sexta-feira, 13 de março de 2020

13 de Março de 1896:Gungunhana, imperador dos Gaza, chega a Lisboa feito prisioneiro

Ngungunhane, N'gungunhana, Gungunhana ou Reinaldo Frederico Gungunhana (Gaza, c. 1850 — Angra do Heroísmo, 23 de Dezembro de 1906) foi o último imperador do Império de Gaza, no território que actualmente é Moçambique, e o último monarca da dinastia Jamine. Cognominado o Leão de Gaza, o seu reinado estendeu-se de1884 a 28 de Dezembro de 1895, dia em que foi feito prisioneiro por Joaquim Mouzinho de Albuquerque na aldeia fortificada de Chaimite. Já conhecido da imprensa europeia, a administração colonial portuguesa decidiu condená-lo ao exílio em vez de o mandar fuzilar, como fizera a outros. Foi transportado para Lisboa, acompanhado por um filho de nome Godide e por outros dignitários. Após uma breve permanência naquela cidade, foi desterrado para os Açores, onde viria a falecer onze anos mais tarde.
O seu reinado teve início em 1884.Colocado perante a colonização europeia, Gungunhana pretendia prestar vassalagem a Portugal, mas a tirania que usava na relação com o seu povo levou a que o governo português pusesse fim às suas actividades cruéis. Travados vários combates, entre os quais os de Marracuene, Mongul e Coolela, Gungunhana foi derrotado pelas forças de Eduardo Galhardo e aprisionado em Chaimite pelo capitão Joaquim Mouzinho de Albuquerque, corria então o ano de 1895.Trazido para Lisboa, Gungunhana não mais voltaria a território de Moçambique.  A 13 de Março de 1896, o vapor "África" fundeia a meio do Tejo, frente a Cacilhas. Milhares de pessoas acorrem ao cais para ver o último trofeu de guerra da monarquia. O grupo é colocado numa jaula em forma de carruagem com destino ao forte de Monsanto. Atravessa as ruas da Baixa lisboeta, a Avenida, Palhavã, Sete Rios, Benfica, Calhariz. Ficam em exibição no Jardim Botânico de Belém. 
Posteriormente Gungunhana foi encarcerado em Monsanto, de onde mais tarde, a 23 de Junho de 1896, foi transferido para Angra do Heroísmo. aprendeu a ler e a escrever e foi convertido à força ao cristianismo e baptizado com o nome de Reynaldo Frederico Gugunhana. A 23 de Dezembro de 1906, Gungunhana morreu, no hospital militar de Angra do Heroísmo, vítima de hemorragia cerebral.

A 15 de Junho de 1985, por ocasião do décimo aniversário da independência de Moçambique, os Presidentes Ramalho Eanes e Samora Machel aceitaram a transladação dos restos mortais do resistente colonial, Gungunhana (ou Ngungunhane), para a Fortaleza de Maputo.

Gungunhana. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. 
Vidas Lusófonas
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O imperador Ngungunhane com a sua coroa de cera e bastão (gravura de Francisco Pastor, 1895)
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Ngungunhane e as suas sete esposas (no Forte de Monsanto, Lisboa, em Março de 1896)

quinta-feira, 12 de março de 2020

12 de Março de 1930: Mahatma Gandhi inicia a Marcha do Sal

Também conhecida pelo nome de Satyagraha, a Marcha do Sal foi um movimento com o objectivo de impedir a proibição da actividade de extracção do sal na Índia, que era uma colónia inglesa. Com a medida, uma proibição dos britânicos, Mahatma Gandhi iniciou uma caminhada que começou no mosteiro Sabarmati Ashram e terminou em Dandi, pequena aldeia em que o líder revolucionário pegou num punhado de sal como gesto simbólico. Mesmo após a prisão de Gandhi, o movimento continuou até Bombaim.

Na realização deste manifesto, Gandhi foi acompanhado por um bom número de seguidores, porém,  não incitou nenhum deles a acompanhá-lo, o que impediu uma reacção instantânea das autoridades britânicas. A Marcha do Sal foi iniciada no dia 12 do mês de Março de 1930 e terminou no dia 6 de Abril do referido ano.


Para descanso e alimentação, o grupo parava nas cidades em que passava, o que apenas aumentava o número de seguidores da Marcha. O principal motivo do protesto foi uma imposição da Inglaterra  que tinha o monopólio sobre a distribuição do sal. O monopólio obrigava  todos os consumidores indianos, entre eles os mais pobres, a pagar um imposto sobre o sal e instituía a proibição de eles mesmos recolherem sal e criarem salinas.

