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domingo, 3 de março de 2019

03 de Março de 1918: A Rússia firma o Tratado de Brest-Litovsk com as Potências Centrais

Um dia após os bolcheviques assumirem o controlo dos quartéis-generais militares russos em Mogilev, um cessar-fogo formal é proclamado em 2 de Dezembro de 1917 em toda a zona de batalha entre a Rússia e as Potências Centrais (Império Alemão, Império Austro-Húngaro, Bulgária e Império Otomano).

Imediatamente após tomarem o poder na Rússia, em Novembro de 1917, os bolcheviques, liderados por Lenine, buscaram contactos com as Potências Centrais para estabelecer um armistício e o fim de uma guerra que eles sabiam ser o maior obstáculo para prover de alimento e terra a população camponesa russa empobrecida e esfaimada.
Leon Trotsky, no exercício das relações exteriores, pressionou o Reino Unido e a França para abrir negociações de paz, ameaçando estabelecer paz em separado caso as suas demandas não fossem aceites. Não tendo recebido resposta dos Aliados, os bolcheviques seguiram adiante com os seus planos, definindo um apelo de paz que foi bem recebido tanto pela Alemanha quanto pelo Império Austro-húngaro.

Como resultado das subsequentes negociações de Brest-Litovsk, concluídas em Março de 1918, após três meses de intensos debates e até de renovados combates militares em algumas áreas, a Rússia perdeu quase dois milhões de quilómetros quadrados do seu território, um terço da sua população, a maior parte do seu carvão, petróleo e jazidas de ferro e muito da sua indústria.

Lenine insistiu que o Congresso dos Sovietes aceitasse a “paz vergonhosa” como ele mesmo a chamou, “a fim de salvar a revolução mundial” e a sua “única base de sustentação – a república soviética.”

A retirada da Rússia da guerra foi um dos principais objectivos da Revolução de Outubro de 1917 e uma das prioridades do recém-criado governo bolchevique. A guerra tornara-se impopular entre o povo russo, devido às imensas perdas humanas (cerca de quatro milhões de mortos).

Entretanto, os termos do Tratado de Brest-Litovsk, assinado no dia 3 de Março de 1918,  eram humilhantes. Por meio do acordo, a Rússia perdia o controlo sobre a Finlândia, Países Bálticos (Estónia, Lituânia e Letónia), Polónia, Bielorrúsia e Ucrânia, assim como das regiões turcas de Ardaham e Kars e do distrito georgiano de Batumi, antes sob seu domínio. Estes territórios continham um terço da população da Rússia, metade da sua indústria e nove décimos de suas minas de carvão.

A maior parte desses passariam,  na prática, a pertencer ao Império Alemão, sob a tutela de reis e duques. Contudo, a derrota da Alemanha na guerra, concluída com o armistício com os países Aliados em Compiègne em 11 de Novembro de 1918, permitiu que Finândia, Estónia, Letónia, Lituânia e Polónia se tornassem Estados soberanos.

Os monarcas indicados tiveram que renunciar aos seus tronos. Por outro lado, a Bielorrússia e a Ucrânia envolveram-se na Guerra Civil russa e terminaram por ser novamente anexadas ao território russo, então sob o nome de União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.
Fontes: Opera Mundi
wikipedia (imagens)



Delegação bolchevique em Brest-Litovsk. Sentados, desde a esquerda: Lev V. Kamenev, Adolff.A.Ioffe, Anastasia A.Bitzenko. De pé: V. V. Lipskiy, P. Stučka, Lev D. Trotsky, Lev M.Karakhan




As primeiras duas páginas do Tratado de Brest-Litovsk, escrito em alemão, húngaro, búlgaro, turco otomano e russo.
 

sábado, 23 de fevereiro de 2019

23 de Fevereiro de 1916: Primeira Guerra Mundial. Portugal apreende os navios alemães nos portos portugueses, para "serem colocados ao serviço da causa luso-britânica".

