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domingo, 17 de março de 2019

17 de Março: Dia de São Patrício

São Patrício, segundo alguns biógrafos, nasceu com o nome de Magnus Sucatus, na Escócia, em Kilpatrick, perto de Dumbarton, no ano de 385 ou 387, e morreu em 17 de março de 461, em Saul, Downpatrick, na Irlanda. É pouco verosímil que São Patrício tenha nascido na Escócia, já que esta região nunca foi conquistada ou povoada pelos romanos, tendo sido mais provável que tivesse nascido na antiga Gália, segundo outros autores, em Boulogne, Normandia, atual França. Com origem numa família romana de elevado nível social, São Patrício teve como pai Calphurnius, decurião na Gália e na Grã-Bretanha, e como mãe Conchessa, parente próxima de uma grande figura da Gália, São Martinho de Tours. Aos 16 anos foi capturado por saqueadores irlandeses e vendido como escravo a Milchu, um chefe e sacerdote druida de Dalriada, um território que hoje faz parte do condado de Antrim, na Irlanda do Norte. Durante 6 anos foi pastor e nesse período passou grande parte do seu tempo a rezar a Deus com grande fervor e fé, como relata no seu Confessio. Esse período de cativeiro foi uma boa preparação para o seu futuro apostolado, aprendendo a língua celta com que mais tarde anunciaria a Boa Nova da Redenção e adquirindo amplos conhecimentos sobre o druidismo que o ajudariam mais tarde a converter o povo irlandês. Aconselhado por um anjo, São Patrício foge e viaja durante cerca de 300 quilómetros até Westport, no Sul da Irlanda, onde embarca num navio que está pronto a partir para a Britannia. Resolve então abraçar o ministério sagrado e dedicar a sua vida inteiramente a Deus. Vai depois para a Gália, onde se recolhe no mosteiro de São Martinho, em Tours, e em um outro mosteiro da ilha de Lérins, locais famosos de aprendizagem e de prática dos valores cristãos. Quando São Germano começa a sua grande missão como bispo de Auxerre, São Patrício coloca-se sob a sua orientação, desenvolvendo um trabalho missionário no território dos Morini. Depois de São Germano ser destacado pela Santa Sé para combater os ensinamentos errados de Pelágio, na Grã-Bretanha, escolhe São Patrício para o acompanhar, o que lhe dá o privilégio de participar, juntamente com os representantes de Roma, no triunfo sobre a heresia e o paganismo. Os vários acontecimentos extraordinários da expedição incluem uma miraculosa acalmia da tempestade do mar, uma visita às relíquias do templo de Santo Albano e a vitória da Aleluia. Mas em toda a viagem São Patrício não deixa de pensar na Irlanda e tem frequentes visões das crianças de Focluth que o chamam para junto delas. Sob recomendação de São Germano e pouco antes da sua morte, o Papa Sisto III, responsável pela erradicação das heresias pelagianas e nestorianas, encarrega São Patrício de evangelizar o povo da Irlanda, sagrando-o bispo e dando-lhe o nome de Patercius ou Patricius, não a título honorífico mas como uma antevisão dos resultados e do mérito do seu apostolado. São Patrício desembarca com os seus companheiros na foz do rio Bantry, na Irlanda, no verão de 433, onde os druidas se lhe opõem pelas armas. São Patrício não desanima e procura um lugar mais favorável para iniciar a sua missão, mas antes decide ir a Dalriada, onde tinha sido escravo, para pagar o preço do seu resgate ao seu anterior dono, Milchu, e levar-lhe as bênçãos e a libertação de Deus, em troca da servidão e da crueldade sofridas. Milchu, orgulhoso, não suportaria ouvir a fama dos poderes miraculosos do seu anterior escravo e, juntando os seus tesouros na sua cabana, imola-se pelo fogo junto a todos os seus haveres.
