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sábado, 16 de março de 2019

16 de Março de 1825: Nasce Camilo Castelo Branco, em Lisboa, autor de "Amor de Perdição", "A Queda de Um Anjo"

Novelista entre os anos 50 e 80 do século XIX e um dos grandes génios da Literatura Portuguesa, Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco nasceu a 16 de  Março de 1825, em Lisboa, e suicidou-se a 1 de  Junho de 1890 em S. Miguel de Seide, Famalicão. Órfão de mãe aos dois anos e de pai aos nove, passou, a partir desta idade, a viver em Vila Real com uma tia paterna. Aos 16 anos, casou-se com Joaquina Pereira, em Friúme, Ribeira de Pena. Em 1844, instalou-se no Porto com o intuito de cursar Medicina, acabando por não passar do 2.o ano. Em 1845, estreou-se na poesia e no ano seguinte no teatro e também no jornalismo  actividade, aliás, que nunca abandonaria. Viúvo desde 1847, fixou-se definitivamente no Porto a partir de 1848 (onde, em 1846, estivera preso por ter raptado Patrícia Emília, um dos seus tumultuosos amores, de quem teria uma filha). De 1849 a 1851 consolidou a sua  actividade jornalística, retomou o teatro, estreou-se no romance com Anátema (1851), conheceu a alta-roda portuense bem como os meios boémios e foi protagonista de aventuras romanescas.
Em 1853, abandonou o curso de Teologia no Seminário Episcopal, fundou vários jornais e em 1855 tornou-se  redactor principal de O Porto e de Carta. Nessa altura, o seu nome começava a soar nos meios jornalísticos e literários do Porto e de Lisboa: alimentara várias polémicas e publicara alguns romances. Mas foi a partir de 1856 que atingiu a maturidade literária (no domínio dos processos de escrita) com o romance (por alguns autores considerado novela) Onde Está a Felicidade?. Foi ainda neste ano que iniciou o relacionamento amoroso com Ana Plácido, casada desde 1850 com Manuel Pinheiro Alves.
Por proposta de Alexandre Herculano, foi eleito sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa em 1858 - ano em que nasceu Manuel Plácido, filho de Camilo e de Ana Plácido. Em 1860, Manuel Pinheiro Alves desencadeou o processo de adultério: em  Junho foi presa a mulher e a 1 de  Outubro Camilo entregou-se na cadeia da Relação do Porto. D. Pedro V visitou-o, em 1861, na cadeia, e a 16 de  Outubro desse ano os réus foram absolvidos. Era intensa  actividade literária de Camilo (não sendo a esse facto de todo alheias as dificuldades económicas): entre 1862 e 1863, o escritor publicou onze novelas e romances atingindo uma notoriedade dificilmente igualável. Em 1864, fixou-se na quinta de S. Miguel de Seide (propriedade de Manuel Pinheiro Alves que, entretanto, falecera em 1863) e nasceu-lhe o terceiro filho, Nuno. Quatro anos depois, dirigiu a Gazeta Literária do Porto; em 1870 iniciou o processo do viscondado (o título ser-lhe-ia atribuído em 1885) e, em 1876, tomou consciência da loucura do segundo filho, Jorge. No ano seguinte morreu Manuel Plácido. A partir de 1881, agravaram-se os padecimentos, incluindo a doença dos olhos que  afectava. Em 1889, por ocasião do seu aniversário, foi  objecto de calorosa homenagem de escritores, artistas e estudantes, promovida por João de Deus. No ano seguinte, cego, impossibilitado de escrever (a escrita foi, no fim de contas, a sua grande paixão), suicidou-se com um tiro de revólver. A casa de Seide é hoje o museu do escritor e na sua vizinhança foram inauguradas, a 1 de  Junho de 2005, as novas instalações do Centro de Estudos Camilianos.
Camilo foi o primeiro escritor profissional entre nós. Dotado de uma capacidade prodigiosa para efabular narrativas, conhecedor profundo do idioma, observador, ora complacente ora sarcástico, da sociedade (sobretudo da aristocracia decadente e da burguesia boçal e endinheirada), inclinado (por gosto, por temperamento e formação) para a intriga e análise passionais (muitas vezes atingindo o sublime da tragédia, como no Amor de Perdição), este genial autor romântico deixou-nos uma obra incontornável (apesar de irregular) na evolução da prosa literária portuguesa. De facto, foi na novela passional e no "romance de costumes" que Camilo se notabilizou, legando-nos uma série de personagens ainda hoje inesquecíveis, quadros e situações que valem pela espontaneidade narrativa, pelo ritmo avassalador da ação, pela sugestão realista e ainda pela novidade temática, como em A Queda dum Anjo. A sua versatilidade literária e criadora (aliada à necessidade de não perder o público com a progressiva influência de Eça e de Teixeira de Queirós) levaram-no a assimilar (depois de ter parodiado) a atitude estética e os processos de escrita do Realismo e do Naturalismo, visíveis nesse notável livro que é A Brasileira de Prazins e em certa medida iniciados com Novelas do Minho.
A sua arte de narrar constituiu, a par da de Eça de Queirós, um modelo literário para muitos escritores, principalmente até meados do século XX.
As suas obras principais são: A Filha do Arcediago, 1855; Onde está a Felicidade?, 1856; Vingança, 1858; O Romance dum Homem Rico, 1861; Amor de Perdição, 1862; Memórias do Cárcere, 1862; O Bem e o Mal, 1863; Vinte Horas de Liteira, 1864; A Queda dum Anjo, 1865; O Retrato de Ricardina, 1868; A Mulher Fatal, 1870; O Regicida, 1874; Novelas do Minho, 1875-1877; Eusébio Macário, 1879; A Brasileira de Prazins, 1882.
Além destas obras em prosa narrativa, assinale-se ainda os outros géneros (ou domínios) pelos quais se repartiu o labor de Camilo: poesia, teatro (de que se devem destacar O Morgado de Fafe em Lisboa, 1861, e O Morgado de Fafe Amoroso, 1865), dezenas de traduções (do francês e do inglês), polémica, prefácios, biografia, história, crítica literária, jornalismo e epistolografia (compreendendo mais de duas mil cartas).
Camilo Castelo Branco. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
wikipedia (Imagem)
Ficheiro:Camilo Castelo Branco.jpg
Camilo Castelo Branco, gravura de Francisco Pastor