A salva de 21 tiros dada no rio Tejo pelo navio Vasco da Gama, da Marinha de Guerra, marcou o final da tarde de 23 de Fevereiro de 1916, altura em que Portugal tomou posse dos 38 navios alemães ancorados em Lisboa. O primeiro foi o Santa Úrsula, depois rebaptizado deEstremadura, com 3771 toneladas brutas. O acto, com pormenores beligerantes, foi seguido depois em outros portos, e conduziu à declaração de guerra por parte da Alemanha.
O primeiro passo para o envolvimento oficial de Portugal na I Guerra Mundial, envolvendo num conflito directo com as forças do Kaiser e com o Império Austro-Húngaro, tinha sido dado no início de Fevereiro de 1916. No dia sete desse mês, o Governo republicano publicou uma lei onde, entre outros aspectos, ficava estabelecido que poderia requisitar, “em qualquer ocasião”, as “matérias-primas e os meios de transporte que forem indispensáveis à defesa ou economia nacional, que se encontrem nos domínios da República”.
No dia 23 foi dado o segundo passo, com a entrada a bordo nos navios alemães ancorados em Lisboa. Na mão, os emissários portugueses levavam uma carta pró-forma de notificação da requisição dos navios, com base numa lei publicada nesse mesmo dia. Esta alegava que a requisição se tornara necessária devido à falta de navios para transporte marítimo, o que dificultava o acesso do país a muitos produtos indispensáveis para a subsistência da população (facto que já dera origem a vários distúrbios em diversas localidades). De acordo com nova lei, que conta com a assinatura de Bernardino Machado (presidente) e Afonso Costa (chefe do Governo), caberia ao Ministério da Marinha avaliar os navios e todos os seus pertences.
Ao todo, foram apreendidos 72 navios e respectivas cargas, espalhados por todos os territórios portugueses, como Angola e Moçambique , mas com destaque para Lisboa (onde estavam mais de metade). No Porto, por exemplo, estava apenas uma embarcação, o Vesta. Diversos vapores precisaram de reparações, já que, embora sem incidentes, o processo de requisição confrontou-se com peças escondidas ou danificadas pelas tripulações alemãs.
As relações comerciais entre Portugal e a Alemanha tinham-se intensificado no virar do século, à medida que o Kaiser tentava ganhar espaço no palco europeu e mundial.
Em 1910, dois anos após a assinatura de um acordo comercial entre os dois países, os alemães ultrapassam os ingleses. Nesse ano, conforme destaca Sacuntala de Miranda, “para 906 navios britânicos, com tonelagem de 1.594.969, entram em Portugal 723 navios alemães, com tonelagem de 1.598.449”. Por essa altura, a Alemanha tinha doze linhas de navegação comercial a fazer escala regular em Lisboa, e vários cidadãos alemães viviam na capital portuguesa e na cidade do Porto. 
Quando se dá a requisição dos navios, que tinham ficado estacionados nos portos portugueses com o eclodir da guerra, a decisão já estava mais do que tomada ao nível do governo de Afonso Costa, em articulação com os ingleses. Era só uma questão de saber quando é que se avançava. Publicamente, numa entrevista ao jornal O Século, a 10 de Fevereiro, o deputado Leote do Rego defende de forma vincada o “aproveitamento temporário” dos vapores alemães. “O governo não deve hesitar em fazê-lo, embora preze aos germanófilos, aos seus falsos medos de zeppelins, de complicações, de açoites de qualquer Von, medos que se escondem atrás das lamúrias de certos loiros Falstaffs, sobre a sorte dos pobres soldadinhos, que terão de deixar o amanho das suas vinhas.”
Os receios ingleses
O governo de Afonso Costa, formado nos finais de 1915, queria entrar no conflito ao lado dos aliados, promovendo assim o regime republicano e protegendo os territórios em África. A falta de navios por parte dos ingleses acabou por proporcionar essa intervenção. O historiador Luís Alves de Fraga refere que, após várias negociações, o gabinete de guerra britânico invocou, a 16 de Fevereiro, de modo formal, a aliança com Portugal para requisitar os navios alemães.
Existiam no entanto, vários receios por parte do gabinete de guerra britânico. Num relatório classificado como “secreto”, datado de dia 12 de Fevereiro e onde se analisam as possíveis consequências da iniciativa portuguesa, refere-se ser provável que tal acto justifique a declaração de guerra por parte da Alemanha. Esta, por sua vez, poderia levar a confrontos em Moçambique (como aconteceu) mas poderia também levar Espanha a apoiar a Alemanha e o Império Austro-Húngaro.
O clero espanhol, constatava o relatório, era fortemente pró-alemão, e esta poderia ser uma ocasião para a Espanha tentar voltar a deter o domínio da Península Ibérica. “Se o exército espanhol é mau, o português é certamente muito pior”, sublinhava-se, realçando que, com a requisição dos navios, a Inglaterra ficava moralmente responsável por apoiar Portugal, o que poderia implicar o envio de “uma considerável força expedicionária para Portugal”, numa nova frente de combate.
A requisição dos navios poderia “envolver a Grã-Bretanha em pesadas responsabilidades militares”, e proporcionar a Portugal a justificação para pedir empréstimos de grande dimensão. “Se os navios em questão são tão essenciais para o esforço de guerra de modo a justificar o preço que poderá ter de ser pago é uma questão para ser decidida pelo governo de sua majestade”. A Espanha acabou por se manter neutral, aliviando assim o nível de risco.
A falta de navios de transporte era encarada como um grave problema pelo lado inglês. Um outro documento do gabinete de guerra, este classificado de “muito secreto” e datado de 11 de Fevereiro, alertava para o facto de o Almirantado ter informado que havia sérios atrasos no programa de construção naval, devido, nomeadamente, à falta de pessoal qualificado. “Tendo em conta a actual insuficiência de tonelagem disponível e a probabilidade de maior actividade por parte dos submarinos inimigos no curto prazo”, o gabinete de guerra defende que a resolução deste problema é de “importância primordial”.