Da passagem de São Patrício pela Irlanda ficaram na tradição a marca do seu pé na rocha na entrada para o porto de Skerries e o seu primeiro milagre em solo irlandês. Quando um chefe local, de nome Dichu, desembainhou a espada para atacar o santo, não a conseguiu erguer dado que o seu braço ficou rígido até que declarou a sua obediência a São Patrício. Dichu, convertido pelos milagres do santo, ofereceu um celeiro que se tornou o primeiro santuário dedicado a São Patrício, em Erin, onde foram construídos um mosteiro e uma igreja, e para onde o santo se retirou mais tarde.
São Patrício converteu Benen, ou Benignus, filho do chefe Secsnen, que se tornou o seu companheiro inseparável e um dos herdeiros da missão sagrada do santo. No domingo de Páscoa de 433, São Patrício compareceu numa reunião de chefes e druidas com o rei dos Celtas, em Tara, onde acendeu o fogo Pascal. As muitas tentativas para apagar o fogo e de punir com a morte o intruso foram goradas e São Patrício combateu os encantamentos dos druidas de tal forma que convenceu o rei a dar-lhe permissão de espalhar a fé cristã por toda a região de Erin. O triunfo de São Patrício foi total e esta sua vitória sobre o paganismo está descrita numa oração popularmente conhecida como St. Patrick's Breast Plate. A partir de Erin, a evangelização de São Patrício estendeu-se aos restantes territórios da Irlanda, onde converteu os chefes dos clãs e os reis dos territórios, organizando paróquias e formando dioceses. São Patrício continuou a visitar e a gerir as igrejas que fundou um pouco por toda a Irlanda, confortando os fiéis nas suas dificuldades e fortalecendo-os na fé e na prática da virtude, chegando a consagrar durante toda a sua vida cerca de 350 bispos. Quando não estava a exercer o sagrado ministério, São Patrício passava o tempo a rezar, sem nunca deixar de fazer os seus exercícios de penitência. Vestindo uma simples túnica, dormia em cima de rochas duras e devolvia todos os tesouros e ornamentos que os poderosos lhe ofereciam. De tempos a tempos, retirava-se por períodos dedicados totalmente à oração e à penitência, preferencialmente para a ilha de Lough Derg, conhecida como o purgatório de S. Patrício, que é, ainda hoje, um grande local de peregrinação. Outro local de isolamento e oração do santo, em obediência às indicações do seu anjo da guarda, era a montanha conhecida nos tempos pagãos por Eagle Mountain e que ficou a ser designada como Croagh Patrick, ou seja, a montanha de São Patrício, e que é venerada como a Montanha Sagrada, o "monte Sinai" da Irlanda. Foi nesta montanha que São Patrício passou 40 dias de oração e jejum, tendo por único abrigo uma caverna, com o objetivo de pedir a Deus uma benção especial e misericórdia para o povo irlandês que tinha evangelizado.
Muitas vezes se pensa que o apostolado de São Patrício na Irlanda consistiu numa série de vitórias pacíficas, mas a verdade é que aconteceu exatamente o contrário. São Patrício sofreu duras provas, tendo sido capturado cerca de doze vezes, uma vez foi amarrado com correias e a sua morte decretada, de tal forma que é honrado como um mártir nos antigos Martirológios. Pouco antes de morrer, São Patrício teve uma visão especial da Irlanda iluminada pelos raios brilhantes da Fé Divina que no passar dos séculos seria ensombrada por nuvens que apenas deixariam umas pequenas luzes em vales remotos. São Patrício rezou para que a luz nunca se extinguisse e foi então que um anjo lhe disse "Não receies, porque o teu apostolado nunca terá fim". E à medida que o santo rezava, a luz voltou a iluminar a Irlanda e o anjo disse-lhe que tal como a luz, a verdade Divina iluminaria a Irlanda. São Patrício recebeu os últimos sacramentos em março de 493 antes de ser enterrado no local onde mais tarde seria construída a Catedral de Down. De entre os muitos escritos atribuídos a S. Patrício, destacam-se a Confessio, a Epistola ad Caroticum, a belíssima oração, conhecida por Faeth Fiada ou Lorica de São Patrício(St. Patrick's Breast Plate), a Dicta Sancti Patritii e uma Regra de S. Patrício.


