 2 de novembro de 2014

Canadiana devolve pedaço das ruínas de Pompeia que tinha levado há 50 anos


Em lágrimas, meio século depois, uma septuagenária canadiana entrou este mês pelo gabinete da polícia responsável pela gestão do património cultural de Nápoles, com o objectivo de devolver um pedaço das ruínas de Pompeia que tinha levado na mala durante a sua lua-de-mel naquela zona de Itália.
O pedaço devolvido pela mulher, que segundo a BBC não foi identificada, corresponde à entrada de um teatro.
Pompeia é um dos sítios mais visitados de Itália, com cerca de 2,5 milhões de turistas todos os anos. A súbita erupção do vulcão Vesúvio, no ano 79 d.C., deixou a cidade debaixo da lava e das cinzas. Fica situada a 22 Km da cidade de Nápoles e está classificada como Património Mundial da Unesco.
"Isto não tem precedentes. Alguém, incomodado com o peso da consciência, devolver aquilo que tinha levado de forma ilegítima", disse, surpreendido, o capitão Carmine Elefante, ao jornalista James Reynolds, da BBC.
A polícia não multou a mulher e disse esperar que a sua atitude sirva para encorajar outras pessoas que também tenham tirado pedaços da ruínas de Pompeia. Mesmo que, aparentemente, não tenha muito valor, "em Pompeia tudo tem o seu valor", lembra o capitão Elefante.

 Fonte: DN
Canadiana devolve pedaço das ruínas de Pompeia que tinha levado há 50 anos

domingo, 28 de setembro de 2014

Visita Galerias Romanas da Rua da Prata

visita tuneis


Visitas organizadas no âmbito das Jornadas Europeias do Património, este ano sob o tema “Património, sempre uma descoberta“
Entrada pela rua da Conceição junto ao nº 77 | 26, 27 e 28 setembro | 10h00-18h00 (última entrada às 17h30)
Visitas realizadas em grupo, sem marcação | Entrada livre
+info http://bit.ly/1qfyWGn


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Fortaleza de Valença recebeu mais de meio milhão de visitantes em 45 dias

A fortaleza de Valença, classificada como Monumento Nacional e candidata a Património Mundial da UNESCO, recebeu em mês e meio mais de meio milhão de visitantes, segundo o presidente da autarquia local, Jorge Mendes.
"Foi um ano excepcional. Tivemos uma verdadeira enchente. Entre a segunda quinzena de Julho e o mês de Agosto mais de meio milhão de pessoas visitaram a Fortaleza. Em média, tivemos entre 10 a 15 mil pessoas por dia", afirmou.
O autarca social-democrata que preside à câmara da segunda cidade do Alto Minho adiantou que os números registados em alguns dias ultrapassaram os de 2013, quando a Fortaleza foi visitada, por dia, por cerca de 12 mil pessoas. "Houve dias em que ultrapassámos todos os limites, com mais de 15 mil pessoas a visitar a Fortaleza. Foi muito bom para o comércio, restauração e hotelaria do concelho", sustentou.
Classificada como Monumento Nacional, a Fortaleza assume particular importância pela sua dimensão, com uma extensão de muralha de 5,5 quilómetros, e pela história, tendo sido, ao longo dos seus cerca de 700 anos, a terceira mais importante de Portugal.
No próximo ano, o município quer lançar um evento de dinamização do monumento que se transforme "numa referência internacional". Nesse sentido, reservou 100 mil euros para as propostas dos munícipes, através do orçamento participativo realizado pela segunda vez no concelho.
Desta consulta popular, a decorrer até 30 de Outubro, o autarca espera "contributos fundamentais para a definição de uma estratégia de afirmação e promoção da cidade, tendo por base o património cultural do concelho". "Queremos um grande evento para Valença pensado por todos e para todos que seja a nossa cara e a nossa marca", sustentou.
Já este Outono o município vai apresentar uma aplicação para telemóveis sobre a fortaleza que permite visitas guiadas aos pontos mais emblemáticos do centro histórico e painéis interactivos com a evolução histórica do monumento, desde os primeiros povoados castrejos até à actualidade, com recriação a três dimensões.
Os novos equipamentos e materiais, com tecnologia desenvolvida nos últimos dois anos e meio pela Universidade do Minho (UM) resultam do projecto "Muralhas Digitais" que além de Valença inclui os municípios portugueses de Monção e Melgaço, bem como Lugo e Santiago de Compostela, na Galiza. Este projecto é financiado por fundos comunitários do Programa de Cooperação Transfronteiriça Espanha/Portugal (POCTEP).
A candidatura da fortaleza da cidade a Património Mundial da UNESCO (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) foi apresentada em Setembro de 2011 ao Governo português pelo actual executivo daquela autarquia. A ponte rodoferroviária sobre o rio Minho, que liga a Tui, na Galiza, também será integrada na candidatura.