Conforme refere Luís Alves de Fraga, a apreensão dos navios alemães fornece a Portugal uma tonelagem bruta superior à da marinha mercante nacional. No entanto, o acordo com a Inglaterra pressupunha a passagem para os britânicos da maior parte dos navios, embora navegassem com bandeira portuguesa. Foi, aliás, a passagem de muitos das embarcações para as mãos inglesas que levou Portugal ao estado de guerra com a Alemanha. A 2 de Março de 1916, Sidónio Pais, então responsável da República portuguesa junto do governo do Kaiser, enviou um telegrama para Lisboa onde sustentava que ainda se podia chegar a uma solução pacífica caso fosse “assegurado que navios não se destinam a inimigos da Alemanha”. Uma semana depois, no dia 9, o ministro plenipotenciário alemão em Portugal, o barão Otto Karl Von Rosen, entregou finalmente a declaração de guerra do seu país.
Diferentes destinos
Depois de ter cedido os navios à Grã-Bretanha, como estava estipulado, à disposição do governo republicano ficaram embarcações que somavam 85.208 toneladas, o equivalente a 35% do total. Em troca, Portugal entraria na Guerra com o apoio inglês, o que significava apoiar a formação e manutenção de um corpo expedicionário e um empréstimo financeiro, 25 anos após a bancarrota do país.
Vários dos navios apreendidos sofreram um destino algo irónico, afundados por submarinos alemães. Foi o caso do Leça e do Cascais, alvos, em Dezembro de 1916, dos torpedos lançados pelo UC 18, comandado por Wilhelm Kiel, perto da costa francesa.
Entre os navios que acabaram por ficar em mãos portuguesas houve destinos diversos. Alguns, poucos, serviram de apoio à Armada portuguesa, como o cruzador auxiliar Gil Eanes. Vários entraram para a empresa de Transportes Marítimos do Estado. Há, ainda, casos especiais, como o do Flores, que após ter sido devolvido pelos ingleses foi utilizado pela Marinha Portuguesa como navio-escola com o nome de Sagres (o actual navio foi construído também na Alemanha, mas em 1937).
Após a declaração de guerra da Alemanha o Governo republicano muda, inevitavelmente, de tom. A 20 de Abril são banidos os súbditos alemães de ambos os sexos, aos quais são dados cinco dias para saírem do país. A excepção são os homens entre 16 e 45 anos, que, para não poderem participar no esforço de guerra, “serão conduzidos para o lugar que for designado pelo Governo”. Ou seja, são aprisionados.
Proíbe-se todo o comércio com o inimigo e inicia-se uma intervenção sobre os bens dos cidadãos tidos como súbditos da Alemanha. Quanto à carga dos navios apreendidos, estabelece-se que “as mercadorias sujeitas a deterioração, ou de difícil guarda e conservação, podem ser vendidas em hasta pública por intermédio das alfândegas”, com o respectivo encaixe financeiro a ficar depositado na Caixa Geral de Depósitos (CGD).
Embora fosse difícil perceber quem eram os verdadeiros proprietários das mercadorias (se alemães ou se estas tinham sido pagas por um outro país, aliado ou neutral), foram vendidos diversos produtos que estavam nos navios, como aveia, sacas de café, placas fotográficas, barricas com anilina ou cimento, tabaco e tanques com ferro galvanizado.
Pelo meio, houve uma carga mais preciosa: a bordo do Cheruskia (depois Leixões), um dos navios apreendidos em Lisboa, estavam diversas peças arqueológicas de Assur, antiga Mesopotâmia, como uma estátua suméria e pequenas placas com inscrições cuneiformes e um cofre com mais de 3000 anos. O espólio, reencaminhado para a Universidade do Porto, era suficientemente importante para, após o final da guerra, em 1926, as autoridades alemãs o quererem reaver. Em troca, deram cerca de 600 várias outras peças de valor histórico, com destaque para o espólio egípcio. Hoje, parte dessas peças estão expostas no Museu Natural da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.
O ataque aos “bens dos inimigos”
A necessidade de organizar o que eram os bens de cidadãos residentes em Portugal considerados agora adversários, levou, a 4 de Maio de 1917, à criação da Intendência dos bens dos inimigos. A este organismo, que funcionou no âmbito do Ministério das Finanças, cabia “superintender a administração dos bens arrolados” e “promover a liquidação dos bens dos inimigos sempre que dela não resulte inconveniente”.
O processo foi tudo menos simples e rápido e marcou fortemente, pela negativa, diversas famílias enraizadas no país, algumas das quais com grande peso na sociedade portuguesa, como os Burmester e os d’Orey. Neste último caso, os membros da família eram descendentes de um exilado alemão que se instalara em Portugal 65 anos antes. Logo no dia em que foi publicada a lei que estabeleceu quem era considerado súbdito inimigo, três membros da família d’Orey, Rui, Waldemar e Guilherme (irmãos), apresentaram, como refere Maria João da Câmara, autora de um livro sobre os Orey, um requerimento no Ministério dos Negócios Estrangeiros no qual reafirmam a nacionalidade portuguesa. No entanto, não há resposta, e têm de sair do país. Estes responsáveis pela empresa de transportes de pessoas e mercadorias, que estavam ligados também ao comércio de ferro, “vêem-se obrigados a partir para Espanha, a 10 de Maio de 1916, rumo a Pontevedra”. A firma, que mantém a sua actividade, fica então nas mãos de um depositário-administrador, José Augusto Prestes, ficando José Antunes dos Santos como gerente.