Fontes: Infopédia
wikipedia (imagens)
Saint Patrick (window).jpg


sábado, 16 de março de 2019

16 de Março de 1825: Nasce Camilo Castelo Branco, em Lisboa, autor de "Amor de Perdição", "A Queda de Um Anjo"

Novelista entre os anos 50 e 80 do século XIX e um dos grandes génios da Literatura Portuguesa, Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco nasceu a 16 de  Março de 1825, em Lisboa, e suicidou-se a 1 de  Junho de 1890 em S. Miguel de Seide, Famalicão. Órfão de mãe aos dois anos e de pai aos nove, passou, a partir desta idade, a viver em Vila Real com uma tia paterna. Aos 16 anos, casou-se com Joaquina Pereira, em Friúme, Ribeira de Pena. Em 1844, instalou-se no Porto com o intuito de cursar Medicina, acabando por não passar do 2.o ano. Em 1845, estreou-se na poesia e no ano seguinte no teatro e também no jornalismo  actividade, aliás, que nunca abandonaria. Viúvo desde 1847, fixou-se definitivamente no Porto a partir de 1848 (onde, em 1846, estivera preso por ter raptado Patrícia Emília, um dos seus tumultuosos amores, de quem teria uma filha). De 1849 a 1851 consolidou a sua  actividade jornalística, retomou o teatro, estreou-se no romance com Anátema (1851), conheceu a alta-roda portuense bem como os meios boémios e foi protagonista de aventuras romanescas.
Em 1853, abandonou o curso de Teologia no Seminário Episcopal, fundou vários jornais e em 1855 tornou-se  redactor principal de O Porto e de Carta. Nessa altura, o seu nome começava a soar nos meios jornalísticos e literários do Porto e de Lisboa: alimentara várias polémicas e publicara alguns romances. Mas foi a partir de 1856 que atingiu a maturidade literária (no domínio dos processos de escrita) com o romance (por alguns autores considerado novela) Onde Está a Felicidade?. Foi ainda neste ano que iniciou o relacionamento amoroso com Ana Plácido, casada desde 1850 com Manuel Pinheiro Alves.
Por proposta de Alexandre Herculano, foi eleito sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa em 1858 - ano em que nasceu Manuel Plácido, filho de Camilo e de Ana Plácido. Em 1860, Manuel Pinheiro Alves desencadeou o processo de adultério: em  Junho foi presa a mulher e a 1 de  Outubro Camilo entregou-se na cadeia da Relação do Porto. D. Pedro V visitou-o, em 1861, na cadeia, e a 16 de  Outubro desse ano os réus foram absolvidos. Era intensa  actividade literária de Camilo (não sendo a esse facto de todo alheias as dificuldades económicas): entre 1862 e 1863, o escritor publicou onze novelas e romances atingindo uma notoriedade dificilmente igualável. Em 1864, fixou-se na quinta de S. Miguel de Seide (propriedade de Manuel Pinheiro Alves que, entretanto, falecera em 1863) e nasceu-lhe o terceiro filho, Nuno. Quatro anos depois, dirigiu a Gazeta Literária do Porto; em 1870 iniciou o processo do viscondado (o título ser-lhe-ia atribuído em 1885) e, em 1876, tomou consciência da loucura do segundo filho, Jorge. No ano seguinte morreu Manuel Plácido. A partir de 1881, agravaram-se os padecimentos, incluindo a doença dos olhos que  afectava. Em 1889, por ocasião do seu aniversário, foi  objecto de calorosa homenagem de escritores, artistas e estudantes, promovida por João de Deus. No ano seguinte, cego, impossibilitado de escrever (a escrita foi, no fim de contas, a sua grande paixão), suicidou-se com um tiro de revólver. A casa de Seide é hoje o museu do escritor e na sua vizinhança foram inauguradas, a 1 de  Junho de 2005, as novas instalações do Centro de Estudos Camilianos.
Camilo foi o primeiro escritor profissional entre nós. Dotado de uma capacidade prodigiosa para efabular narrativas, conhecedor profundo do idioma, observador, ora complacente ora sarcástico, da sociedade (sobretudo da aristocracia decadente e da burguesia boçal e endinheirada), inclinado (por gosto, por temperamento e formação) para a intriga e análise passionais (muitas vezes atingindo o sublime da tragédia, como no Amor de Perdição), este genial autor romântico deixou-nos uma obra incontornável (apesar de irregular) na evolução da prosa literária portuguesa. De facto, foi na novela passional e no "romance de costumes" que Camilo se notabilizou, legando-nos uma série de personagens ainda hoje inesquecíveis, quadros e situações que valem pela espontaneidade narrativa, pelo ritmo avassalador da ação, pela sugestão realista e ainda pela novidade temática, como em A Queda dum Anjo. A sua versatilidade literária e criadora (aliada à necessidade de não perder o público com a progressiva influência de Eça e de Teixeira de Queirós) levaram-no a assimilar (depois de ter parodiado) a atitude estética e os processos de escrita do Realismo e do Naturalismo, visíveis nesse notável livro que é A Brasileira de Prazins e em certa medida iniciados com Novelas do Minho.
A sua arte de narrar constituiu, a par da de Eça de Queirós, um modelo literário para muitos escritores, principalmente até meados do século XX.
As suas obras principais são: A Filha do Arcediago, 1855; Onde está a Felicidade?, 1856; Vingança, 1858; O Romance dum Homem Rico, 1861; Amor de Perdição, 1862; Memórias do Cárcere, 1862; O Bem e o Mal, 1863; Vinte Horas de Liteira, 1864; A Queda dum Anjo, 1865; O Retrato de Ricardina, 1868; A Mulher Fatal, 1870; O Regicida, 1874; Novelas do Minho, 1875-1877; Eusébio Macário, 1879; A Brasileira de Prazins, 1882.
Além destas obras em prosa narrativa, assinale-se ainda os outros géneros (ou domínios) pelos quais se repartiu o labor de Camilo: poesia, teatro (de que se devem destacar O Morgado de Fafe em Lisboa, 1861, e O Morgado de Fafe Amoroso, 1865), dezenas de traduções (do francês e do inglês), polémica, prefácios, biografia, história, crítica literária, jornalismo e epistolografia (compreendendo mais de duas mil cartas).
Camilo Castelo Branco. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
wikipedia (Imagem)
Ficheiro:Camilo Castelo Branco.jpg
Camilo Castelo Branco, gravura de Francisco Pastor