No último dia da manifestação, 6 de Abril, os participantes realizaram o ritual sagrado do banho hindu. Depois, Mahatma Gandhi caminhou até à beira do mar e apanhou um punhado de sal. Então, mecanicamente, os seus milhares de seguidores fizeram o mesmo movimento.

Como resultado do protesto, mais de cinquenta mil manifestantes foram presos pelas autoridades britânicas, inclusive o líder Gandhi.
Após prenderem Mahatma Gandhi e muitos adeptos da Marcha do Sal, os britânicos achavam que a manifestação iria cessar. Entretanto, os manifestantes continuaram a caminhada, desta vez, indo rumo à região norte, onde se localiza Bombaim. Em acto silencioso, o grupo aproximou-se de depósitos de sal que estavam protegidos por cerca de quatrocentos polícias. Quando chegaram mais perto do produto, as autoridades policiais  investiram contra eles com cassetetes. Por fim, o vice-rei  da Índia acabaria por reconhecer a sua impotência em impor a obediência à lei britânica. Cedendo às pressões do Mahatma, liberta todos os prisioneiros e  vê-se obrigado a conceder aos indianos o direito de eles mesmos recolherem o sal.


Fontes: infoescola
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Gandhi durante a Marcha do Sal

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Gandhi apanha um punhado de sal no final da sua marcha


12 de Março de 1947: A Doutrina Truman é anunciada para conter a expansão do comunismo

No dia 12 de Março de 1947, o presidente Truman, perante as pressões exercidas pela URSS sobre a Grécia e a Turquia, declara que existe a necessidade de encetar uma política de contenção do avanço do comunismo, naquela que ficou conhecida como a Doutrina Truman.

Nesta, Truman afirma a existência de um mundo dividido em dois modos de vida política, económica e de organização social diferentes sendo que, um deles  se caracterizaria pelas liberdades fundamentais do ser humano, pela democracia (eleições livres, instituições livres, governo representativo, inexistência de opressão política...) e corresponderia aos países ocidentais, liderados pelos EUA.

O outro seria anti-democrático, impondo através da força, a vontade de uma minoria à maior parte da população, controlando os meios de comunicação social, recorrendo à fraude eleitoral, não respeitando os direitos e liberdades individuais dos cidadãos. Este mundo seria liderado pela URSS que havia imposto o seu domínio a outros países (à Europa de Leste, por exemplo).
Perante o avanço da URSS e do seu domínio, aos EUA caberia a missão de ''apoiar os povos livres'', principalmente ao nível económico, uma vez que a estabilidade financeira permitiria a melhoria do nível de vida das populações e, consequentemente, diminuição da contestação social e da vulnerabilidade destas face às ideias de igualdade e justiça social do marxismo. Esta ajuda viria a concretizar-se num enorme plano de ajuda económica (que será abordado mais adiante) e que, para além dos objectivos de reconstrução europeia, tinha também a intenção de contenção do avanço do comunismo (''containment'').

Discurso de Truman
“No actual momento da história mundial, quase todas as nações têm de escolher entre dois modos de vida alternativos(...) A escolha não é frequentemente livre. Um modo de vida baseia-se na vontade da maioria e distingue-se pelas suas instituições livres,  por um governo representativo com eleições livres, garantias de liberdade individual, liberdade de expressão e de religião, e pela supressão das formas de opressão política. O segundo modo de vida baseia-se na vontade de uma minoria imposta pela  força à maioria. Assenta no terror e na opressão, no controlo da imprensa e da rádio, em eleições manipuladas e na supressão das liberdades individuais. Penso que a política dos Estados Unidos deve ser a de apoiar os povos livres que estão a resistir à subjugação por minorias armadas ou por pressões externas. Acredito que nossa ajuda deverá ser essencialmente a de natureza económica e financeira , essencial à estabilidade económica  e a uma vida política serena.
Fontes:
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Harry Truman






12 de Março de 1938: Hitler anuncia o "Anschluss", união entre Alemanha e Áustria