Um documento da Intendência dos bens dos inimigos, cujo arquivo está hoje na Torre do Tombo (mas ainda em fase de tratamento), demonstra que, no início de Junho, Waldemar d’Orey e outro membro da família entregam um pedido de subsídios de alimento. A análise do valor a atribuir ficava a cargo de José Augusto Prestes. Pelo meio, e segundo Maria João da Câmara (que é também bisneta do fundador da firma), José Antunes dos Santos tentava “adquirir a empresa através de manobras pouco edificantes”.
Após uma recolha de assinaturas onde se pedia a revogação da expulsão dos membros desta família, “com dezenas de carimbos de firmas lisboetas”, a interdição acaba por ser retirada a 20 de Outubro. É o regresso dos Orey, cerca de seis meses depois. Diferente destino tiveram várias outras empresas.
Evitar especulações
Ao todo, foram abertas 1148 cadernetas individuais na CGD, ligadas a contas bancárias de pessoas identificadas como inimigas do Estado (incluindo pessoas e empresas portuguesas que tinham relações próximas com os indivíduos referenciados pelas autoridades). Nessas contas constam valores em numerário, títulos e objectos preciosos arrolados e depositados no banco público pelos respectivos depositários-administradores. No arquivo da Intendência dos bens dos inimigos estão também cerca de 890 processos ligados aos arrolamentos dos bens. Entre as empresas e instituições afectadas, além da família Burmester, estão o Clube Alemão de Lisboa, o Deutsche Bank, a Igreja Evangélica Alemã, a Bayer, a Siemens, o Colégio Alemão e o Consulado Alemão, apenas para dar alguns exemplos. São vendidos móveis e imóveis, além de diversos produtos (como sal, vinhos em pipas e garrafas, cortiça, produtos químicos, couros e automóveis). Aos antigos donos eram devolvidos objectos como roupas, retratos e quadros de família.
As hastas públicas devem ter sido aproveitadas por algumas pessoas em negócios pouco claros, já que, no final de Setembro de 1917, são dadas indicações para que uma venda de activos de uma empresa fosse feita em bloco para evitar conluios e especulações que resultassem “na adjudicação dos bens do inimigo por preço diminuto ou muito inferior ao seu valor”.
Pelo meio houve casos em que os antigos proprietários tentaram passar a tempo a propriedade, no papel, para cidadãos não conotados com o inimigo, colocando assim os seus bens a salvo. No arquivo da Intendência dos bens inimigos é relatado um caso, da firma Wimmer, na qual, segundo o documento enviado ao Tribunal do Comércio de Lisboa, se recorreu a “verdadeiras manigâncias para simular passagens de negócios a outras entidades”.
Neste processo, nem a CUF, um dos maiores grupos empresariais naquela época, ficou imune. A Inglaterra suspeitava das simpatias alemãs de Alfredo da Silva, e já tinha congelado as importações de produtos do patrão da CUF. A pressão aumentou com a declaração de guerra da Alemanha. Foi exigido o afastamento do alemão Martin Weinstein, sócio e amigo de longa data de Alfredo da Silva. Weinstein vende as suas acções a Alfredo da Silva e parte para Madrid onde virá a falecer.
A contra-gosto, o empresário português acede a uma análise do seu grupo, que conta com a participação do presidente da Câmara do Comércio Inglês, Garland Jayne. No dia 10 de Março de 1916, fica inscrito nas actas da empresa que “o Sr. Garland Jayne (...) disse que quer pela inspecção do perito contabilista, quer pelo que ele estava vendo agora, reconhecia que na CUF havia e há sempre a maior correcção, não tendo ela feito coisa alguma contrária aos interesses da Grã-Bretanha e dos seus aliados”. O perigo fora afastado.
Pagar no futuro
Pesando apenas as questões económicas do impacto e do envolvimento de Portugal na 1ª Guerra Mundial, fica evidente que as contas do país ficaram a perder.
Com a requisição dos navios alemães ficou aberta uma linha de crédito inglesa para o esforço de guerra, cuja soma, em 1918, segundo o historiador António José Telo, era de 15,6 milhões de libras. Sete anos depois, esse valor subira para 22,7 milhões de libras, devido aos juros acumulados e ausência de amortizações. Ou seja, um aumento de 45,5%.
Os encargos começaram logo em 1914-1915, com a inscrição de despesas extraordinárias para “material de preparação para a guerra”. O Orçamento do Estado para 1916-1917, datado de 26 de Maio de 1916, refere a abertura de uma conta especial, no Ministério das Finanças, de 75 milhões de escudos. Esta, denominada de “despesas excepcionais resultantes da guerra”, era a conta à qual seriam deduzidas “todas as despesas de carácter militar, económico e financeiro, não compreendidas no orçamento normal do Estado”. As despesas ordinárias para 1916-1917 estimadas para a Metrópole eram de 77,7 milhões de escudos. A dívida pública era então de 30,6 milhões. Dos 75 milhões disponíveis para a guerra, as principais fatias cabiam ao Ministério da Guerra (40 milhões), ao Ministério da Marinha (12 milhões) e ao Ministério das Colónias (10 milhões).
No orçamento do ano seguinte (1917-1918), datado de 6 de Setembro de 1917, as “despesas excepcionais”, “durante o estado de guerra e por motivo de guerra”, eram já de 150 milhões de escudos, cabendo ao Ministério da Guerra 100 milhões. As colónias ficavam agora com 20 milhões e a Marinha com outros 8 milhões (parte dos quais seria para pagar o início da construção de três submarinos). Para tal, o governo ficava autorizado a realizar “empréstimos e outras operações de crédito”.