Amor de Perdição

Novela composta em 1861, por Camilo Castelo Branco, durante o tempo em que o autor esteve preso por adultério na cadeia da Relação do Porto. Foi baseada num episódio real da vida de um tio seu, Simão Botelho, que lhe teria sido contado por uma tia, e cujo registo o autor teria encontrado nos livros de assentamentos da cadeia. No entanto, a manipulação e a ficção, por parte de Camilo, são de tal forma livres, que o converteu na novela sentimental mais famosa do Romantismo português.

O enredo é ultra romântico: os protagonistas, Simão e Teresa, filhos de duas famílias inimigas de Viseu, os Botelhos e os Albuquerques, apaixonam-se. A conselho de Baltasar Coutinho, primo e prometido de Teresa, despeitado pelo ciúme, Tadeu de Albuquerque decide encerrar a filha no convento de Monchique, no Porto. Simão espera-os à saída de Viseu, trava-se de razões com Baltasar e mata-o a tiro, entregando-se logo à justiça. Preso na cadeia da Relação do Porto, é condenado ao degredo. Ao embarcar para a Índia, Simão ainda consegue avistar o vulto da sua amada, que se despede dele, moribunda, esgotada pela desgraça. Horas depois, Simão toma conhecimento da morte de Teresa e morre também. A personagem mais verdadeira da novela, e que rompe com o convencionalismo romântico, é, contudo, Mariana, uma rapariga do povo, boa e abnegada, que, sentindo por Simão um amor absoluto e sem esperança, serve de intermediária entre Simão e Teresa, decidindo depois acompanhá-lo no exílio e suicidar-se após a morte dele, abraçando-se ao seu cadáver atirado ao mar.