http://s.publico.pt/NOTICIA/1668739Fonte: Público

Muralha da fortaleza estende-se ao longo de 5,5 quilómetros

terça-feira, 22 de julho de 2014

Vários monumentos do Porto vão ter bilhete único

Em 2015 os turistas que visitarem o Porto vão poder adquirir um bilhete único que lhes garantirá, a um preço mais baixo, entrada em pelo menos seis espaços da zona histórica do Porto. A Casa do Infante, o Palácio da Bolsa, a Igreja e o museu da Misericórdia, o parque e a Casa da Prelada, da mesma instituição, a Igreja e a torre dos Clérigos, a sede do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto e da Cooperativa Árvore são, para já, os edifícios que serão incluídos num roteiro, fruto de uma parceria entre seis parceiros.
Trabalhada em menos de dois meses, o protocolo que esta segunda-feira foi assinado no Palácio da Bolsa, sede da Associação Comercial do Porto, pode brevemente incluir novos parceiros. Na sala estava a directora do Museu Nacional de Soares dos Reis, instituição muito interessada em entrar neste novo roteiro, e segundo o provedor da Misericórdia, António Tavares, também o Ateneu Comercial do Porto manifestou vontade de entrar no projecto.
A Câmara do Porto, que segundo o vereador da Cultura, Paulo Cunha e Silva, está a preparar um bilhete único para os equipamentos culturais que tem sob a sua alçada, poderá também não se ficar pela Casa do Infante neste roteiro agora apresentado. O desenho final da oferta e o preço serão decididos até ao fim do ano por uma comissão que será presidida pela Associação Comercial. Comissão essa que poderá também começar a preparar ideias para projectos comuns que estas instituições esperam levar a cabo.
O presidente da ACP, Nuno Botelho, e o provedor da Misericórdia explicaram que os parceiros estão interessados em fazer programação e conteúdos comuns, que melhorem a oferta cultural e os conteúdos associados aos monumentos incluídos no roteiro. Para os quais terá de ser feita também informação comum, para ser disponibilizada aos turistas. Para tudo isto, as entidades que agora se juntaram esperam conseguir apoios no novo quadro comunitário.
Para Paulo Cunha e Silva, é certo que a cidade só terá a ganhar com este bilhete único que, para além de mostrar a diversidade da oferta, quase toda ela localizada na Zona Histórica, a um preço apelativo, poderá também estimular um prolongamento do tempo de estadia dos turistas na cidade. Este é, aliás, um dos desafios que o Porto tem de vencer, depois de ter ganho a atenção dos mercados emissores de turistas e ter conseguido, nos últimos anos, por duas vezes, o prémio de melhor destino europeu.
Foi uma posição individual, que não vincula as instituições que assinaram o protocolo para a criação de um bilhete único para monumentos no Porto. O presidente da Associação Comercial, Nuno Botelho, atirou-se à “pouco criteriosa” atribuição de fundos europeus na área do turismo, dando como “mero exemplo” o encaminhamento de quase 160 mil euros para um posto de turismo virtual em Vizela. Garantindo que nada o move contra Vizela, o dirigente associativo argumentou que num momento em que Portugal fechou o acordo para o novo quadro comunitário, não se pode continuar a apoiar pequenos investimentos que, a seu ver, têm pouco impacto no turismo regional, quando, por outro lado, instituições como a Misericórdia ou a Irmandade dos Clérigos tiveram dificuldade para ver aprovados financiamentos para as obras do museu e da torre dos Clérigos.
Fonte: Público
Palácio da Bolsa é um dos monumentos abrangidos
A Torre dos Clérigos é também abrangida




segunda-feira, 14 de abril de 2014

Capela de D. Maria, no Palácio Nacional da Ajuda, abre ao público pela primeira vez