Em 1918-1919 (já com o conflito terminado), o valor das despesas extraordinárias com a guerra é de 100 milhões de escudos. Nesta altura era já Sidónio Pais quem governava, ficando o Ministério da Guerra com 59,6 milhões, o das Colónias com 15 milhões e, em terceiro lugar, no lugar da Marinha, vinha o Ministério das Finanças, com 10,3 milhões de escudos. Entre as suas despesas inscritas estava a contabilização dos “juros e amortizações da dívida de guerra”. A dívida pública era agora contabilizada em 31,6 milhões de escudos, pouco mais do que em 1916-1917. Que as contas ligadas à guerra ficaram algo descontroladas é evidenciado por uma lei de 7 de Janeiro de 1924, onde se estipulava que, a partir da publicação desse decreto, passava a ser “absolutamente proibido requisitar ao Ministério das Finanças (...) quaisquer importâncias em conta da verba descrita no Orçamento do Estado, sob a rubrica ‘despesas excepcionais resultantes da guerra’”. De acordo com a nova lei, ficavam “civil e criminalmente responsáveis os organismos do Estado e respectivos funcionários que procederem em contrário”.
As contas de Salazar
Em 1926, oito anos depois do fim da guerra, ainda foi aberto “um crédito especial” de 2,2 milhões de escudos para liquidar “todas as despesas excepcionais” anteriores ao ano económico de 1924-1925. Já em Março de 1927, após a queda do regime republicano (na sequência do golpe militar de 28 de Maio de 1926), e de acordo com um outro decreto, faz-se a “consolidação” nas contas públicas da dívida de guerra contraída por Portugal junto da Grã-Bretanha.
Era, refere-se, “necessário proceder às indispensáveis operações de escrita a fim de se transferir da conta ‘operações de tesouraria’ para a competente conta de receita e despesa, inscrevendo-se, consequentemente, no Orçamento Geral do Estado, em receita, a soma a consolidar avaliada no citado acordo de 20.133.589 libras”. Feito o câmbio, eram 90,6 milhões de escudos (numa conta que não sugere a inclusão de juros). Ao Ministério das Finanças era aberto um crédito de 11,8 milhões de escudos, soma que ficou inscrita sob uma nova rubrica: “Dívida de guerra de Portugal à Grã-Bretanha, primeira prestação da anuidade de 1927”. O empréstimo ia demorar a ser pago.
Entre 1919-1920 e 1920-1921 a dívida pública mais do que duplicou, chegando ao redor dos 50 milhões de escudos. Em 1921-22 já era superior a 100 milhões, chegando a 1928-1929 acima do patamar dos 400 milhões de escudos. Nem tudo, obviamente, foi por causa do envolvimento directo na guerra (há todo o ambiente económico derivado do conflito mundial, como o aumento de preços e diferenças cambiais, com destaque para os produtos alimentares, num ambiente de crise económica e financeira) mas este está certamente incluído nas contas da derrapagem.
No final de 1939, quando a Europa vivia o início de uma 2ª Guerra Mundial, e certamente por causa disso, Salazar manda os organismos públicos fazerem um levantamento urgente sobre as repercussões da guerra de 1914-1918 nas receitas e despesas do Estado. A análise feita pela Direcção Geral da Contabilidade Pública refere que o conflito “pouco influenciou as receitas do Estado”, e, num comentário critico, sublinha que “só desde princípios de 1918 começaram a ser publicados vários diplomas com a intenção especial de ocorrer às excessivas despesas do Estado que de ano para ano vinham aumentando em sensível progressão”.
Nesse ano, tomam-se medidas como a subida dos direitos sobre alguns tipos de tabacos e imposto de selo, “aumentam-se em 5% as taxas do imposto de rendimento sob os vencimentos dos funcionários públicos”, e é instituído “o imposto sobre os lucros excepcionais derivados do estado de guerra” do qual “não consta, porém”, execução em contas públicas.
Os organismos públicos do Estado Novo destacam que após ter sido “declarada a guerra entre Portugal e a Alemanha, em 1916, é que começam verdadeiramente as despesas excepcionais resultantes da guerra e se começa a esboçar o agravamento do custo de vida”. Ao mesmo tempo, não terá havido a preocupação em “procurar aumentar as receitas públicas para fazer face ao aumento das despesas públicas”.
A ideia geral, refere-se, é que depois do fim da guerra os preços voltariam a estabelecer-se tal como antes de 1914. No entanto, é no início do ano económico de 1918-19 que “as despesas públicas começam propriamente a sofrer a influência da guerra”. Em 1919-1920, as receitas do Estado ascendem a 217,2 milhões de escudos, dos quais 8,3 milhões são receitas extraordinárias derivadas do conflito. Já as despesas somam 315,8 milhões de escudos, dos quais 87,8 milhões são encargos da guerra devidos pelos ministérios da Guerra e das Finanças. 
As últimas indemnizações
Na década de 1930 já os cidadãos alemães tinham recebido os “bens imobiliários e créditos não cobrados que se achavam sequestrados e arrolados”. No entanto, faltava ainda pagar diversas indemnizações a cidadãos portugueses lesados pelo conflito.
Um advogado, Levy Marques da Costa, publica uma petição em Junho de 1934 sobre os “sinistrados civis portugueses da Grande Guerra” (como em Angola e Moçambique), que depois irá remeter a Salazar, e onde dá conta que Portugal já recebera da Alemanha 2,3 milhões de escudos (embora as indemnizações ficassem bastante abaixo do esperado por Portugal). Aos sinistrados que ainda não tinham sido ressarcidos o Estado devia cerca de 22,6 milhões de escudos. “Os encargos da guerra, qualquer que seja a sua natureza, que não puderem ser pagos pelas indemnizações obtidas do inimigo, devem ser suportados por toda a Nação”, defende Levy Marques da Costa.
Finalmente, no Verão de 1937, já com a guerra civil a atravessar Espanha, é publicada uma lista com mais de 300 nomes de pessoas e entidades, civis e militares (ou seus familiares), com o valor da respectiva indemnização a ser paga. É o caso, por exemplo, de Francisco Marques Vieira, residente na vila de Chibia (sul de Angola, perto de Lubango) e que foi um dos vários civis afectados por “prejuízos materiais causados pelo combate de Naulila, e conjuntamente pela subsequente revolta indígena”. Duas décadas depois da intervenção militar de Portugal na I Guerra Mundial, as contas ainda estavam a ser fechadas.
Fonte: Público