À narrativa passional e trágica, onde o amor, o ódio e a vingança, nos seus múltiplos cambiantes surgem extremados, estaria também subjacente, segundo alguns estudiosos da obra camiliana, uma intenção de crítica social, pretendendo Camilo denunciar a obediência cega da sociedade ao preconceito obsoleto da honra familiar.
Amor de Perdição. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013


segunda-feira, 11 de março de 2019

11 de Março de 1818: É publicado o romance "Frankenstein", de Mary Shelley

Frankenstein ou o Moderno Prometeu é publicado em 11 de Março de 1818. O livro, de autoria de Mary Wollstonecraft Shelley, de apenas 21 anos, é considerado por muitos como o primeiro romance de ciência ficção e terror da história. No enredo de Mary, um cientista dá vida a uma criatura construída de partes desmembradas de cadáveres. A criatura, doce e intelectualmente dotada, é enorme e fisicamente horrenda. Cruelmente rejeitada pelo seu criador, vagueia pelo mundo buscando companhia, tornando-se crescentemente brutal à medida que fracassa em encontrar um companheiro. 
Pode-se comparar o Dr. Victor Frankenstein ao titã grego, Prometeu. Prometeu apoderou-se do fogo divino de Zeus, dotando os homens comuns de evolução distinta de outros animais e, assim como o ser supremo, também gozava da criação humana. Furioso, devido ao roubo do fogo divino, Zeus castigou Prometeu e acorrentou-o no cume do monte Cáucaso, propiciando que um terrível abutre dilacerasse o seu fígado, que sempre se regenerava por conta de sua imortalidade.

Zeus ordenou o castigo a Prometeu por 30 mil anos, mas o condenado foi libertado por Hércules que deixou em seu lugar o deus da medicina, o centauro Quíron, que já estava condenado em virtude de ferida eterna causada por uma flecha terrivelmente envenenada. Num gesto nobre, Quíron oferece a sua imortalidade em prol da libertação de Prometeu, com a intenção de acabar com o seu sofrimento eterno.
Mary Shelley criou a história numa chuvosa tarde de 1816 em Genebra, onde se hospedava com seu marido, o poeta Percy Bysshe Shelley e o amigo Byron, que propôs a cada um deles que escrevessem uma história macabra de fantasmas. Apenas Mary completou a sua. Embora servisse de base para histórias de horror e inspiração para inúmeros filmes no século XX, o livro Frankenstein é muito mais que uma ficção popular. A trama explora temas filosóficos e desafia ideais românticos acerca da beleza e dos valores da natureza.

Mary Shelley levou uma vida quase tão tumultuada quanto o monstro que criou. Filha do filósofo livre-pensador William Godwin e da feminista Mary Wollstonecraft, perdeu a sua mãe dias após o seu nascimento. Discutia com a sua madrasta, sendo enviada para a Escócia para viver com parentes adoptivos durante a adolescência. Quando tinha 17 anos, fugiu com o poeta Shelley, que era casado. Após a mulher do poeta cometer suicídio, em 1817, o casal contraiu matrimónio e passou muito tempo no estrangeiro, buscando escapar dos credores. Mary deu à luz a cinco filhos, mas apenas um deles viveu até à idade adulta. Ela tinha apenas 24 anos quando Shelley morreu afogado num acidente marítimo. Posteriormente, editou dois volumes de obras poéticas do falecido marido. 
Passou a viver de uma pequena pensão do seu sogro, Lorde Shelley, até que o filho dela herdasse a fortuna e o título do sogro em 1844. Mary Shelley morreu aos 53 anos. Sendo uma respeitada escritora, Frankenstein e os seus diários ainda continuam a ser amplamente lidos. 

Fontes: Opera Mundi
wikipedia (imagens)


Frontispício de uma edição inglesa de Frankenstein, de Mary Shelley, publicada pela Colburn and Bentley em 1831. Gravura feita por Theodor von Holst (1810-1844)
Retrato de Mary Shelley por Richard Rothwell exposto na Royal Academy em 1840, acompanhado pela leitura do poema de Percy Shelley'sThe Revolt of Islam onde a apelidava de "criança de amor e luz"

sexta-feira, 1 de março de 2019

01 de Março de 1996:Morre o escritor Vergílio Ferreira, autor de "Para Sempre" e "Manhã Submersa", duas vezes Grande Prémio da APE.