Foi a última grande encomenda da família real portuguesa, e da rainha, para a sua casa. Fechada desde a implantação da República, em 1910, a capela pode ser visitada a partir da próxima quinta-feira, dia 17
É a última grande encomenda da rainha Maria Pia para o Palácio Nacional da Ajuda e foi fechada em 1910, com a implantação da República. Nunca foi vista pelo público em geral até agora. As portas abrem no dia 17 de abril, após trabalhos de restauro, investigação e musealização do espaço. O único El Greco em território nacional também vai ficar à vista.
A capela é uma "caixa de madeira", neomedieval, assinada pelo arquiteto modernista Miguel Ventura Terra, o mesmo que converteu o antigo convento de São Bento em Parlamento, à época (por volta de 1897) uma recém-licenciado arquiteto, bolseiro da Escola de Beaux-Arts de Paris, França, de onde trouxe este novo gosto, que já prenuncia o Arts & Crafts britânicos, como nota José Alberto Ribeiro, apontando as ferragens das portas. "Há um programa decorativo comum", acrescenta. Uma estética que vai dos pormenores das portas ao altar, aos genuflexórios passa ndo pelo arcaz da sacristia.
A rainha era uma mulher "muito atualizada em termos de compras", frisa José Alberto Ribeiro. E já tinha feito uma encomenda no mesmo estilo para a sala de pintura no andar superior.
Os arquivos de inventariação de 1910 permitiram perceber o que fazia parte deste local e assim reconstituir o espaço, a começar pela Virgem e o Menino do pintor José Veloso Salgado que está no altar. As várias imagens de santos que aqui se encontram terão sido trazidas pela rainha de Itália, em 1862, quando se casou com o rei D. Luís, um monarca-artista interessado na cultura, melómeno, pintor e amante das artes em geral, um gosto que partilhou com Maria Pia e transmitiu aos filhos.
Fonte: DN


 Capela de D. Maria abre ao público pela primeira vez
Capela de D. Maria abre ao público pela primeira vez

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

D. Fernando II e o Palácio da Pena

O Palácio Nacional da Pena constitui uma das expressões máximas do Romantismo aplicado ao património edificado no séc. XIX em Portugal. Este extraordinário Monumento Nacional deve-se inteiramente à iniciativa de D. Fernando de Saxe Coburgo-Gotha, que casou com a Rainha D. Maria II, em 1836. Dotado de uma educação muito completa, o futuro D. Fernando II enamorou-se rapidamente de Sintra e, ao subir a Serra pela primeira vez, avistou as ruínas do antigo convento de frades hieronimitas, originalmente construído no reinado de D. João II e substancialmente transformado com D. Manuel I que, ao cumprir uma promessa, o mandou reconstruir, em pedra, em louvor de Nossa Senhora da Pena, doando-o novamente à ordem dos monges de S. Jerónimo. Com o Terramoto de 1755, que devastou Lisboa e toda a região circundante, o convento da Pena caiu em ruína. Apenas a Capela, na zona do altar-mor, com o magnífico retábulo em mármore e alabastro atribuído a Nicolau de Chanterenne, permaneceu intacto. Foram estas ruínas, no topo escarpado da Serra de Sintra, que maravilharam o jovem príncipe D. Fernando. Em 1838, decidiu adquirir o velho convento, toda a cerca envolvente, o Castelo dos Mouros e outras quintas e matas circundantes. Assim, deu início ao seu sonho romântico: reconstruir o antigo convento e anexar-lhe uma parte nova para complemento desta residência de verão da família real portuguesa. Pensou, igualmente, em mandar plantar um magnífico parque, à inglesa, com as mais variadas, exóticas e ricas espécies arbóreas. Desta forma, Parque e Palácio da Pena constituem um todo magnífico. O Palácio, em si, é um edifício ecléctico onde a profusão de estilos e o movimento dos volumes são uma invulgar e excepcional lição de arquitectura. Quase todo o Palácio assenta em enormes rochedos, e a mistura de estilos que ostenta (neo-gótico, neo-manuelino, neo-islâmico, neo-renascentista, etc.) é verdadeiramente intencional, na medida em que a mentalidade romântica do séc. XIX dedicava um invulgar fascínio ao exotismo. O conjunto das diversas guaritas, das mais variadas formas e feitios, o desnivelamento dos sucessivos terraços, o revestimento parietal com azulejos neo-hispano-árabes, oitocentistas, são elementos significativos. A adaptação da janela do Convento de Cristo em Tomar, do lado do Pátio dos Arcos e a notável figura do Tritão, simbolizando, segundo alguns autores, a alegoria da Criação do Mundo, são pormenores fundamentais na interpretação deste Palácio. A concepção dos interiores deste Palácio para adaptação à residência de verão da família real valorizou os excelentes trabalhos em estuque, pinturas murais em trompe-l'oeil e diversos revestimentos em azulejo do séc. XIX, integrando as inúmeras colecções reais em ambientes onde o gosto pelo bricabraque e pelo coleccionismo são bem evidentes. Nos últimos anos o IPPAR tem vindo a desenvolver um Programa de restauro e de valorização que permitiu, entre outros objectivos, a consolidação estrutural de todo o edifício, a pintura integral do conjunto com as cores originais, a recuperação e renovação da sinalética dos espaços exteriores e a instalação de um restaurante.
Fontes:i gespar.pt
wikipedia (imagens)
File:D. Fernando II-F. Krumholz-1845.JPG
D. Fernando II em 1845
Ficheiro:Ippar-palacio-pena-aerea.jpg
Palácio Nacional da Pena, vista aérea
O Palácio Nacional da Pena em construção
Ficheiro:Palácio Nacional da Pena em Construção c 1850.jpg