O vapor “Cisne”, junto de um vapor alemão, conduzindo as forças da marinha que tomaram posse dos navios alemães, Março de 1916 




quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

13 de Fevereiro de 1917: Mata Hari é presa em Paris

A certidão de nascimento: Margueretha Gertruida Zelle; nome artístico: Mata Hari. No dia 13 de Fevereiro de 1917, a famosa e exótica dançarina holandesa é presa num hotel na avenida Champs-Élisées, em Paris, acusada pelos serviços secretos franceses de espionagem durante a I Guerra Mundial.

Mata Hari era filha de um empresário holandês e de uma descendente de javaneses – provável origem da sua beleza exótica. Casou com um funcionário da Companhia das Índias Orientais, Rudolph McLeod.
Admirou-se com a cultura oriental quando morou na Indonésia, mas o seu casamento ia de mal a pior: McLeod era alcoólico, tinha acessos de fúria e mantinha um caso com uma concubina.

Divorciada, Margaretha decidiu viver independentemente em Paris após McLeod não pagar pensões e ela ser forçada a entregar-lhe a filha. O outro filho havia morrido no Oriente, vítima de sífilis contraída dos pais – ou, segundo boatos, de envenenamento de uma criada.
Assim, passou a exercer a profissão de dançarina na capital francesa. Era 1903, tinha 26 anos de idade, e percebeu que que os parisienses da Belle Époque adoravam ver espetáculos com alusões estéticas à distante cultura oriental. Assim nascia Mata Hari, que afirmava ter sido criada num templo sagrado indiano e recebido aulas de antigas danças do país de uma sacerdotisa, quem havia mudado o seu nome para a tradução de “visão do amanhecer”.
Obteve popularidade em toda a Europa, principalmente por dançar e posar quase inteiramente nua diante do público. Cortesã e bailarina, Mata Hari coleccionou vários militares e figuras políticas francesas e alemãs como amantes.
Na década de 1910, imitadores haviam aparecido e críticos diziam que o seu sucesso se devia ao exibicionismo barato e falta de talento artístico. A sua carreira como dançarina entrava em declínio e já se iniciava a I Guerra Mundial.
As movimentações daquela mulher que esbanjava relacionamentos amorosos começaram a levantar suspeitas. As circunstâncias da sua prisão não são consensuais – assim como, aliás, muitos factos de sua vida.
Algumas fontes afirmam que a França exigiu que ela servisse como espia a partir de casos premeditados com oficiais alemães em Espanha. Por fim, mostrou-se inabilidosa, com informações pouco relevantes. Outras afirmam que os franceses interceptaram mensagens de rádio entre alemães em que eram descritas as actividades de um espião alemão, com codinome H21. A partir das informações, os franceses teriam identificado a sigla como Mata Hari.
                                                                                                                                   
Após ser presa no hotel Elisée Palace e interrogada, Mata Hari  foi acusada de servir como espia da Alemanha (ou como agente duplo, dependendo da história). Ela teria escrito várias cartas ao cônsul holandês em Paris, clamando a sua inocência e dizendo que as  suas conexões internacionais eram fruto do seu trabalho como dançarina.