Em  12 de Março de 1938, Adolf Hitler anuncia o "Anschluss", a união entre a Alemanha e a Áustria, mas de facto, a anexação da Áustria à Alemanha nazi.
A união com a Alemanha havia sido um sonho dos social-democratas austríacos desde 1919. A ascensão de Hitler e o seu governo ditatorial tornam esse propósito menos atraente, apesar de ser uma situação irónica, uma vez que a união entre as duas nações era também um sonho de Hitler, austríaco de nascimento. Apesar do chanceler alemão não ter o pleno apoio dos social democratas austríacos, a ascensão de um partido de direita pró-nazi na Áustria em meados dos anos 1930, o Comité dos Sete, pavimentou o caminho para Hitler concretizar a sua jogada.  Em 12 de Fevereiro de 1938, o primeiro-ministro austríaco, Kurt Von Schuschnigg, intimidado por Hitler durante um encontro no refúgio do líder nazi em Berchtesgaden, nos Alpes Bávaros, concordou com uma maior presença dos nazis dentro da Áustria.
Von Schuschnigg, de 41 anos, era um homem de maneiras impecáveis, no velho estilo austríaco, e não era artificial para ele começar as conversações com referências à magnífica paisagem ou palavras agradáveis acerca da sala, palco de conferências importantes. 
Hitler, porém, era objectivo. ”Não nos reunimos aqui para falar da bonita vista ou do tempo”, disse. 
Para ele, a Áustria fazia de tudo para impedir uma política amigável. “A história inteira da Áustria é justamente um acto ininterrupto de alta traição. Semelhante paradoxo histórico deve agora ter fim. Neste momento. Posso dizer-lhe directamente, Herr Schuschnigg, que estou inteiramente decidido a pôr um fim a tudo isso. O Reich alemão é uma das grandes potências e ninguém levantará a voz se ele resolver os seus problemas fronteiriços”, afirmou.
Após uma hora de conversação, pontilhada por ameaças de Hitler, o chanceler nazi, dirigindo-se a ele rudemente e sempre pelo seu nome e não pelo seu título, como exigia a cortesia diplomática, concluiu asperamente que nada nem ninguém poderia frustrar suas decisões.
“A Itália? Estou de completo acordo com Mussolini. A Inglaterra? Esta não moverá um dedo pela Áustria. A França? A França poderia ter detido a Alemanha na Renânia e então teríamos de nos retirar. Mas agora é muito tarde para a França. Dou-lhe novamente pela última vez a oportunidade de chegar a um acordo, Herr Schuschnigg. Ou encontramos uma solução agora ou então os acontecimentos seguirão o seu curso. Pense a respeito, Herr Schuschnigg, pense bem. Posso apenas esperar até esta tarde”, afirmou.
Começavam neste momento as “quatro semanas de agonia”. No dia seguinte, Seiss-Inquart era nomeado Ministro da Segurança austríaco. Este ministro, o primeiro dos traidores, dirigiu-se apressadamente a Berlim para reunir-se com Hitler e receber as suas instruções. Foi decretada também uma amnistia aos prisioneiros nazis.
Schuschnigg esperava que a concordância com as exigências de Hitler evitasse a invasão alemã. Contudo, Hitler insistiu numa maior influência nos assuntos internos da Áustria, propondo até o aquartelamento de tropas do exército alemão no seu território. Schuschnigg denunciou o acordo assinado em Berchtesgaden, exigindo um plebiscito sobre a questão. Maquinações de Hitler e seus aliados internos na Áustria levaram ao cancelamento do plebiscito e à subsequente renúncia de Schuschnigg.
O presidente austríaco, Wilhelm Miklas, recusou-se a indicar um chanceler pró-nazi para substituí-lo. Em 12 de Março, tropas germânicas invadiram a Áustria. Hitler anunciou o Anschluss. O plebiscito anunciado teve lugar em 10 de Abril. Quer o plebiscito tenha sido manipulado ou o voto tenha sido resultado do terror que se disseminou com a determinação de Hitler, o Fuhrer colheu esmagadores 99,7% de aprovação para a união entre Alemanha e Áustria.
A Austria passou a ser então uma entidade sem nome absorvida pela Alemanha, ante a inacção e o silêncio dos seus aliados ocidentais. Pouco tardou para que os nazis iniciassem, com a sua típica prática policial, a perseguição aos inimigos e dissidentes políticos e às pessoas de ‘raça inferior’. 
Fontes: Opera Mundi
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Polícias alemã e autríaca desmontam um posto de fronteira
Cédula de votação de 10 de abril de 1938. O texto diz "Tu concordas com a reunificação da Áustria com o Império Germânico realizada em 13 de março, sob o führer Adolf Hitler?