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Grutas de Altamira vão voltar a receber visitas



A decisão foi anunciada, na sexta-feira, pela administração deste bem classificado Património Mundial da Humanidade (1985), e que conserva um dos mais importantes acervos de pinturas rupestres da Pré-História. Mas a reabertura vai ter um carácter experimental, e vai ser condicionada por rigorosas medidas de segurança. O objectivo é avaliar o impacto da presença humana na integridade das pinturas que remontam ao Paleolítico Superior.

A partir do próximo mês de Fevereiro e, em princípio, até Agosto, o Museu Nacional e Centro de Investigação de Altamira vai organizar um ciclo de visitas, abertas a cinco pessoas (mais um guia) de cada vez, uma vez por semana.

Ao todo, serão 192 os contemplados com esta oportunidade rara de admirar ao vivo este património, que continua a ser a principal atracção turística de Santillana del Mar, na Cantábria – mesmo se os visitantes têm actualmente apenas ao seu dispor uma réplica do conjunto rupestre na chamada Caverna Nova de Altamira.

“O que agora decidimos fazer é apenas uma experiência, que é uma parte do programa de conservação”, disse ao jornal El País José Antonio Lasheras, director do Museu Nacional e Centro de Investigação de Altamira. E explicou que a administração da instituição decidiu alargar aos visitantes anónimos aquilo que, em princípio, iria ser realizado apenas com funcionários do centro. “Pareceu-nos que aquilo que poderíamos fazer com pessoas do museu, poderia também ser feito com a colaboração de pessoas de fora”, disse Lasheras.

A escolha dos felizes contemplados será feita de forma aleatória. E as visitas, que não poderão durar muito mais que meia hora, serão sujeitas a um rigoroso protocolo: os visitantes serão obrigados a usar um impermeável, gorro, luvas, máscara e calçado, tudo disponibilizado pelo museu. No final, em simultâneo com um registo documental dos serviços do museu, os serão também convidados a preencher um formulário.

O objectivo do museu é medir o impacto das visitas e da presença humana na temperatura do ar e da rocha, a humidade, a contaminação microbiológica e os níveis de CO2, entre outros indicadores.

No final deste ciclo experimental de visitas, os responsáveis avaliarão o que fazer a seguir. E como resolver o conflito entre quem, como o Conselho Superior de Investigação Científica, desaconselha fortemente a reabertura das grutas ao público, e os responsáveis políticos e do turismo da Cantábria, que vêm defendendo que as Grutas de Altamira são um activo turístico, cultural e económico que a região não pode desperdiçar mantendo-as fechadas a visitas.