Por um lado, a autora da biografia Femme fatale, Pat Shipman, defende que Mata Hari nunca foi agente duplo e que foi usada para bode expiatório para distrair a opinião pública das grandes perdas sofridas pelo exército francês. Por outro, detalhados documentos alemães comprovariam a entrada de Mata Hari como agente na Alemanha e na Espanha e confirmariam o nome de código H21.

As circunstâncias das suas alegadas actividades de espionagem durante a Guerra eram – e permanecem ainda – pouco claras. De qualquer modo, em 25 de Julho de 1917, Mata Hari foi julgada por um tribunal militar e sentenciada à pena de morte.

O seu processo foi tendencioso, cheio de falhas e montado sobre evidências circunstanciais. Não ficou provado que nenhuma informação relevante ou secreta tivesse sido passada para os exércitos inimigos da França, mas nem ela nem o seu advogado tão pouco conseguiram sustentar a defesa.
Tendo o presidente francês negado o apelo final de clemência, um pelotão de fuzilamento francês executou-a  em 15 de Outubro do mesmo ano em Vincennes, nos arredores de Paris. Mata Hari não foi amarrada e recusou-se a vendar os olhos, recebendo as balas de cabeça erguida, segundo relato de Henry Wales, jornalista britânico que cobriu a execução.

Ainda que envolta em vários mitos e incertezas sobre a sua história, Mata Hari permanece como uma das figuras com mais glamour do sombrio mundo da espionagem, símbolo da ousadia feminina e arquétipo de mulher espião.
Fontes:Opera Mundi
wikipedia(imagens)
File:Mata-Hari 1910.jpg
Mata Hari em 1910
File:Mata Hari on the day of her arrest 13-2-1917.jpg

Mata Hari no dia da sua prisão

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

18 de Janeiro de 1919: Começa a Conferência de Paz de Versalhes, sobre a Grande Guerra de 1914-18.

No dia 18 de Janeiro de 1919, algumas das mais poderosas personalidades políticas do mundo reuniram-se perto de Paris para dar início às longas negociações que marcariam oficialmente o fim da Primeira Guerra Mundial. 

Líderes das potências aliadas – França, Reino Unido, Estados Unidos e Itália –, vitoriosas, decidiram grande parte das questões ao longo de seis meses de debates. O presidente dos EUA, Woodrow Wilson, defendeu a sua tese de uma “paz sem vitória”, para que essa ideia prevalecesse nas resoluções finais. Ele queria assegurar que a Alemanha, líder das Potências Centrais e grande derrotada na guerra, não fosse tratada com excessivo rigor. Em sentido contrário operaram os primeiros-ministros George Clemenceau da França e David Lloyd George do Reino Unido, argumentando que punir adequadamente a Alemanha e limitar bastante seu poderio bélico seria o único meio de justificar o imenso custo em vidas e bens.



O Tratado de Versalhes resultante acabou por desagradar aos vencidos, vencedores e observadores neutros. Para os especialistas independentes, o documento, punitivo demais, estava distante da proposta de 14 pontos de Wilson, que fundamentou o armistício. Para os franceses, porém, todo o castigo ainda foi pequeno. O Tratado de Versalhes não atendeu por completo à sede de vingança da França, que sofreu a invasão alemã no seu território, vitimando mais de 400.000 civis. Clemenceau queria que a província da Renânia, de indústria historicamente pujante, fosse retirada da Alemanha para evitar um novo fortalecimento do país. Wilson e Lloyd George vetaram a proposta, determinando, em contrapartida, uma ocupação militar aliada na região durante 15 anos. 



No final, Wilson teve de ceder a fim de garantir a aprovação do seu projecto preferido – a criação de uma entidade internacional para a manutenção da paz, que se chamaria Sociedade das Nações. 
Mesmo com o veto às exigências de Clemenceau, os negociadores temeram que o tratado fosse pesado em excesso – as suas exigências poderiam, em vez de apaziguar a Alemanha, incitá-la ainda mais contra os aliados. E é esse o único ponto que parece ter-se tornado unânime em Versalhes. 

Representantes da Alemanha foram excluídos das negociações até Maio. Chegando a Paris, receberam um rascunho do tratado. Com fé nas promessas de Wilson, os alemães ficaram profundamente frustrados e decepcionados com o texto, que exigia a perda de parte do seu território e o pagamento de reparações. Pior ainda, o artigo 231 obrigou a Alemanha a aceitar ser a única culpada pela guerra. Esta foi uma pílula amarga que muitos alemães não iriam engolir. A Primeira Guerra expôs um novo paradigma de destruição bélica ao mundo. 



O Tratado de Versalhes foi assinado em 28 de Junho de 1919, exactamente cinco anos após o tiro de um nacionalista sérvio ter matado o arquiduque Francisco Fernando da Áustria e detonado a Primeira Guerra Mundial. Nas décadas que se seguiram, ódio e ressentimento em relação ao tratado e seus autores envenenaram o ambiente na Alemanha. Partidos de extrema-direita como o Partido Nacional-Socialista (nazi) de Adolf Hitler capitalizaram essas emoções para ganhar força, um processo que levou quase directamente ao ponto exacto que Wilson e outros negociadores de Paris em 1919 queriam evitar – uma segunda e ainda mais devastadora guerra mundial.    