12 de Março de 1514: Chega a Roma a embaixada do rei D. Manuel I ao papa Leão X

Constituída numa altura em que Portugal era nação pioneira em diversos domínios e rica do comércio com outros continentes, a faustosa embaixada de D. Manuel I à Santa  chegou a Roma em 1514. Tinha como objectivo reiterar a obediência do soberano português ao papa Leão X e, ao mesmo tempo, apresentar-lhe certas propostas, que se podiam reunir em dois grupos: as de carácter geral, no sentido do fortalecimento doutrinário e institucional da Igreja Católica, e aquelas que, sem deixarem de estar relacionadas com as instituições religiosas, tinham a ver com aspetos específicos da orientação política de D. Manuel.
A embaixada era composta por mais de cem pessoas. Era chefiada por Tristão da Cunha, nomeado em 1505 primeiro governador da Índia. Como seus assessores iam Diogo de Pacheco e João de Faria, sendo o secretário Garcia de Resende. Através dos seus representantes, D. Manuel enviou a Leão X presentes magníficos: pedrarias, tecidos e joias, bem como um cavalo persa, uma onça de caça e um elefante que executava diversas habilidades.Hanno, o elefante,  carregava um cofre com paramentos bordados com pedras preciosas e moedas cunhadas para a ocasião. Foi recebido pelo Papa no Castelo de São Ângelo. Ajoelhou-se três vezes perante o pontífice, e aspergiu água sobre os cardeais e a multidão.A embaixada fez sensação na corte pontificial, tanto pela sumptuosidade dos trajos e riqueza dos presentes, como pelo exotismo do séquito que passava pelas ruas de Roma a 12 de Março de 1514, dia em que foi recebida por vários embaixadores. O papa recebeu-a a 20 de Março, tendo sido mais tarde discutidas as questões apresentadas pelo monarca português. Apesar de os chamados "pontos gerais" não terem sido atendidos, aqueles que interessavam mais a D. Manuel foram considerados e satisfeitos, sendo a sua obra na propagação da católica largamente recompensada através de diversas bulas e breves que se sucederam após o envio da embaixada.Esta iniciativa diplomática atingiu, assim, os principais objetivos que o monarca lhe tinha estabelecido. Afirmou de forma clara o seu poderio, vendo D. Manuel reconhecido o papel de Portugal na descoberta e conquista de novos territórios e a sua soberania sobre eles.


Embaixada de D. Manuel ao Papa. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013.


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Hanno e o seu mahout. Caneta e tinta, Museu das Belas-Artes de Angers
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Papa Leão X

12 de Março de 1867: Nasce o escritor Raul Brandão

Prosador, ficcionista, dramaturgo e pintor, oriundo da Foz do Douro, no Porto, nasceu a 12 de Março de 1867, e viveu parte da sua vida em Lisboa, onde veio a falecer a 5 de Dezembro de 1930. 


Descendente de homens do mar, a sua infância foi marcada pela paisagem física e humana da zona piscatória da Foz do Douro. Ainda no Porto, conviveu com os jovens escritores António de Oliveira, António Nobre e Justino de Montalvão com quem, em 1892, subscreveu o manifesto Nefelibatas. Iniciou a sua carreira literária em 1890 com Impressões e Paisagens.



Frequentou o curso superior de Letras, mas ingressou na carreira militar. Colocado em Guimarães, retirou-se para a Casa do Alto, quinta próxima de Guimarães, local de produção da maior parte da sua obra literária, alternando o isolamento nortenho com estadias em Lisboa, onde desenvolveu paralelamente uma atividade jornalística, tendo colaborado em publicações como o Imparcial, Correio da Noite, Correio da Manhã O Dia. Nestes últimos, é constante o seu debruçar sobre o terrível drama da condição humana, perpassado pelo sofrimento, a angústia, o mistério e a morte. São também constantes as referências aos ofendidos e humilhados, face visível da expressão humana que é um dos motivos mais regulares na sua obra. 



Ao longo de uma obra multifacetada, Raul Brandão viria a ser um dos escritores que, a par de Fernando Pessoa, mais influíram na evolução da literatura portuguesa do século XX, sendo eleito figura tutelar não apenas de gerações suas contemporâneas, como o grupo reunido em torno de Seara Nova, ou o chamado grupo da Biblioteca Nacional (Jaime Cortesão, Raul Proença, Aquilino Ribeiro, Câmara Reis), como de gerações posteriores para as quais a redescoberta da obra de Raul Brandão serviu de esteiro para o reformular de estruturas novelísticas tradicionais. 