Amor de Perdição

Novela composta em 1861, por Camilo Castelo Branco, durante o tempo em que o autor esteve preso por adultério na cadeia da Relação do Porto. Foi baseada num episódio real da vida de um tio seu, Simão Botelho, que lhe teria sido contado por uma tia, e cujo registo o autor teria encontrado nos livros de assentamentos da cadeia. No entanto, a manipulação e a ficção, por parte de Camilo, são de tal forma livres, que o converteu na novela sentimental mais famosa do Romantismo português.

O enredo é ultra romântico: os protagonistas, Simão e Teresa, filhos de duas famílias inimigas de Viseu, os Botelhos e os Albuquerques, apaixonam-se. A conselho de Baltasar Coutinho, primo e prometido de Teresa, despeitado pelo ciúme, Tadeu de Albuquerque decide encerrar a filha no convento de Monchique, no Porto. Simão espera-os à saída de Viseu, trava-se de razões com Baltasar e mata-o a tiro, entregando-se logo à justiça. Preso na cadeia da Relação do Porto, é condenado ao degredo. Ao embarcar para a Índia, Simão ainda consegue avistar o vulto da sua amada, que se despede dele, moribunda, esgotada pela desgraça. Horas depois, Simão toma conhecimento da morte de Teresa e morre também. A personagem mais verdadeira da novela, e que rompe com o convencionalismo romântico, é, contudo, Mariana, uma rapariga do povo, boa e abnegada, que, sentindo por Simão um amor absoluto e sem esperança, serve de intermediária entre Simão e Teresa, decidindo depois acompanhá-lo no exílio e suicidar-se após a morte dele, abraçando-se ao seu cadáver atirado ao mar.

À narrativa passional e trágica, onde o amor, o ódio e a vingança, nos seus múltiplos cambiantes surgem extremados, estaria também subjacente, segundo alguns estudiosos da obra camiliana, uma intenção de crítica social, pretendendo Camilo denunciar a obediência cega da sociedade ao preconceito obsoleto da honra familiar.
Amor de Perdição. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013


sexta-feira, 15 de março de 2019

15 de Março de 1147: D. Afonso Henriques conquista Santarém aos Mouros

A conquista de Santarém era uma pretensão antiga de D. Afonso Henriques. A importância da vila, a fertilidade dos seus campos, e os danos que os Mouros faziam a partir dali às nossas terras vizinhas despertavam cada vez mais mais os seus desejos.Porém, a dificuldade da Missão, quer pela força do lugar, quer pela abundância de pessoas e mantimentos, faziam-no adiar tal empreendimento.

A sua grande vontade e determinação não lhe permitiram contudo esperar muito mais tempo, e no inicio do ano de 1147, resolveu avançar ! Percebendo que seria infrutifero o esforço de cercar um lugar tão forte como aquele, resolveu planear um ataque de surpresa durante a noite.