Ironicamente, foi o supremo comandante aliado, marechal Ferdinand Foch, quem melhor exteriorizou o que viria a acontecer. Com seu pragmatismo característico, ele profetizou, após a notícia da assinatura do Tratado de Versalhes: "Isto não é a paz. É apenas um armistício válido pelos próximos 20 anos."




Fontes: Opera Mundi
wikipedia (imagens)

O Tratado de Versalhes

Assinatura do Tratado na Sala dos Espelhos  do Palácio de Versalhes - William Orpen

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O Tratado de Versalhes

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

15 de Outubro de 1917: Mata Hari é executada em Paris, por espionagem

Dançarina profissional, de seu nome verdadeiro Margarette Geertruide Zelle, nasceu a 7 de agosto de 1876, na Holanda, na cidade de Leeuwarden. Era filha de um pobre chapeleiro, antes rico mas caído na ruína, tendo contraído matrimónio com um oficial da marinha holandesa em 1895, pelo que acrescentou o apelido do marido, MacLeod. Entre 1897 e 1902, devido a comissão de serviço do marido, foi viver para Java e para Sumatra, na Indonésia, então uma colónia holandesa. Porém, com o regresso à Europa, MacLeod separou-se de Margarette, levando a filha do casal.Ruma depois para Paris, onde em 1905 se torna dançarina profissional, sendo conhecida como Lady MacLeod. Mas não demorou muito a alterar o nome por que era conhecida na noite parisiense, vindo a adotar aquele que a tornou célebre, Mata Hari, e que terá sido o elemento biográfico mais perene da sua curta vida. Mata Hari era uma expressão que remontava à sua passagem pela Indonésia, dizendo a dançarina que significava, em malaio (língua de onde deriva o atual idioma oficial da Indonésia, o bahasa), Sol ou, num sentido literal, "olho do dia". Ali aprendera também os mimetismos principais das danças orientais que lhe vieram a servir de repertório para as suas atuações futuras nos cabarets europeus.
De porte atlético, talhado num corpo esbelto e de elevada estatura, potencializava ao máximo todos os seus atributos físicos no seu estilo de dançar, oriental e bastante sensual, não descurando nunca a nudez. O seu estilo oriental era realçado pelo seu fino e decotadíssimo sari indiano e pelos véus ondulantes que lhe caíam sobre os ombros despidos. Apresentava-se como bailarina oriental, dizendo ser filha de uma bailarina malaia, que morrera no parto, declamando hinos a Shiva, deus hindu da destruição. O final dos seus shows era sempre reservado à narração da sua própria vida pela dançarina, com pormenores irreais, arrebatando ainda mais as plateias.
Esta forma de atuar nos cabarets parisienses e de outras cidades incendiou as plateias masculinas, onde pontificavam com bastante frequência personalidades importantes dos meios políticos e económicos da Europa. Muitos foram os seus amantes, em boa parte altas patentes militares ou oficiais. Estes contactos de alcova permitiram-lhe aceder a fontes de informações militares e estratégicas de grande importância no xadrez político da Europa de meados do século XX, ainda que os factos relativos às suas atividades de espionagem estejam ainda envoltos em mistério e alimentem lendas e enigmas.
Perante as acusações que os franceses lhe fizeram de espionagem na Primeira Guerra Mundial, por denúncia dos britânicos, Mata Hari defendeu-se inicialmente alegando ter desempenhado essas atividades a favor do governo de Paris enquanto esteve na Bélgica, então sob ocupação alemã. Mas as suspeitas francesas incidiam sobre uma eventual duplicidade. Provavelmente, Mata Hari terá sido um joguete nas mãos dos alemães, que a terão recrutado em 1916, depois de conhecerem as suas potencialidades ao serviço da espionagem através da sua longa lista de amantes, principalmente altas patentes do exército francês. Por isso, foi presa em Paris e julgada em tribunal marcial em julho de 1917, acusada de ser responsável moral por mais de 50 000 mortes em combate, tendo sido condenada à morte, pena esta que se cumpriu por fuzilamento em 15 de outubro desse ano em Vincennes, nos arredores de Paris. A sua morte foi também mais uma grande encenação: toda vestida de negro, de botas altas e um chapéu da abas largas, Margarette ergueu um dos seus esguios braços em jeito de despedida em grande estilo ao pelotão de carrascos, a sua última plateia. A mais exótica das bailarinas do século XX terminava assim uma nebulosa existência, vivida entre o romance e a traição, encarnando a figura maléfica e provocadora de Shiva.Atualmente procedem-se a pesquisas sobre as verdadeiras causas da sua condenação à morte. Os arquivos ingleses abriram-se à investigação, ainda que até agora não tenham ainda surgido novos dados que alterem a biografia por fazer da mais fantasiosa e enigmática das figuras femininas do nosso tempo.

Mata Hari. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012.
Wikipedia (Imagens)


Arquivo: Mata-Hari 1910.jpg
Mata Hari (1910)
Ficheiro:Mata Hari 6.jpg

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Mata Hari no dia em que foi presa, 13 de Fevereiro de 1917