Esse processo de rutura que se enceta com A Farsa, romance que dá a voz à personagem Candidinha, um ser marginalizado pela sociedade em quem, sob a farsa da submissão, se condensa um discurso de ódio, de inveja e de maldade, culminaria em obras-primas como Os Pobres e Húmus. Dificilmente qualificáveis como romances, estas duas obras, aproximando-se de caracteres da escrita poética e filosófica, colocam em causa os modos de representação do real para se afirmar como uma meditação sobre a metafísica da dor e sobre o absurdo da condição humana, dentro da qual as coordenadas de tempo, espaço, intriga ou personagens, apenas esboçadas, servem de cenário universal e abstrato para o drama secular da luta do homem entre o sonho e a desgraça. 



Conjugando a influência de Dostoievski, com o simbolismo e com um sentido de modernismo, registado em processos como a fragmentação do eu [nas duas obras acima enunciadas, o eu tenta opor-se à voz de um alter-ego, o filósofo Gabiru, cujo discurso, também na primeira pessoa, é esboçado nos "papéis do Gabiru" (Húmus) ou na "filosofia do Gabiru" (Os Pobres)], Raul Brandão inaugura uma forma de escrita romanesca que, rompendo com a linearidade do tempo e da sintaxe narrativa, se desenvolve de forma circular em torno de símbolos e palavras-chave como árvore, sonho, dor, espanto, morte. 



Entre a redação e a publicação de Os Pobres (1906) e Húmus (1917), Raul Brandão publicou os romances históricos El-Rei Junot (1912), A Conspiração de 1817 (1914, reeditado, em 1917, com o título: 1817 - A Conspiração de Gomes Freire) e O Cerco do Porto, pelo coronel Owen (1915), obras que, tendo por objeto as convulsões do início do século XIX, se até certo ponto divergem da obra ficcional do autor pela exigência de rigor no tratamento da matéria histórica, revelam também uma tendência para envolver os conteúdos de um sentido universalizante anunciado desde a introdução a El-Rei Junot, quando afirma, numa reflexão metafísica que poderia ser colocada na boca do Gabiru, que "A história é dor, a verdadeira história é a dos gritos. [...] O Homem tem atrás de si uma infindável cadeia de mortos a impeli-lo, e todos os gritos que se soltaram no mundo desde tempos imemoriais se lhe repercutem na alma. - É essa a história: o que sofreste, o que sonhaste há milhares de anos, tateou, veio, confundido no mistério, explodir nesta boca amarga, neste gesto de cólera...". 



Em conexão ainda com a obra de ficcionista, Raul Brandão publicou três volumes de Memórias (vol. I, 1923; vol. II, 1925; vol. III, 1933) onde evoca episódios, figuras, boatos, chistes políticos e sociais; e apresenta um testemunho direto sobre acontecimentos históricos. No prefácio ao primeiro desses volumes memorialísticos, a comprovar que as fronteiras entre os vários géneros cultivados por Raul Brandão têm contornos diluídos, a voz do autor torna-se, pela mesma angústia metafísica, indistinta da das suas personagens ficcionais, ao afirmar que "O Homem é tanto melhor quanto maior quinhão de sonho lhe coube em sorte. De dor também", ao constatar a inutilidade da vida ("Agarro-me a um sonho; desfaz-se-me nas mãos; agarro-me a uma mentira e sempre a mesma voz me repete: - É inútil! Inútil!"), ao concluir que " Deus, a vida, os grandes problemas, não são os filósofos que os resolvem, são os pobres vivendo. O resto é engenho e mais nada. As coisas belas reduzem-se a meia dúzia: o teto que me cobre, o lume que me aquece, o pão que como, a estopa e a luz. / Detesto a ação. A ação mete-me medo. De dia podo as minhas árvores, à noite, sonho. Sinto Deus - toco-o. Deus é muito mais simples do que imaginas. Rodeia-me - não o sei explicar. Terra, mortos, uma poeira de mortos que se ergue em tempestades, e esta mão que me prende e me sustenta e que tanta força tem... [...] Teimo: há uma ação interior, a dos mortos, há uma ação exterior, a da alma. A inteligência é exterior e universal e faz-nos vibrar a todos duma maneira diferente. Destas duas ações resulta o conflito trágico da vida. O homem agita-se, debate-se, declama, imaginando que constrói e se impõe - mas é impelido pela alma universal, na meia dúzia de coisas essenciais à vida, ou obedece apenas ao impulso incessante dos mortos." (Memórias, vol. I, Lisboa, Perspetivas e Realidades, s/d, p. 14). 