Romancista e ensaísta português, natural de Melo (Gouveia), nasceu a 28 de Janeiro de 1916 e morreu a 1 de Março de 1996, em Lisboa. Estudou no Seminário do Fundão, entre 1926 e 1932, vindo a abandoná-lo para completar os estudos liceais. Licenciou-se em Filologia Clássica na Universidade de Coimbra onde, durante a segunda metade dos anos trinta, tomaria contacto com um neorrealismo emergente, formado, entre outras influências, na leitura de romancistas brasileiros. Foi professor do ensino liceal, em Évora (1945-1958) e em Lisboa (desde 1959 e até à aposentação). Notabilizou-se no domínio da prosa ficcional, sendo um dos maiores romancistas portugueses deste século.
O seu primeiro ciclo romanesco (O Caminho Fica Longe, Onde Tudo Foi Morrendo, Vagão J) pode ser compreendido à luz de uma estética narrativa neorrealista, face à qual, para o autor, "a utilidade de uma obra de arte se regula pela sua afinidade com a época em que surge (FERREIRA, Vergílio, cit. in Textos Teóricos do Neorrealismo Português (org. introd. e notas de Carlos Reis), ed. Comunicação, Lisboa, 1981, p. 112). A partir dos anos 60, o seu ensaísmo revela o contacto com o existencialismo, reflexão filosófica que marcará uma conversão profunda numa novelística cujo ponto de viragem se anunciara com a publicação de Aparição (Prémio Camilo Castelo Branco) e que atingirá plena maturidade em Alegria Breve. As sombras tutelares de Sartre, Camus ou Malraux, enquanto angustiada indagação existencialista sobre a condição humana, determinam, então, uma escrita que, tendo como precursor um mestre como Raul Brandão, assume até ao limite da vertigem, e raiando o patético, a dissolução do género romanesco, levando para primeiro plano a voz de um ser pensante, um ininterrupto monólogo interior ampliado espiralmente a partir de um eixo temático onde predomina a inquietação metafísica e existencial. Com pontos de contacto, ao nível da construção narrativa, com outros autores contemporâneos, como Faure da Rosa ou Tomaz de Figueiredo, nomeadamente, ao nível da submersão de personagens, tempo e espaços na palavra musical de um discurso subjetivo, a palavra-existência de um eu dominado pela mais profunda angústia, o universo romanesco de Vergílio Ferreira adquire, segundo Eduardo Lourenço, em O Canto do Signo, Lisboa, Presença, 1994, um "carácter fantasmático", mediante o qual o "personagem único e central que assume o discurso significante do romance" se lança paroxisticamente na "quête" [...] de si mesmo" e de um sentido que colmate a ausência de Deus e de verdades salvadoras, que o preserve do nada. Deste modo, o romancista e o ensaísta (Do Mundo Original, Espaço do Invisível, Invocação ao Meu Corpo, Arte Tempo, Pensar) confundem-se no mesmo objetivo: "tornar-nos sensível o absurdo da condição humana sem referência nem destino transcendente e, simultaneamente, extenuar, vencer por dentro, esse mesmo sentimento do absurdo, descobrir nele, até, uma razão suplementar de exaltação da mesma condição humana.". Romances como Para Sempre (prémio PEN Clube, Associação Internacional de Críticos Literários e Município de Lisboa) ou Até ao Fim (prémio APE) representam o culminar de um discurso narrativo e lírico, construído musicalmente em torno de variações temáticas organizadas "segundo essa lei de regresso do mesmo mas em constante aprofundamento daquilo que inicialmente intuído o romancista perseguira sem desfalecimento: experimentar-se, viver-se cada vez com maior radicalidade, como eu absoluto e nu diante de um mundo reduzido à sua primigénia aparição cósmica." (Eduardo Lourenço).
Traduzida em várias línguas, a sua obra inclui, além da novelística e do ensaio, os nove volumes de diário Conta-Corrente (1980-1994).
Temas como a morte, o mistério, o amor, o sentido do universo, o vazio de valores, a arte, são recorrentes na sua produção literária.
Recebeu o Prémio Camões em 1992.
Vergílio Ferreira. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.