Fonte: Público 
As pinturas rupestres de Altamira foram classificadas Património da Humanidade em 1985
 
 
 

domingo, 12 de janeiro de 2014

Panteão Nacional: A igreja que já foi fábrica de sapatos


Ao entrar chega-nos, baixinho, a voz de Amália. Canta Uma casa portuguesa, bem a propósito. No Panteão Nacional, diz um dos funcionários da guardaria, ouve-se sempre a fadista e música barroca. “Ninguém estranha”, garante, “porque há turistas que vêm para ver o monumento e outros que vêm só à procura da Amália, muitos até para lhe deixarem flores”.
Na sala onde está o seu túmulo de mármore, a mesma dos escritores Almeida Garrett, Guerra Junqueiro e João de Deus, há quem se encarregue de nunca deixar secar as flores que lhe oferecem. Das dez figuras que têm os restos mortais na Igreja de Santa Engrácia, em Lisboa, só Amália e Sidónio Pais, o Presidente da República assassinado em 1918, as recebem.
A escala da igreja hoje dessacralizada é monumental e sente-se sobretudo no interior solene, decorado com mármores de várias cores. Não há símbolos religiosos no altar e o espaço mais nobre parece uma enorme praça feita para passear. É difícil imaginar o edifício como depósito de armamento e fábrica de sapatos do Exército (século XIX e começo do XX). A sua história é atribulada e inclui uma igreja primitiva destruída por uma tempestade, uma lenda à volta de um amor proibido e até uma maldição. Acredite-se ou não nestas duas últimas, certo é que este templo barroco que muitos historiadores de arte consideram único esperou séculos para ser concluído e esteve praticamente os últimos 100 anos – foi destinado a Panteão Nacional em 1916 – entre os holofotes do Estado Novo, que fizeram dele um instrumento de propaganda, e um certo esquecimento, aparentemente incapaz de medir forças com o Mosteiro dos Jerónimos, monumento que muitos portugueses vêem ainda como o verdadeiro panteão.
“Como os restos mortais de Camões, de Vasco da Gama e de Alexandre Herculano se mantiveram em Belém, os Jerónimos continuaram a funcionar como um panteão de facto”, explica ao PÚBLICO Fernando Catroga, catedrático da Universidade de Coimbra que tem vindo a especializar-se, entre outros assuntos, no laicismo e no republicanismo. “Como o mais alto altar cívico da pátria.”
Se o panteão de Santa Engrácia está hoje um pouco mais presente no imaginário nacional, deve-o, diz a sua directora, Isabel Melo, a Amália Rodrigues, a fadista que morreu em 1999 e que para lá foi trasladada em 2001, numa cerimónia a que assistiram milhares de pessoas. Passará a devê-lo também e em breve à escritora Sophia de Mello Breyner Andresen, que será a próxima e ainda este ano a receber esta honra de Estado, depois de os vários grupos parlamentares terem chegado a acordo no final do ano passado, soube-se na sexta-feira. 
A decisão de quem deve figurar no Panteão Nacional “é sempre política”, diz Maria João Neto, professora de História de Arte da Faculdade de Letras de Lisboa, que tem dedicado parte da sua investigação à evolução do monumento e às suas relações com os vários regimes, primeiro com a monarquia liberal, depois com a República, o Estado Novo e a democracia. Qualquer escolha feita até aqui deu origem a polémica, lembra, “porque estas figuras de Estado são pessoas e, como tal, não são perfeitas”. Guerra Junqueiro, exemplifica, foi um arauto do republicanismo, mas é por muitos visto como um instigador do regicídio de 1908.
No caso de Amália, situação que agora se repetiu com Eusébio, à decisão política juntou-se “uma forte pressão popular”, acrescenta a directora do monumento, garantindo que boa parte do seu trabalho passa por demonstrar que “o panteão não é um lugar de celebração da morte, mas de celebração da vida”, e que está longe de ter a atenção que merece, apesar do número crescente de visitantes. Em 2013 teve 72 mil, cerca de 70% dos quais estrangeiros. O público, garante, tem aumentado de forma constante desde a chegada de Amália.
“É preciso que haja uma relação emocional com quem aqui está para que haja um sentimento de pertença. Não se pode amar ou acarinhar um panteão sem isso. Creio que essa relação só se começou a construir verdadeiramente em 2001.”
Uma maldição lendária