Para tal ordenou a Mem Moniz, filho de Egas Moniz, cavaleiro esforçado e prudente, digno de confiança ( a Monarquia Lusitana chamava-o Mem Ramires) que fosse a Santarém e, com o pretexto de tratar de assuntos de paz com o alcaide, com quem existiam tréguas, visse e examinasse a forma e lugar mais vulnerável a um ataque.
Mem Moniz desempenhou bem a sua Missão e, regressando a Coimbra, onde se encontrava El Rei e o seu exército, lhe confidenciou todos os detalhes, facilitando a execução do plano, e voluntariou-se para ser o primeiro a atravessar as muralhas da vila com o seu estandarte.

O rei ficou satisfeitissimo com as informações e, reconhecendo a importância de manter o sigilo nada comunicou ao Conselho, mas num passeio vespertino ao longo do Mondego abordou isoladamente os seguidores de Lourenço Viegas, Dom Gonçalo de Sousa e Pero Paes, seu alferes, e colocou-os a par das suas intenções de tomar Santarém de surpresa, recomendando-lhes segredo sob pena de morte.
  

A VIAGEM

Logo depois, El Rei iniciou a execução do plano seleccionando 250 cavaleiros, todos experientes e cujo valor era reconhecido, e providenciou os mantimentos necessários. Partiu de Coimbra a uma segunda-feira de Março por caminhos pouco usados, para que nem os seus, e muito menos os mouros pudessem perceber o seu destino.

Na primeira noite acamparam em Alfafar e, na segunda em Codornellas. Daqui enviou um emissor a Santarém informar o alcaide do fim das Tréguas. Naquele tempo era normal quebrar a trégua acordada, desde que o fim fosse declarado com 3 dias de aviso.

O Cavaleiro cumpriu diligentemente a sua tarefa pelo que, na quarta-feira à noite já havia regressado ao acampamento. No dia seguinte, de madrugada partiram para a Serra de Albardos, onde chegaram ainda cedo ...

Conta-se que neste lugar, o Rei prometeu que se Deus lhe concedesse o exito na conquista de Santarém , ele edificaria um grande templo e mosteiro para os religiosos da congregação do seu servo Bernardo, abade de Claraval, e lhe daria todas aquelas terras dali até ao mar. O que depois cumpriu construindo o majestoso convento de Alcobaça e dando-lhe grande extensão de terras com muitas vilas e lugares.

O Rei esperou até à noite de quinta-feira na Serra de Albardos, saindo para a mata de Pernes onde chegou ainda antes do nascer do sol. Neste lugar, já perto de Santarém, o Rei comunicou as suas intenções ao seu exército, salientando a honra e a importancia da Missão. Recordou-lhes a recente vitória nos campos de Ourique contra cinco reis Mouros, e assegurou-lhes que o triunfo era inevitável, pois se tinham vencido contra tão forte e poderoso exército, nenhum outro lhes conseguiria resistir.

Elogiou-lhes a vontade de avançar de imediato para a batalha, que os seus rostos deixavam transparecer, e pediu-lhes que entre eles separassem 120 homens, e que fizessem 10 escadas, uma para cada 12 homens, para que quando subissem aos muros, 10 soldados ocupassem de imediato o topo e, dessa forma, facilmente aguentassem o combate até dar tempo aos restantes para entrar. Pediu ainda que os primeiros a subir levantassem logo o estandarte real, para motivar os companheiros que o avistassem e levar o desanimo aos inimigos e, porque era de esperar que os Mouros estivessem desprevenidos e desarmados, que os matassem a todos pela espada sem perdão.

Os cavaleiros escutaram com atenção e júbilo as palavras do Rei e todos manifestaram o desejo de participar e de serem os primeiros a atacar, mas quando perceberam que o Rei participaria ao seu lado, assustados pelo perigo a que ele se arriscava, logo tentaram dissuadi-lo dizendo-lhe que, se fossem eles os derrotados, nem os inimigos ganhariam tanta honra nem o reino se perderia, mas que se ele se arriscasse tudo se poderia perder ...

O rei respondeu que nunca e em circunstância alguma ele abandonaria os seus, e que onde fossem Portugueses arriscar as suas vidas em nome de Deus e da Pátria não poderia o seu Rei ficar atrás!

Animados desta forma, logo que escureceu a noite de sexta-feira, mandou el rei montar a Cavalo e partiram para Santarém em silêncio.