Raul Brandão é ainda autor de várias peças de teatro, onde temática ou formalmente subverte as expectativas da receção dramática do início do século XIX, em peças como O Gebo e a SombraO Rei Imaginário, O Doido e a Morte, Eu Sou um Homem de Bem ou O Avejão.

Fontes: Infopédia
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quarta-feira, 11 de março de 2020

11 de Março de 1818: É publicado o romance "Frankenstein", de Mary Shelley



Frankenstein ou o Moderno Prometeu é publicado em 11 de Março de 1818. O livro, de autoria de Mary Wollstonecraft Shelley, de apenas 21 anos, é considerado por muitos como o primeiro romance de ciência ficção e terror da história. No enredo de Mary, um cientista dá vida a uma criatura construída de partes desmembradas de cadáveres. A criatura, doce e intelectualmente dotada, é enorme e fisicamente horrenda. Cruelmente rejeitada pelo seu criador, vagueia pelo mundo buscando companhia, tornando-se crescentemente brutal à medida que fracassa em encontrar um companheiro. 
Pode-se comparar o Dr. Victor Frankenstein ao titã grego, Prometeu. Prometeu apoderou-se do fogo divino de Zeus, dotando os homens comuns de evolução distinta de outros animais e, assim como o ser supremo, também gozava da criação humana. Furioso, devido ao roubo do fogo divino, Zeus castigou Prometeu e acorrentou-o no cume do monte Cáucaso, propiciando que um terrível abutre dilacerasse o seu fígado, que sempre se regenerava por conta de sua imortalidade.

Zeus ordenou o castigo a Prometeu por 30 mil anos, mas o condenado foi libertado por Hércules que deixou em seu lugar o deus da medicina, o centauro Quíron, que já estava condenado em virtude de ferida eterna causada por uma flecha terrivelmente envenenada. Num gesto nobre, Quíron oferece a sua imortalidade em prol da libertação de Prometeu, com a intenção de acabar com o seu sofrimento eterno.
Mary Shelley criou a história numa chuvosa tarde de 1816 em Genebra, onde se hospedava com seu marido, o poeta Percy Bysshe Shelley e o amigo Byron, que propôs a cada um deles que escrevessem uma história macabra de fantasmas. Apenas Mary completou a sua. Embora servisse de base para histórias de horror e inspiração para inúmeros filmes no século XX, o livro Frankenstein é muito mais que uma ficção popular. A trama explora temas filosóficos e desafia ideais românticos acerca da beleza e dos valores da natureza.

Mary Shelley levou uma vida quase tão tumultuada quanto o monstro que criou. Filha do filósofo livre-pensador William Godwin e da feminista Mary Wollstonecraft, perdeu a sua mãe dias após o seu nascimento. Discutia com a sua madrasta, sendo enviada para a Escócia para viver com parentes adoptivos durante a adolescência. Quando tinha 17 anos, fugiu com o poeta Shelley, que era casado. Após a mulher do poeta cometer suicídio, em 1817, o casal contraiu matrimónio e passou muito tempo no estrangeiro, buscando escapar dos credores. Mary deu à luz a cinco filhos, mas apenas um deles viveu até à idade adulta. Ela tinha apenas 24 anos quando Shelley morreu afogado num acidente marítimo. Posteriormente, editou dois volumes de obras poéticas do falecido marido. 
Passou a viver de uma pequena pensão do seu sogro, Lorde Shelley, até que o filho dela herdasse a fortuna e o título do sogro em 1844. Mary Shelley morreu aos 53 anos. Sendo uma respeitada escritora, Frankenstein e os seus diários ainda continuam a ser amplamente lidos. 

Fontes: Opera Mundi
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Frontispício de uma edição inglesa de Frankenstein, de Mary Shelley, publicada pela Colburn and Bentley em 1831. Gravura feita por Theodor von Holst (1810-1844)
Retrato de Mary Shelley por Richard Rothwell exposto na Royal Academy em 1840, acompanhado pela leitura do poema de Percy Shelley'sThe Revolt of Islam onde a apelidava de "criança de amor e luz"