A igreja primitiva, da qual nada resta hoje, foi erguida em 1568 por vontade da infanta D. Maria (1521-1577), filha de D. Manuel I, e praticamente destruída durante uma tempestade, em 1681. No ano seguinte lançou-se a primeira pedra do actual edifício – para muitos uma jóia do barroco português de influência italiana, com projecto do mestre João Antunes –, que só viria a ser concluído em 1966, por ordem expressa do então Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar. Tinham passado 284 anos.
A expressão popular “obras de Santa Engrácia”, usada por referência a algo que tarda em acabar, é apenas um dos dados da tradição associados à igreja. Outro é Simão Solis, o cristão-novo que em 1630 foi acusado de profanar o templo, roubando as hóstias guardadas no relicário da capela-mor. Diz a lenda que Solis, visto a rondar a igreja na noite do assalto, com as patas do cavalo em que seguia embrulhadas em panos para que não fizessem barulho, jurou até à morte que era inocente. Antes de ser queimado vivo no Campo de Santa Clara, lançou uma maldição à igreja ainda em construção, dizendo: “É tão certo morrer inocente como as obras nunca mais acabarem!”
O verdadeiro assaltante foi identificado mais tarde, vindo a descobrir-se por que razão Solis nunca quis dizer o que fazia junto a Santa Engrácia naquela noite – esperava que Violante, filha de um fidalgo e noviça no Convento de Santa Clara, viesse ao seu encontro para que fugissem juntos.
Entre a destruição da igreja primitiva e a inauguração em missa solene com o cardeal Cerejeira – uma das pouquíssimas missas celebradas em Santa Engrácia –, muitas foram as tentativas para concluir o templo, algumas falhadas por falta de verbas. Nesse período não se pensava, no entanto, noutra função que não a de igreja.
O panteão e a lei
Nem mesmo a monarquia liberal, no quadro da qual é criado o Panteão Nacional (Decreto de Passos Manuel, de 26 de Setembro de 1836), define para ele um local. O regime de então queria guardar solenemente “‘as cinzas dos grandes homens’ que se tinham sacrificado na revolução de 1820”, sublinha o historiador Fernando Catroga, acrescentando que a este objectivo se associava outro, o da “reparação do esquecimento a que, há séculos, estava votado o maior de todos os portugueses: Camões”. O escritor Almeida Garrett (1799-1854), que quis vê-lo sepultado nos Jerónimos, foi o mais acérrimo defensor da homenagem ao autor de Os Lusíadas, que eram lidos nas últimas décadas do século XIX como “uma espécie de bíblia da aventura portuguesa no mundo”.
Garrett comparava o mosteiro ao panteão inglês da Abadia de Westminster – onde hoje estão sepultados escritores e e homens de ciência como Shakespeare, Spenser, Tennyson, Dickens, Darwin e Newton – e não com a Igreja de Santa Genoveva, o panteão francês.
Os primeiros “panteonizáveis” neste quadro que se segue ao enaltecimento da figura de Luís de Camões, continua Catroga, são inseparáveis de uma visão que acredita no progresso e rejeita o culto do passado. Procura-se enaltecer “os que melhor exprimiam um pulsar colectivo, não tanto os políticos e os militares, mas, sobretudo, os intelectuais e, entre estes, os poetas”. Numa primeira fase, os eleitos são, assim, “oriundos da ‘República das Letras’, onde o escritor emergia, cada vez mais como um clérigo laico”. Depois de Camões honraram-se nos Jerónimos Alexandre Herculano, João de Deus e o próprio Garrett.
Sublinha ainda o professor de Coimbra, “para quem exageram os que republicanizam em excesso a origem do culto panteónico português”, que na I República o panteão continua a ser os Jerónimos. Só mais tarde, com a Lei n.º 520, de 29 de Abril de 1916, se destina para estas funções o “incompleto templo de Santa Engrácia”, monumento nacional desde 1910. Mas entre esta data e a da sua inauguração passa meio século.
Bandeira do Estado Novo
Vencendo quase 300 anos de espera, Salazar quis ver o edifício terminado em apenas dois - faltava a cúpula que hoje marca aquela zona da cidade, quando se olha a colina a partir do rio – numa grande operação de propaganda de um regime que enfrentava já grandes dificuldades, explica Maria João Neto.