O ATAQUE

Próximo da vila meteram-se por um vale, tão perto dos muros, que podiam escutar os vigias Mouros, quando uns despertavam outros. Aqui permaneceram algum tempo, com os cavalos seguros pela rédea, aguardando o melhor momento para o ataque. Deixando os pagens com os cavalos no vale, partiu o Rei com os seus guerreiros pela fonte de Atamarma. Na dianteira seguia Mendo Moniz, que melhor conhecia o terreno, e logo depois el-rei com o resto da gente. Chegando à parte da muralha menos vigiada, por onde pretendiam escalar, ouviram falar dois mouros na mudança de turno acordando os vigias anteriores. Assim, tiveram de adiar o ataque, esconderam-se nos campos de trigo aguardando que os vigias adormecessem novamente.

Passado pouco tempo, D. Mendo com os seus colocaram a primeira escada. Tiveram, contudo, novo precalço, deta vez mais perigoso, quando não podendo segurar a escada, que estava apoiada apenas por uma ponta de uma lança, viram-na resvalar pelo muro até cair com grande estrondo no telhado de uma olaria. D. Mendo ficou aflito mas, percebendo que os Mouros não reagiam, apressou-se a colocar um mancebo de grande altura sobre os seus ombros, para que segurasse a escada nas ameias da muralha, o que permitiu a primeira subida e o fixar da bandeira real. Mas, ainda não tinha subido o terceiro homem, quando um vigia acordou e perguntou quem eles eram. D. Mendo respondeu então, em arábico, que era a ronda e aproximou-se até lhe cortar a cabeça, que lançou muro abaixo para animar os outros.

Outro vigia, porém começou a gritar: "Cristãos, Cristãos, traição!" o que alertou os outros Mouros da ronda que logo surgiram envolvendo-se com dez dos nossos que já estavam em cima do muro, num confronto de espadas. O barulho dos golpes e a confusão das vozes era tal que nada se conseguia perceber, enquanto el rei do fundo gritava:" Animo, meus soldados, aqui está el rei D. Afonso: acabai com todos esses infieis"

Para facilitar a entrada e auxiliar os seus guerreiros que já combatiam, o rei dividiu a sua gente em dois grupos. No primeiro, ordenou a Gonçalo Gonçalves para ir pela esquerda, de forma a que ocupassem rapidamente o caminho do Serecigo e impedissem os inimigos de se apoderarem primeiro da porta de Atamarma, o que bloquearia a entrada dos nossos e deixaria isolados os que tinham escalado os muros. O outro grupo, comandado pelo Rei, apressou-se pela direita a controlar Alfam.

Ambos obtiveram êxito com mais facilidade do que seria de esperar, e os nossos que levavam escadas para subir aos muros acabaram por entrar sem dificuldade pelas portas, pelo que só foram utilizadas duas das dez escadas.O esforçado Mendo Moniz e seus companheiros, num total de apenas 25, que haviam usado as duas escadas para subir aos muros conseguiam suster os Mouros e encaminharam-se para a praça, onde enquanto uns combatiam outros tentavam quebrar as fechaduras e ferrolhos das portas, o que acabaram por conseguir com um Machado lançado por um dos nossos do lado de fora dos muros, permitindo desta forma a entrada de el-rei e dos que o acompanhavam.

Os Mouros acorreram a todas as portas lutando e defendendo-se com todas as forças que tinham, colocando por vezes em duvida a nossa vitória. Os nossos também tiveram de usar de todas as suas forças e de todo o seu valor, para vencer a oposição dos Mouros, mas eram Portugueses os que ali estavam e com eles estava D. Afonso Henriques. Finalmente, os Mouros que restavam refugiaram-se no Alfam mas foram logo encontrados e tiveram de se render ...

Nesta altura, entre os Mouros existia apenas confusão e espanto em toda a parte, vendo os seus inimigos ocuparem a vila já vencedores: as trevas da noite, os lamentos e prantos das mulheres, os gritos dos fugitivos, o horror da morte, tudo aumentava a perturbação e a desordem. A resistencia tinha cessado, todos os que escaparam à morte estavam presos, e os despojos da vila foram abundantes.

O Alcaide conseguiu escapar-se e, juntamente com outros três cavaleiros, seguiu para Sevilha lamentando-se da perda da sua gente e do lugar.

Assim foi conquistada Santarém no ano de 1147 num sábado de madrugada, sendo esta expedição um dos mais assinalados feitos militares até então, pois com apenas 250 soldados, el rei D. Afonso Henriques conquistou um lugar fortissimo por natureza e arte e defendida por um exército numeroso e experiente na guerra.
 Fontes: http://www.origens.pt/explorar/index.php?id=47455
 santaremportugal.blogspot.pt