“Salazar transforma a conclusão do panteão numa manobra de propaganda, propondo-se acabar em dois anos o que não se tinha conseguido acabar em séculos”, sublinha, mostrando, como diria o ministro das Obras Públicas no discurso de inauguração, “que o Estado Novo era capaz de ‘pulverizar mitos’, como o da obra inacabada”. Era, por isso, mais importante terminar o edifício do que pensar em quem iria ocupá-lo. “O conceito e o programa do panteão ficaram claramente em segundo plano, porque a discussão se adensou e a comissão criada [em 1965] para a obra não conseguia chegar a conclusões.”
O Marquês de Pombal, a rainha D. Leonor, o Padre António Vieira, o poeta Fernando Pessoa e o escritor Eça de Queirós foram considerados, mas não chegaram ao panteão. A comissão acordou em seis grandes figuras históricas a ocupar os mausoléus no topo dos braços do transepto (o espaço mais nobre) – Camões, Vasco da Gama, D. Nuno Álvares Pereira, Pedro Álvares Cabral, Afonso de Albuquerque e o Infante D. Henrique –, mas, para evitar a trasladação destes corpos, que poderia vir a desagradar à opinião pública, optou-se por evocar a sua memória através de cenotáfios (monumentos fúnebres sem a presença dos restos mortais).
Foi Salazar, acrescenta a também comissária científica do livro Obras de Santa Engrácia, quem desbloqueou a situação, decidindo que iriam para o novo panteão figuras que já estavam provisoriamente sepultadas no Mosteiro dos Jerónimos. Da antiga sala do capítulo saíram, assim, três presidentes da República (Teófilo Braga, Sidónio Pais e Óscar Carmona) e outros tantos escritores (Almeida Garrett, João de Deus e Guerra Junqueiro).
“É curioso ver que o Estado Novo, que tanto enaltecia a história e as suas figuras, não ‘panteoniza’ ninguém. Os que escolhe vêm já de uma sepultura nobre que muitos portugueses consideram ser ainda o verdadeiro panteão nacional”, diz a professora de História de Arte. Esta relação com as homenagens aos “grandes homens” do país durante a consolidação do regime de Salazar, que dá maior relevo a panteões como a Batalha e S. Vicente de Fora, pode explicar-se, avança Catroga, com a “recatolicização da educação cívica e moral, [que] convidada à secundarização de práticas de matriz liberal e republicana”.
Desde a sua inauguração em 1966, o panteão recebeu apenas os restos mortais do general Humberto Delgado (1990), de Amália, de Manuel Arriaga, primeiro Presidente da República (2004), e de Aquilino Ribeiro (2007).
Foi preciso esperar por 2000 – um ano depois da morte de Amália – para que se vissem definidas as actuais honras do panteão. A Lei n.º 28 estipula que estas têm por objectivo “homenagear e perpetuar a memória dos cidadãos que se distinguiram por serviços prestados ao país, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade”.
É justamente este parágrafo que Maria João Neto defende que deve ser revisto para que Eusébio da Silva Ferreira entre, “sem margem para dúvidas”, no panteão. Gostaria de ver nele acrescentado algo que se referisse a feitos desportivos.
Ainda que o paradigma do mérito literário nunca tenha deixado de pairar sobre o panteão – Sophia está aí para o confirmar –, a ida de Amália para Santa Engrácia, a que se seguirá a de Eusébio, reflecte, na opinião de Catroga, um “alargamento dos critérios definidores da grandeza da figura a ser consagrada”, passando a abranger “personalidades produtoras e produtos da cultura de massas dos nossos dias”. Têm, continua o historiador, “um forte poder de mediatização e de transformação icónica e iconolátrica e dir-se-ia que já estão panteonizados, mesmo antes de entrarem em qualquer panteão”.
Para os dois historiadores, os panteões são uma forma de revivificar actos heróicos ou percursos de mérito capazes de ligar as pessoas a um destino histórico comum, numa sociedade que não pode viver sem mitos e símbolos. Mas os heróis de Santa Engrácia e de outros panteões, de facto, são sempre produto do seu tempo e das suas circunstâncias. “Estas dez personalidades que estão em Santa Engrácia não falarão a todos da mesma maneira, estão longe de serem consensuais. É sempre discutível quem deve ir para um panteão nacional”, conclui Maria João Neto. “A própria ideia de entronizar heróis é discutível. Poucas coisas na história não são.”
Fonte: Público
A grande cúpula que domina o rio
 
Ainda como fábrica de sapatos
 
Aspecto geral do Panteão